Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.
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terça-feira, 30 de setembro de 2014

JÁ DIZIA ROBERTO FREIRE


“SEM TESÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO”
 

 

É muito comum ouvir-se a expressão: está inspirado. Naturalmente traduzimos a deixa como se aquele ou aquela, a quem foi atribuída à inspiração, está apaixonado, motivado por algo que invadiu seu coração, tomou o seu ser.




A nossa imaginação imediatamente cria asas. Cogitamos as mais românticas e estapafúrdias suposições. Rapidamente vamos traçando uma série de possibilidades. Multiplicam-se, em nossos pensamentos, as opções e perguntas que buscam atender a curiosidade crescente. 



É impossível não reconhecer. A paixão tem que estar presente. Já dizia ROBERTO FREIRE, desde 1987 que “SEM TESÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO”. E o que fala esse Médico Psiquiatra, autor dessa obra sob tão intrigante título? Com maestria, de modo original, transcreve um entendimento pessoal e livre, nos terrenos político e psicossocial, utilizando-se, para tanto, de ensaios, entrevistas e, finalmente, um manifesto. 


Há na obra tamanho apelo que a partir da indutiva contracapa, já se apresenta diante dos leitores um novo dínamo, um catalisador de emoções, senão vejamos o que diz o escritor: 




Descobri que é chegada a hora de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no universo: o tesão. Porém não me refiro ao tesão do Aurélio, mas sim ao do Caetano, por exemplo. Para mim esse tesão não habita dicionários oficiais; entretanto, é o que anima e encanta os  poetas tropicais. 


Tesão sem passado, apenas contemporâneo e vertical, ele é produto semântico e romântico dos que sentem desejo pelo desejo, alegria pela alegria e beleza pela beleza. Mas pode linda tesão de quem sente desejo pela alegria, beleza pelo desejo e alegria pela beleza.” Não há como fugir. Movimento, vida, paixão, tesão... impulso, ação e reação. Essa gana pela vida, por alguém ou por algo, se torna motor contínuo para nossas ações.

 

 
Engana-se quem reserva esse estado para um só aspecto: o sexual. Ora, aquilo que você faz por fazer, a exemplo do levantar-se, num dia comum, pode não lhe trazer prazer algum. Entretanto, se nessa ocasião você está fechando um grande negócio há meses perseguido ou, vai reencontrar um amigo querido, uma amiga do tempo de escola que você está curiosíssima para saber se está bem, se está realizada pessoal e afetivamente ou, ainda, se vai colher os frutos de um trabalho cuidadosamente elaborado, repentinamente aquela manhã lhe traz um ânimo novo, uma vontade que diferencia e motiva. Sair da cama deixa de ser um ato mecânico, transforma-se em prelúdio.



Ser morno, apático, insosso, não é exatamente a melhor coisa. A não ser que eu esteja sendo traída pela memória, há na Bíblia uma passagem que repele essa atitude.   Afinal a vida é cheia de escolhas e, obviamente, temos que tomar nossas decisões e responder, de uma forma ou de outra, por aquelas que fizemos ou que faremos. 




Vemos isso todos os dias e em relação a todo o nosso viver. Decidir nem sempre é fácil. Às vezes deixar-se levar oferece uma tentadora zona de conforto. Por que não aderir a aquele tipo de música? E por que não escutar o apelo comercial que invade nossos lares vendendo carros, eletrodomésticos, bebidas e outros artigos? Por que não aceitar como verdadeira a enxurrada de informações despejadas nas diversas formas de mídias?




Como é tentador não inquietar-se. Como é frustrante, para quem tem consciência de sua humanidade,  tornar-se lagartixa. Aceitar e balançar a cabeça para tudo e para todos. Isso é anular-se,  fechar os olhos e os ouvidos, bebendo da fonte ofertada pelos outros,  sem construir e evidenciar conhecimento próprio.



E nossas Paixões? Chamas que desequilibram a nossa capacidade de emitir julgamento, corroem nossas experiências, desviam a nossa conduta e cerceiam todas as tentativas de racionalidade. Transformadas em “pathos”, patologia, doença, vêm munidas de poderoso anestésico, privam-nos dos sentidos, espalham a dor, o horror e, as vezes, morte.


