Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

MISSES, MILIONÁRIAS, ESTRELAS, CELEBRIDADES?

QUE NADA... SÃOS  BELAS!


Bela. Um adjetivo, no mínimo intrigante. Traz múltiplas possibilidades em face da diversidade daquilo a que se atribui Beleza e, em virtude dela, a beleza, resultar de uma imensurável   gama de características. Isso quando se visualiza apenas a questão física. Não é o caso.
*Crédito imagem:brpinterest.com.


Bela pode ser a imagem que se faz de alguma coisa. Também pode significar a abreviatura de titulação, obtida por pessoa do sexo feminino, referente a grau Acadêmico Superior, esse, conferido a quem atingiu todos os requisitos exigidos ao Bacharelato, em Curso específico. É muito repetitivo na área de Ciências Humanas.
*Crédito imagem:brpinterest.com.
Bela, na linguagem comum, é aquela pessoa ou coisa que nos satisfaz visualmente, que atende o nosso gosto, que preenche um ideal de “perfeição” naquele momento. Belas e Belos são sempre: os amados no início dos romances; os filhos, filhas, netos e netas  por toda a eternidade; os pais, incondicionalmente para alguns  e, para outros, a depender de como foram percebidas as manifestações de amor e os ensinamentos.
*Crédito imagem:animais.culturamix.com

É, nesse mundo, “vasto mundo” como disse Drumond no “Poema de sete faces”, consideram-se incontáveis circunstâncias que justificariam o uso de BELA, mesmo sem a preocupação com a formosura, com o glamour, com o “sex appeal”. Independente de quaisquer censuras, está no consciente e também no inconsciente de qualquer um.
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Assim, Bela pode ser unicamente um complemento da amizade. Quem sabe, um grupo de mulheres onde as apresentações são tão diferentes que formam um conjunto fantástico, digno, inclusive, de ser olhado não uma, mas duas, três, quatro... vezes.
*Crédito imagem:pt.depositphotos.com

Entre as Belas, as nossas, se encontram: loiras, morenas, cabelos acobreados, altas, baixas, magras, cheinhas, mais novas, mais velhas, risonhas, sorridentes, observadoras, enigmáticas, sexy, todas com as marcas da inteligência, tenacidade, competência.
*Crédito imagem:pt.depositphotos.com

 
Não é só isso. A diversidade no grupo trabalha no sentido da harmonia. Quem é mais silenciosa se surpreende e se deixa levar pelo blábláblá de quem gosta de falar o tempo todo.  As mais fechadas se pegam sorrindo das bobagens das que vêem na vida motivos para serem felizes. As quietinhas tornam-se cheias de curiosidade e entusiasmo.
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As solteiras podem apreender que - apesar dos cenários conflitantes e destrutivos na grande maioria das novelas - ainda existe amor no casamento. As casadas podem respirar liberdade ao lado das amigas. Lembrar o tempo de solteira quando preocupação mesmo era o relógio biológico andando e nada mágico acontecendo....
*Crédito imagem:pt.depositphotos.com


As belas, maravilhosas e cheias de vida, cada uma com suas características, são mais ou menos assim:
BELA em dose generosa, minha querida amiga é uma diva; misto de mãe, profissional, empresária, ex-amazona, alquimista por natureza transforma sonhos em luzes, bonita por dentro e por fora, dona de um espírito livre e um raro feeling que exala romantismo, amor. A beleza não excluiu a intelectualidade. Essa jovem mulher é uma admiradora de belas artes, capaz de se emocionar ante o “abaporu” , ir aos céus lendo um belo poema, chorar com a magia da música de André Rieu.Tudo isso sem perder o humor, com o qual vimos a mais Bela Mortícia que o Cafuçu poderia imaginar.
*Crédito imagem:Clipart Cliparthut  Free Clipart...
 

