FAZER MEMÓRIA À VIRTUOSE
Era uma vez..., assim começavam os Contos de Fada,
as Histórias de Trancoso, os Folhetins e os Causos que povoaram a minha
infância e de meus irmãos. A origem, o narrador ou narradora, eram sempre uma
babá, um tio paterno que morava no interior e, pasmem, um tio paterno que
morava no Rio de Janeiro mas, a passeio,
revisitava suas origens, inclusive, aquela área da alma povoada por personagens
de um mundo infanto-juvenil, ora nordestino, ora universal. *Imagem:imelco.com.br
Pois é, era uma vez um homem, alto, forte, belo, e
sereno. Dono de sonhadores olhos castanhos e de uma voz de modulação aveludada, essa em descompasso com a sua figura, viril, máscula. Versátil, iniciou sua passagem pelo
Mundo das Artes no Circo. Foi acrobata, malabarista e, despia-se da sua natural
beleza, escondendo-a detrás da máscara de palhaço, ofício que o agradava por
demais. Através do palhaço revelava sua natureza humana, mesclando alegria de
fazer aflorar o riso, com a tristeza que o personagem carrega de forma
implícita. Pois é sabido que mesmo chorando por dentro, o palhaço traz pintado
no rosto um sorriso e, com ele, dribla sua dor. *Imagem:ego.globo.com
Como se tivesse urgência no seu viver, Domingos Montagner, fez do Circo o seu palco. Passou pelo teatro. Conquistou Prêmios. Fundou, em sociedade com oito amigos, o Circo Zanni onde exerceu a Diretoria Artística. Surgiu e fez sucesso na TV brasileira, maduro, numa idade onde os galãs já começam a migrar para outros papéis. Galã, não se preocupou com a idade. Foi um astro de imensurável grandeza. talhado ao sucesso . *Imagem:gonzagoen.blogspot.com
Não foi apenas um Intérprete. A ausência dele das
mídias que se deliciam com fofocas, notícias inescrupulosas - na maioria das
vezes infundadas -, num mundo onde a informação se dá em tempo real, mostrou
uma pessoa comprometida com a dignidade, com o respeito a si, a família e a
vida. Daquelas que vêm para escrever seu nome na história. Seja na vida, na
arte, na teledramaturgia, nos anais da fama, nos corações dos que tiveram a
felicidade de privar de sua amizade, na saudade de milhões que aprenderam a
amá-lo de longe, mesmo que fosse em razão dos personagens vividos.*Imagem:wikipedia.com.org
A imagem reverenciada no meio artístico e fora dele, as informações unânimes, não deixam dúvidas: Domingos Montagner, foi um iluminado. Possuía o dom do encantamento. Sua figura transmitia serenidade, respeito, bem querer. A cada papel sobressaia mais e mais, na vida e no seu trabalho. Real, compromissado com arte da interpretação, nenhum telespectador conseguiria pensar no personagem vivido por ele, na pele de outro ator. *Imagem:radiojornal.ne10.uol.com.br
Transitava tranquilamente nos bastidores, nos
palcos e nas telas. A imaginação autoral, sem fronteiras étnicas, físicas,
temporais, tornou-se um ambiente propício ao fantástico talento de uma figura
ímpar. Assim, ultrapassando épocas, escolas, gêneros
e artes típicas de lugares e civilizações, brilhou num universo totalmente
miscigenado, emocionando a todos. *Imagem:www1.folha.uol.com.br
Os trabalhos realizados pareciam escritos para ele. Brotavam de dentro do seu peito. A ênfase à magia da infância que, no Nordeste Brasileiro, mistura personagens épicos, reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas, gnomos, cavaleiros medievais, madrastas, bruxas, magos e muitos outros a, cangaceiros, jagunços, coronéis, lobisomen, boto cor de rosa, encantados e encantadas, pássaros mágicos, profetas, adivinhos, curandeiros, bichos falantes, saci, mula sem cabeça, disputas com o diabo... tudo, num mesmo espaço ou em separado, tornou-se um diferencial na sua interpretação: impunha-se desconhecer limites. E não havia. O amor ao seu ofício superava qualquer obstáculo.*Imagem:oglobo.globo.com