São múltiplas em suas apresentações. Ora é alguém que não mais convive com a criatura objeto de seu desejo e que, em represália, tira-lhe a vida sob a alegação de que não pode viver sem o seu “Amor”.  Ora é um “Esporte qualquer”, com especial ênfase para o futebol no qual torcedor ou torcedores ao invés fazerem vibrar seus corações com os hinos, os jogos, os gols de seus amados “Times”, em nome dessas paixões, apedrejam carros de cima de viadutos, espancam, matam, com requintes de crueldades, torcedores de times rivais.


E a Política? Instrumento de transformação da sociedade, registro vivo da atividade humana enquanto partícipe da polis. Também não é diferente. Em nome dessa,  vidas são ceifadas, lógica e ética jogadas ao lixo, comunidades destruídas, honras aviltadas num inabalável círculo vicioso, onde a tortura psicológica está sempre presente, constituindo na visão do sociólogo e autor Luciano Oliveira aquilo que deu título  a seu livro: “Do Nunca Mais ao Eterno retorno.”


Pois é a pressão psicológica se faz presente no âmbito da Política. É uma prática tão antiga quanto exitosa, principalmente entre os menos esclarecidos, mais fragilizados socialmente. Tais criaturas,      maltratadas pela vida, buscam consolidar suas esperanças depositando-as com esse ou aquele candidato. Até ai tudo bem. Os problemas se acentuam e as cidades se transformam em verdadeiros campos de batalha, quando o equilíbrio é substituído pela irracionalidade que transforma amigos em inimigos, parentes em desafetos, ambientes do dia a dia em odiosos nichos de angústia.



 Que tal fazer o caminho inverso? Sabendo que “Sem Tesão não há Solução” canalizar essa energia, dando o melhor de nós para que possamos ser construtores de um novo tempo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PATRIMÔNIO LITERÁRIO

LIVROS  e  REVISTAS.



O meu perfil já registra que “conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal; por nossos grandes autores; por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de conteúdo variado como Seleções, Planeta, Cláudia, Manchete, e/ou os populares cordéis, gibis e almanaques... Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimentos.


Essa ânsia por literatura foi alimentada, durante todo o nosso desenvolvimento, por duas pessoas: a primeira foi a nossa Mãe, professora e defensora da necessidade de capacitação dos filhos para que não se tornassem apenas sobreviventes e sim, pessoas com qualidade de vida. A segunda pessoa foi o nosso Pai. Homem simples, que iniciou sua vida como agricultor, mas que assumiu um compromisso consigo de fazer seus filhos e filhas independentes. Sempre a nos dizer que as filhas necessitavam, mais que os homens, tornarem-se autossuficientes.  Dessa forma não se  sentiriam, jamais, obrigadas a permanecer num casamento infeliz. O amor, o zelo deles em relação a nós não conheceu limites.


Nesse maravilhoso caminho entre os livros, iniciamos muito cedo o contato com os clássicos. Havia, em nossa casa, uma coleção de 40 (quarenta) volumes, com encadernação imitando couro, e gravação com letras douradas, chamada “Clássicos Jackson”, lendo-a conheci: Tolstoi com Anna Karenina e Guerra e Paz; Dostoiévski com Os irmãos Karamazov e Crime e Castigo;  Steinbeck com Vinhas da Ira;  D H. Lawrence com O Amante de Lady Chatterly; Balzac com A mulher de Trinta;  Émile Zola com Germinal;  Victor Hugo com  Os Miseráveis; Flauber com Madame Bovary; também,  As Catilináriasdiscursos de Cícero, feitos no Senado Romano para denunciar Catilina e que era rotineiramente  emprestado, principalmente a políticos de nossa cidade. Havia ainda muitos outros autores universais completando a coleção e que também foram lidos por nós.