A mais poderosa entre as Belas, é uma linda mulher; empreendedora, capaz de virar o mundo em busca de algo que necessite, cruza os céus como uma fênix renovando guardas roupas e conceitos. Aplico a essa obstinada guerreira algo que uso em proveito próprio e "nordestinamente" falando: “dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair dela”.
*Crédito imagem:pt.dreamtime.com
  

Solteira, essa Bela de que falo agora, é uma mulher com porte de rainha; ar sério, dona de uma beleza plácida, com um sorriso que revela sua alma ecumênica. Vive um grande amor com o cosmo, vendo-o como um céu estrelado onde se pode observar intenção  de  ordem, beleza, harmonia, o vir e o devir, as estrelas e suas grandezas, o declínio de astros cadentes que um dia foram belos..., as coisas buscando seu lugar natural.
*Crédito imagem:Clipart Cliparthut  Free Clipart...


A quarta nessa lista de Belas tem nome divinal e que significa “bela como o sol”, “da natureza do Altíssimo”. É uma pessoa extraordinária. Competente, cheia de amor e cuidado com as pessoas. Misto de mãe, esposa e profissional tem a rara virtude de enxergar o ser humano atrás do colega, do servidor que pede passagem. Uma mulher com uma beleza típica dos que buscam a verdade, a essência. 
*Crédito imagem:www.fotossearch.com

Uma das Belas é bíblica. Homônima da moabita que optou por ter Deus em seu coração e fez um juramento de fidelidade à sua sogra. Ambas persistentes, vivenciando sua sobrevivência num mundo dominado por homens. Jovem, inteligente, bonita. Como a outra, foi provida em seu viver como mulher e mãe, pelo advento de um novo amor.
*Crédito imagem:public domain vectors

Há uma Bela de origem forte. Um sobrenome que impõe respeito. Seu nome é bastante conhecido do público feminino, especialmente das que já passaram dos trinta, uma publicação xará e inspiradora que surgiu como uma deliciosa opção a quem se interessava por cultura e  bons artigos, beleza e saúde, cozinha, casa, família...moda, saindo daquele lugar comum de rainha do fogão...desculpem, rainha do lar. Essa integrante do grupo  deixa uma impressão de  silêncio e paz, jamais a vi sair do doce equilíbrio paira ao seu redor.
*Crédito imagem:can Stoch Photo - csp 
Uma jovem misteriosa.O maior desafio está na Bela mais distante. Chegou ao nosso porto – leia-se: PGE, após a minha saída. Tem nome de origem Celta, remontando à lenda que narra o afogamento de uma princesa e, com esse evento dá nome ao rio mais importante da região. Pode significar “flor do cactus” e, também, “como o sabre”. Sugere um fruto cheio de perigos para quem pretende colher, mas que sacia a fome do peregrino tornando se vital a quem dele necessita. Por outra ótica é definida de forma letal e fascinante, como  sabre, arma branca, mortal e preferida dos piratas. Trazendo para o agora, a gata mostra a que veio. Bonita, passional (no bom sentido), não passa em brancas nuvens. Bem vinda. 
*Crédito imagem:pt.dreamtime.com 

As BELAS são assim.  

segunda-feira, 11 de maio de 2015

MEMÓRIA O NOSSO HD

REFAZENDO CAMINHOS - NOSSO BAÚ


Todos, no mínimo, uma vez na sua existência, refaz seus passos, os caminhos percorridos, sem a preocupação de que  traduzam ou não coisas boas. É algo característicos dos seres humanos. Alguns acontecimentos têm o dom de sacudir as pessoas e despertar a memória realizando um caminho inverso e mágico. Um chão de estrelas, um raio de luz. *Imagem: euemeucaminho.com.blogspot.


Pois é, nada mais saudosista que as festividades de Natal, Réveillon, Aniversário, dia das Mães, dia dos Pais e encontro de colegas de formatura, de colégio, reuniões de família. Invariavelmente ressurgem pessoas das quais não temos notícias, daqueles que se foram, de sonhos da infância, adolescência, faculdade...enfim, uma nostalgia suave, gostosa. *Imagem: red-steps.blogspot.com.