Como esquecer “o Capitão Herculano Araújo” – cangaceiro temido e famoso; um homem preocupado com sua família, se debatendo entre sua consciência e aquilo que acreditava ser necessário fazer. Mais difícil ainda deixar no passado o turco Zyah, homem rude, morador de uma caverna, dono de uma docilidade e de uma sedução há muito esquecidas pela modernidade das relações atuais. Ciente e consciente, encarnar o turco oportunizou ao ator um passeio por fantástica cultura e tornou natural, quase inata, a marcante e sedutora dança por ele realizada em vários momentos.*Imagem:wp.clicrbs.com.br
Onde
encontrar a impressionante força moral de Raimundo Fonseca? O personagem que criou vida na voz, no
gestual, na figura composta com a magnífica interpretação de Domingos
Montagner. E o Miguel de Sete Vidas, figura dramática, densa, carregada de um
remorso sem causa; ambientalista, solitário por opção, cada vez mais
distanciado do convívio e de vínculos afetivos; coerente e coercitivo, fez os
expectadores transitarem entre um protagonista impenetrável e, ao mesmo tempo
previsível em sua humanidade, com erros e acertos.*Imagem:novelas.sapo.ao
Igualmente
aplaudidas e reconhecidas, suas atuações no cinema, no teatro e na Tv, seja em
filmes, casos especiais e minisséries,
como no Brado Retumbante , no qual viveu o “Presidente Antônio Ventura”, alçado á Presidência por um golpe do
destino, carismático e determinado no combate à corrupção. Revelava sua
fragilidade, seu calcanhar de Aquiles, nas aventuras extraconjugais que punham
em risco o homem e a autoridade.*Imagem:extra.globo.com
Muito se
poderia dizer sobre Domingos Montagner. Foi um ator, teatrólogo e empresário
brasileiro, nascido aos 26 de fevereiro de 1962. No auge da forma e da fama
teve o papel de sua vida. Santo dos Anjos, o herói do Velho Chico. Encarnando
um sertanejo valente, empenhado na luta em defesa dos pequenos produtores de
frutas da região, contra a cultura do Coronelismo – ali vigente. Encanta e
seduz por sua beleza e firmeza de caráter. Viveu um amor intenso e verdadeiro.
Como todos sonham ou sonharam. *Imagem:campoformoso.com.br
Foi pai, embora não soubesse. Perdeu a condição de pai biológico da filha que mais parecia
“Santo de saia”. Foi ferido. Levou cinco
tiros, mergulhou para morte, submergiu e foi salvo por “encantados”, pajés e
índios. Resgatado do mundo das sombras pela voz maviosa de sua grande paixão,
rasgou a carne, expôs-se ao ódio, venceu resistências, enfrentou a barbárie de
seus inimigos. Caminhava a passos largos para a felicidade. Que pena, a vida
não imitou a arte.Imagem:veja.abril.com.br
Santo dos Anjos teve melhor sorte que seu
interprete. Sobreviveu aos reveses.
Privações de toda natureza; perdas familiares de maneira trágicas; separação da
mulher que amava e de seu primogênito; tentativas de morte, humilhações e dor.
Jamais se entregou. Seu sorriso, sua paz, sua força interior, entremeadas à
luta tornaram-no vitorioso, inesquecível. *Imagem:areavip.com.br
Paulista de Tatuapé, foi um grande ator, um “colega” amado e admirado por seus pares. Casado há quatorze anos definiu sua relação em declarações como: “Nosso diálogo é sempre gostoso, leve." "Se não fosse casado com ela, não seria quem sou hoje." Pai de Leo, 13 anos, Antônio, 8, e Dante, 5 se disse: "Sou louco pelos meninos. Procuro não criá-los para mim, e sim para o mundo, mas sou aquele tipo de pai canguru. Gosto de carregá-los comigo". *Imagem:jaguarverdade.blogspot.com
Partiu. Não conseguiu na vida real a benesse da
fantasia. Num mergulho derradeiro pegou carona em águas revoltas, entregou-se ao Velho Chico como se voltasse
às primícias de sua vida. Não foi o
primeiro a retornar. O padre Romão, vivido pelo excelente ator - Humberto Magnani – também deixou o elenco
e, órfãs sua ovelhas fictícias. A casa do Pai tem muitas moradas. Com
toda a certeza há um lugar para Domingos Montagner, para Humberto Magnani e
todos que fazem a viagem de volta. A nós resta a saudade e a incompreensão dos
fatos ante a nossa pequenez. Segue e fascina nessa nova dimensão.




