Tínhamos a nosso dispor uma Coleção de Érico Veríssimo que nos fazia sonhar com as tramas de romances como “Olhai os Lírios do Campo; O Continente;  Saga; O tempo e o Vento; Um lugar ao Sol; Incidente em Antares. Nesse universo lembranças recorrentes como o Capitão Rodrigo que tomou vida própria saindo do “Continente” e povoando a imaginação de muitos leitores; do mesmo modo, Ana Terra que dá origem a família Terra e integra o primeiro volume da triologia “o Tempo e o Vento”. Com o escritor Gaúcho saíamos de nossa pacata cidade do interior para vivermos maravilhosas aventuras nos Pampas.


Do sul voltamos para o Nordeste. Jorge Amado era o nosso preferido. Coleção completa. Desde o País do Carnaval - primeiro romance -,  até Tereza Batista Cansada de Guerra. Para nós as aventura de meninos e meninas livres como retratados em Capitães da Areia ou mesmo, o romance de Gumercindo – Guma e Lívia -, em Mar Morto; ou, ainda, a pimenta de Dona Flor e Seus Dois Maridos, com direito a mais condimento, em Gabriela Cravo e Canela, abriu um porta para novos conhecimento sobre uma cultura desconhecida - a baiana. 



O mundo de Jorge Amado, a linguagem picante, as religiões Afro, os costumes diferentes  e  ali desvendados, aguçavam a natural curiosidade que todo adolescente tem a respeito de sexo e vida adulta. A mistura de personalidades boêmias, carolas, mães de santos, capoeiras, coronéis, prostitutas e bordéis, era algo a ser visitado na obra do escritor e, comentado baixinho, em sussurros.  Há, entretanto, uma doce ressalva a ser feita nessa linha focada pelo autor: “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, livro infantil, escrito em 1948, numa homenagem do escritor ao seu filho mais velho, João Jorge nascido naquele ano. Foi publicado em 1952.


Desfrutávamos, também, da companhia de Zé Lins do Rego com O Menino de engenho, Doidinho, Bangüê, Usina, Pureza, Riacho Doce, Fogo Morto, Eurídice, Cangaceiros. Representando uma literatura regional, o escritor, Flamenguista convicto, criou tipos fantásticos como “Carlinhos”, o Coronel José Paulino, o Moleque Ricardo, o Tio Carlos, Capitão Vitorino – o papa rabo, o Coronel Lula de Holanda, o Mestre José Amaro, entre outras. Conhecer o universo dos engenhos, as brincadeiras, a liberdade e a exacerbada sexualidade dos garotos, oferecia a oportunidade de uma viagem a um “mundo” muito perto e ao mesmo tempo inatingível. Com certeza, todos os meninos que leram algum desses livros sonharam ter, pelo menos um dia de Carlinhos.


E a literatura infantil? Ah, essa tinha legítimos representantes. A nossa leitura nessa fatia literária contou com Contos de Andersen, em destaque: O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, A Roupa Nova do Rei. Também tínhamos a Coleção dos Irmãos Grimm com as histórias de Branca de Neve, Cinderela, João e Maria, O Flautista de Hamelin, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida e outras. E como obras soltas Robin Hood, Robson Crusoé, A caça ao Tesouro, Alice no País das Maravilhas e As Viagens de Gulliver,  com os maravilhosos anões liliputianos.



Ainda tem um lugar especial em minha memória a Coleção Mundo da Criança  - lançada pela Editora Delta, na década de cinquenta, com 15 (quinze) volumes.  Nessa destaco o volume de nº 3, com história maravilhosas como Pedro e o Lobo,  João e o Pé de Feijão, A Princesa e a Ervilha...o volume de nº 2 (dois) trazia, em forma de poesia, relatos tão fantasiosos quanto bonitos onde O Salteador das Estrada, A Princesa Menina (Doliti Diliti Dina),  O Roxinol e o Imperador e, Taturana - a bruxa rainha da festa, arrancaram suspiros e emoções.