Retroceder no tempo e no espaço é uma faculdade da qual os sensíveis não abrem mão.  Reencontrar-se, municiados por informações guardadas em dois nichos fantásticos: o cérebro – nosso HD e,  no coração – o baú de nossos sentimentos, não tem preço. *Imagem: pausaparacrescer.wordpress.com.


Com esses equipamentos voltamos ao passado, visualizamos  o futuro, fantasiamos o presente, tudo isso sem pagar passagem, mas rendendo tributo ao que se desenrola diante de nós. Se é algo triste, nos enchemos de melancolia; caso seja uma passagem alegre, um sorriso se desenha em nosso rosto; quando lembramos amores passados, nosso olhar se enche de mistérios e algumas vezes um sorriso maroto insiste em nos denunciar. *Imagem: emivanis.com.br



Algumas ocasiões são muito presentes em nossa retina, muito embora tenham acontecido há anos. Lembro como se fosse hoje de algumas passagens interessantes e que fazem festa no meu HD e brincam com o meu baú de emoções. *Imagem: mdemulher.abril.com.br.


Quando adolescente, as tardes de Domingo eram especiais.  Os jovens de minha geração circulavam pelo anel interno da lagoa e a paquera corria solta. Diferentemente de hoje, ninguém “ficava”, apenas nos acostumávamos com a figura do outro. Era o olhar que buscava, o coração que disparava, o rubor - agora tão desusado - a deixar em fogo as maçãs do rosto, a timidez que aflorava e nos deixava confusas. *Imagem: feita-de-coisas.blogspot.com



Desses passeios guardo um acontecimento que hoje me causa riso. Na lagoa, "Parque Solon de Lucena", passeando com minha irmã Socorro e amigas do Lins de Vasconcelos, cruzamos com alguns colegas. Tudo normal, comum. Eu era a última, caminhava quase no meio fio, quando passamos pelos meninos senti que algo roçara a minha mão, não entendi. No segundo encontro, um deles parou e estendeu a mão, naturalmente respondi o cumprimento, surpresa: o colega enfiou um bilhete em minha mão e ainda piscou pra mim. KKKKKKKKK, namoramos uns meses... *Imagem: welcome.com.br

 
Do convívio com meus irmãos lembro-me de muitos momentos curiosos. Certa feita, estávamos jantando (papai e mamãe ainda não tinham chegado da padaria) e surgiu, não sei de onde, uma história sobre uma tampinha de garrafa. Um dos irmãos jogou-a para trás. Acontece que, para nosso espanto, a tampinha voadora atravessou a grade, passou por cima do muro, caiu no prato de um dos vizinhos.* Imagem: copanacozinha.blogspot.com.


Suspense total. Ouvimos os gritos: um dizendo que fora o outro irmão que jogara a tampa em sua sopa. A briga rolou, ouvimos gritos e sons típicos de socos e de coisas caindo no chão. Permanecemos em silêncio, temerosos que alguém se desse ao trabalho de reconstruir a rota do objeto inesperado. Graças a Deus que a briga ofuscou uma possível investigação. Ficamos assustados pois não houvera nenhuma intenção de provocar o incidente. Passado algum tempo, o fato tornou-se motivo de risos*Imagem: reportesmessias.blogspot.com.



A lista é extensa. Uma ocasião, íamos para o colégio, a pé, era perto de casa e não havia os riscos de hoje. Na esquina de nossa casa tinha um rapaz que não conhecíamos. Quando passamos ele beliscou minha irmã e cinicamente saiu andando como se não tivesse feito nada. Ela abaixou-se rapidamente, tirou o sapato Vulcabrás e arremessou, certeiramente, nas costas do indivíduo que estatelou-se no chão. *Imagem: gartic.com.br.