Entre os brasileiros que também escreveram para o público infanto-juvenil,  Mestre Monteiro Lobato com seu Sítio do Pica Pau Amarelo, Reinações de Narizinho, Aventuras, Histórias de Tia "Nastacia" , entre outras, fizeram melhores os nossos dias e mais ricas a nossa imaginação. Alguns personagens criados por Lobato  atravessaram gerações como é o caso de Emília, Pedrinho, Narizinho, o Visconde de Sabugosa, a Cuca, Dona Benta e Tia "Nastacia" e o sempre presente Saci Pererê. Era aventura com direito a sonhar acordada.


Não seria justo, deixar da atribuir crédito às revistas. A minha primeira lembrança vai para Seleções do Reader’s Digest que tinha um formato menor que as revistas atuais, primava pela excelência dos artigos, buscava personalidades marcantes, a diversidade nas matérias e a inclusão do humor, o que a tornava ímpar. Por toda a adolescência e faculdade pudemos contar com esse auxílio qualitativo à nossa formação enquanto leitores. 


Também, convivemos desde cedo com as Revistas  Manchete – criada por Adolpho Bloch da  Bloch Editores e, O Cruzeiro, fundada por Carlos Malheiros Dias e publicada pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand (Fonte – Wikipédia –a enciclopédia livre), nessa revista, esperava-se, sempre pelo   impagável “amigo da Onça”, numa imortal criação do Pernambucano Péricles, cuja sátira, inteligentemente conduzida, tornou-o um dos mais conhecidos cartunistas brasileiro. A Revista foi, sem dúvida nenhuma e por muito tempo a mais importante publicação brasileira do gênero. 


Lembro, também da Revista Planeta, mais ou menos nos idos de 1973 e que se propunha a fazer algo diferente. Tratar de assuntos como parapsicologia, ufologia, esoterismo, meio ambiente entre outros, tornando-se, por isso mesmo, motivo de muita controvérsia. Uma dessas situações eclodiu com a reportagem publicada na Revista Planeta, número 138-C, em março de 84, reeditando uma acirrada discussão entre defensores de uma pseudo aparição de um disco voador sobrevoando a pedra da Gávea e aqueles para quem a aparição era apenas fraude. Com toda a certeza a polêmica aumentou a tiragem da revista e atiçou os leitores.


E os Gibis? Em múltiplas publicações, davam vida e movimento a heróis  para todos os leitores do gênero. Assim, líamos os de faroeste com Kit Carson; Bill Kid; Tex; O Zorro - aquele co Silver e o índio Tonto; Durango Kid;  Wyahtt Earp;  Cheyenne; Nevada; Buck Jones. Gostávamos, também, dos chamados heróis das selvas como Tarzan - com Jane , Boy e shita;  O Fantasma que Anda, com Diana, Capeto, Heroi e os pigmeus; Jim das Selvas; Sheena a Rainha das Selvas; Ninotckhka a Rainha das Selvas, vivida no cinema por Greta Garbo. Entre os herois, aqueles de capa e espada como o Zorro de Don Diego de La Vega, o Príncipe Valente. Os heróis moradores de grandes cidades como  Mandrake e sua noiva a Princesa Narda e o inseparável  guarda costas, Lothar.  O Super homem, extra terrestre constantemente em conflito por não poder se revelar a sua amada Louis lane .


Uma turma de garotos também encantou aos de nossa época. Falo da Turma da Luluzinha e da Revista do Bolinha. Com a interminável ciumeira que Lulu sentia de Glória, na disputa por Bolinha. Plínio Raposo, era o rival de Bolinha no amor de Glória e sempre armava ciladas para mostrá-lo como "atrapalhado", tudo no meio das aventuras de Juca, Aninha, Carequinha e os adultos que faziam os pais e vizinhos dos meninos.  As publicações brasileiras da Disney, através da Editora Abril eram excelentes e uma constante, assim leituras de revistas do Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Tio Patinhas e, mais recentemente, sem nada dever as "estrangeiras", as nacionais criadas e produzidas por Maurício de Sousa, com os quadrinhos da Turma da Mônica, Chico Bento, Cebolinha e outros.


Não podemos esquecer o mais fiel representante literário do Nordeste . Não de suas capitais, onde convivem em perfeita harmonia livros menos cobiçados  e publicações intelectuais destinadas a um público sofisticado, elitizado. Refiro-me aos cordéis, de que tomamos conhecimento através de nosso tio Luís, afeito as coisas da zona rural e que, ele mesmo, parecia, por sua simplicidade e gestos rudes, uma pessoa saída de um daqueles folhetos. Uma literatura que utiliza linguagem simples e histórias aparentemente singelas. Sem o formato utilizados por editoras o cordel passa de geração a geração  personagens "modelos de experiência", para orientá-los , aparentemente sem nenhum roteiro previamente definido.



Quase sempre tendendo a fantasia por fantasia, o cordel não tem outro compromisso senão estabelecer uma forma de comunicação que preserve valores ligados à comunidade. Inclusive, não subestima  clichês que funcionam até mesmo sem que seus autores tenham consciência de tal fato. Alguns ultrapassaram as barreiras nordestinas, como o Romance do Pavão Misterioso; Pedro Malazarte; João Grilo; A Chegada de Lampião no inferno; A história de Lampião e o Cordel Encantado - inspirado na Pedra do Reino, do Grande Paraibano Ariano Suassuna.


Inclusive, para não cometer injustiças, alguns romances ditos de inspiração espírita como  O Morro dos Ventos Uivantes, o Conde de Monte Cristo, Sangue de Tigre, A Caravana Verde,  Éramos Seis e outros, nos fascinava e dava medo. A curiosidade sempre vencia, embora lado a lado com o desconhecido e a insônia resultante.



Não fosse cansar a paciência de meus “quase... cinco leitores”, falaria, da Coleção das Moças, romances, comprados para o deleite de minha mãe e lidos ás escondidas, com personagens lindas e cuja escritora ou escritor M. Dely era a mais lida.  Os livros de bolso, coleções que encantaram as moças entre as décadas de setenta e oitenta, como Sabrina, Barbara Cartland,  Corin Tellado,  Carlos Santander, Bianca, Júlia e outras,  continham um forte apelo erótico e descrições que incentivavam a imaginação, mas esta é outra fase quando já começávamos a ver o mundo como ele é. Quem sabe, num outro momento... Antes porém deixo meu testemunho de que cada uma das formas de literatura aqui citada contribuiu para que eu me tornasse uma adulta com uma visão mais aberta aos mundo, a vida. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

DESPREZO AO SEXO!

CHOQUE!
             Acredito que, entre outra coisa, o bom senso é algo a ser utilizado em qualquer faceta da vida humana e, invariavelmente, resulta em ganho à convivência das pessoas, isso até mesmo sem que se examine a questão da aprendizagem que provêm de tais direcionamentos.


             A interpretação de fatos e atos comuns  pertence a cada um dos que integram a ação ou apenas a observam. Aprendi que a mais simples das explicações acerca de algo é a literalidade da coisa. Ao ler um texto, o mais simples é apreender o sentido das palavras e do conjunto, a literalidade do que está escrito.  Se é um fato, a príncipio e a forma mais natural é ver o quadro que se desenrola diante dos olhos sem buscar outros significados. É por assim dizer, uma visão reta, sem entrelinhas, sem atalhos.


             Pois é, hoje quero abordar a questão da sexualidade. Não a opção exercida por adultos que têm o direito de livre escolha, de exercer a sua preferência, o seu comando íntimo. Falo de algo mais emocional, algo que influi deformando a natureza dos seres.

             Li e não acreditei. Numa publicação da revista Veja, datada de 19 de dezembro de 2012, às folhas 92, 94 e 96, há uma matéria que registra inovação nas propagandas das filiais das lojas de brinquedo Touys ”R”Us e BR Toys, no que tange a confecção dos novos catálogos destinados a época de Natal.

            
              Seguindo  “uma orientação da Swedish Advertising Ombudsman, uma das organizações que regulam a propaganda na Suécia", nos anúncios destinados a venda de brinquedos, naquelas especializadas, as crianças foram fotografadas de forma inversa ao que tradicionalmente ocorre em tais ocasiões. 


             Vê-se sob o título “EDUCADOS NO SEXO NEUTRO”, fotografias de crianças, de ambos os sexos, onde o menino, passa roupa usando um ferro cor de rosa, sob uma mesa de passar também cor de rosa;  uma menina faz pose usando uma metralhadora. Normalmente tais brinquedos estariam nas mãos inversas. A criança do sexo masculino com a arma e a do sexo feminino com os costumeiros instrumentos á moda das donas de casa. Inclusive, há o registro de que no impresso promocional " as fotos mostram as meninas com carrinhos e armas de mentira e meninos se divertindo com bonecas e utensílios domésticos...".


             Sob o argumento de que foram inúmeras as reclamações da propaganda conservadora praticada pelas lojas, o órgão orientou que se adotasse uma visão “ de uma corrente pedagógica que defende a tese de que meninos e meninas devem ser criados da mesma forma”. Leia-se criação sem observação, distinção do sexo das crianças. Isenção de Gênero.
      
             Pois é, me defino como uma pessoa simples. Sem o verniz dos intelectuais. Sem o conhecimento dos Mestres. Sem a petulância e a certeza dos “donos da verdade” que encontramos no nosso dia a dia. Me vejo como uma amante da natureza, acredito que deixá-la seguir o seu curso é uma grande escolha.

      
             A condução deliberada de atos contrários ao que se apresenta com naturalidade, pelo menos para mim, é algo que ressoa assustador. Demonstrar total desprezo ao sexo pode resultar em algo extremamente nocivo aos envolvidos.

             Realmente eu já havia visto imagens de crianças trajadas diferentemente do que seria comum ao sexo, mas, em momento algum me deparei com artigos onde a situação fosse tratada com a clareza e detalhes  expostos na revista Veja. Há explicações sobre a atitude,  as suas origens,  adeptos e  resultados visíveis de tais opções.



             Assim causou-me um misto de dor e pena ver uma das filhas de um casal famoso,  que  desde bebê – foi vestida pelos pais como se fosse um menino. A criança, uma linda menina, aparece, talvez beirando sete anos, vestida de menino, com uma expressão masculina, totalmente descaracterizada de sua natureza feminina. O gênero feminino parece fazer parte de uma ficção, pelo menos para aqueles pais em relação à filha.
           
              E não foi opção, tal caracterização foi imposta, lhe foi tirado o direito de se mostrar como menina, criança do sexo feminino, uma direção escolhida por quem a educa e que, necessariamente, não teria de ser  a adotada, por inclinação natural, da maior interessada. Há uma violação, uma indução que, inclusive, a uma pessoa dotada de senso comum, sem especialização sobre o assunto, poderia sugerir problemas psicológicos, confrontos e indefinição.



             Para mim a sexualidade é algo extremamente pessoal. Vi ao longo de sessenta anos as mais estranhas situações envolvendo tão importante aspecto da vida humana. Conheci alguém que durante muitos anos foi vista e tratada pelos pais como menino porque eles desejavam um filho homem. Esta menina, embora muito nova, tem apenas dezoito anos, comporta-se como se fosse um adolescente. Cerca-se de amigos, faz referências a si como do sexo masculino, veste-se e assume posições extremamente masculinas. Hoje há um visível arrependimento dos pais.

             Nesta mesma linha de ação, um menino que foi tratado por sua mãe como se fosse menina, sempre recebeu presentes de meninas, tinha toda a coleção da boneca Barbie, era vestido sempre com roupinhas rosa, shortinho com babado nas pontas, blusas e não camisas. É hoje um jovem totalmente despersonalizado em sua masculinidade, não se reconhece como do sexo masculino. Cito um exemplo de cada caso. Conheço muitos outros com maiores ou menores repercussões, em todos observei a ausência de respeito dos pais e dos cuidadores e o total aborrecimento quando se lhes fazia alguma observação.


             Estranho mundo esse onde os responsáveis pela formação de seus filhos, influenciados até mesmo por decepções,  sonhos que não conseguiram realizar ou por orientações de profissionais descompromissados com a boa mídia e que, por anos a fio erotizam crianças através de anúncios, artigos e outros, negam-lhes o direito de serem – enquanto crianças, em formação física e psíquica - ajustados a realidade de seus corpos. O tratamento de crianças deve ser igualitário, respeitadas as diferenças próprias dos sexos, da idade, da condição física e psicológica.
            
             A repulsa à orientação sexual, na conformidade do que é natural pode levar a erros incorrigíveis. A Veja o citou e a enciclopédia Wikipédia registra:  “ David Reimer - nascido saudavelmente do sexo masculino, mas que teve sua identidade sexual modificada e foi criado como uma menina depois que seu pênis foi acidentalmente destruído durante uma circuncisão. Nascimento: 22 de agosto de 1965, Winnipeg. Falecimento: 4 de maio de 2004, Ottawa. Cônjuge: Jane Fontaine (1990 a 2004). Irmão: Brian Reimer. Filiação: Janet Reimer, Ron Reimer.


             Resta informar que a mesma fonte – A Veja – publicou, que David jamais aceitou ser tratado como menina, aos dois anos rasgava os vestidos, recusava-se a brincar com bonecas, sofreu bulliyng na escola e somente veio a saber da mudança de sexo aos 14 anos. Os seus pais, sob a orientação de um psicólogo nos Estados Unidos foram aconselhados a uma cirurgia para construção de uma vagina artificial.    

  
             O profissional buscava comprovar uma teoria segundo a qual não eram as características físicas que determinavam o sexo e sim a forma como as crianças eram criadas por seus pais. Mais uma vez a minha visão de leiga sugere deduções diferenciadas quais sejam:  o remorso  ditou a opção dos pais e a ânsia de comprovar uma teoria e  ser reconhecido por tal, ditou a conduta do profissional. Ambos fracassaram. David pagou com sua vida o erro desses. Não só ao suicidar-se em agosto de 2004, mas e principalmente, durante toda a sua atormentada existência. 


                Os problemas decorrentes da ausência de definição foram abordados  em Tomboy que é um longa-metragem escrito e dirigido por uma francesa, Céline Sciamma, sobre a atração na adolescência, quando a personagem título se revela atraída por outra do mesmo sexo, assumindo personalidade dupla, identificando-se mais como do sexo oposto ao seu, criando um nome diferente e o utilizando fora de sua casa. 


                O filme não define o que acontecerá no futuro, mesmo assim mostra a flexibilidade dos pais que estão preocupados com a gravidez da mãe, a adolescência da irmã mais velha e sequer se vê um só diálogo que passe informações, esclareça dúvidas, demonstre interesse dos pais em relação à filha. Será essa a ideia de família a que devemos nos acostumar?

             Aos pais um apelo no sentido da preservação de seus filhos. Não há pieguice, redundância ou atraso, em prover as crianças da proteção necessária enquanto não estão desenvolvidas, física, mental, moral, espiritual e socialmente em condição de liberdade e dignidade, conforme estabelece o Estatuto da criança e do Adolescente.


         Ainda, o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais (Art. 17 ECA). 
             Imagine-se adulto, exercendo plenamente a sua sexualidade e de repente tomar conhecimento, através de pessoas ou de fotografias, que em determinado período de sua vida você foi tratado e caracterizado como sendo do sexo oposto. Ou você que vive em conflito com seu corpo descobrir que ouviu de seus pais, durante toda a sua infância o quanto foi decepcionante ter uma filha ao invés de um filho homem? Ou vice-versa.

             Os ensinamentos, a orientação, a educação no lar é a primeira que um ser humano recebe. Na  Bíblia Sagrada em João 8:38 há a seguinte passagem:” Eu falo das coisas que o meu Pai me mostrou, mas vocês fazem o que aprenderam com o pai de vocês.” O Cristo assinalou a importância da postura, das escolhas feitas pelos pais como caminho indicado aos filhos. O desprezo pela natureza desses certamente não poderá repercutir bem em sua intimidade.
             Espero jamais ter que conviver com um desrespeito tão grande as nossas crianças!