Gente o pior ainda aconteceria. A noite quando ficávamos conversando com a turma da rua eis que chega o RIDÍCULO. Antes que fosse dito qualquer coisa, um dos amigos apresentou a peça: seu irmão que morava no Rio de Janeiro e estava passeando. Acreditem, o cara morava encostado à nossa casa. Ficou um clima terrível até entendermos que ele não falaria. Era adulto e sabia que errara. Nunca conseguimos sequer conversar com a criatura. Jamais falamos sobre o assunto com o irmão que era nosso amigo.* Imagem: síndicoprof.blogspot.com.



Tem ainda o caso de uma senhora que encontramos quando íamos para a loja de D. Menininha, mãe de nossas amigas Lúcia e Glória. A madame estava frente ao Banco do Estado em Santa Rita, era cedo. Estava exageradamente maquiada, com sombra verde, batom vermelho, uma roupa com brilho – cetim -, sapatos altíssimos e um cinto que “estrangulava” sua cintura. Éramos crianças mas, nossa idade já permitia saber que era falta de educação rir dos outros, entretanto não conseguimos segurar o riso: rimos, rimos e rimos. * Imagem: betmichel.com.br.



Gente, moleza é um negócio esquisito. Fomos à loja, compramos uma roupinha para Fábio com a ajuda de D. Menininha e voltamos. Vocês não imaginam o susto. Em nossa casa, muito bem sentada, conversando com papai e mamãe estava a senhora, devidamente acompanhada do marido. Foi triste. Descobrimos que ela era casada com um amigo de papai, gerente de banco. Não sei o que ela disse, sei que ficamos de castigo. Mesmo assim, quando ninguém estava por perto, o riso ecoava. * Imagem: blogdoarcoriris.blogspot.com.br



Em casa nos divertimos muito. Principalmente na infância quando éramos vizinhos de Seu Paulo e D. Lourdes, pais de Roberto Furtado. Nossos pais não nos deixavam brincar na rua, exceto quando um adulto podia permanecer. Assim criamos um mundo à parte. Os livros eram praticamente devorados. o que líamos, usávamos em nossas brincadeiras.* Imagem: condesdalousaazevedo,blogspot.com.br.




Com roteiros imaginários promovíamos desfiles de modas, de misses;   peças de teatro. Gostar de pular corda, jogar amarelinha,  vôlei e tênis de mesa (a nossa mesa era oficial) era algo comum entre nossos amigos e amigas. O ping pong, como era chamado, foi uma das paixões de papai. Os meninos, além dos esportes citados, também jogavam futebol, faziam guerra de mamona, colecionavam álbuns de figurinhas e gibis. * Imagem: conteudoteatral.com.br.



Socorro, a mais nova das irmãs, adorava bonecas. Tinha tudo da Estrela. Eu nunca gostei. Assim divertia-se com suas “filhas”, brincando, entre outras amiguinhas, como Emilinha – irmã de Eunice Celani. Eu tinha pavor das bonecas, com seus olhos fixos e sem vida. À noite me dava ao trabalho de virar todas para a parede. Para mim não era estranho, era a diferença entre dormir ou não. Cada um com sua neura. * Imagem: carinteriordesign.net.



As comemorações em família eram esperadas ansiosamente. O dia das mães e dos pais eram oportunidades para extravasarmos o nosso amor, nosso carinho por quem se desdobrava para nos nutrir emocional e fisicamente. Os presentes, inicialmente comprados por papai, passaram a ser escolhidos por ele e Paula, que os distribuía. Ao acordar íamos juntos presentar mamãe. Eram dias de alegria, amor e paz numa família muito bem estruturada.*Imagem:portaltaiacuonline.blogspot.com.


Esse “Dia das Mães” ativou o meu HD e o meu baú. Sacudiu minha memória e escancarou meu coração lembrou Vovó Beatriz, Mamãe Quetinha, Tia Nevinha, Tia Nena e tantas outras que já se foram. Como é bom sentir esse gostinho de simplicidade, de verdade, essa emoção típica de família, reunindo pessoas essenciais às nossas vidas. Há dois anos, por ocasião da passagem de um Dia das Mães manifestei o meu desejo de poder dar a de presente a minha mãe "MARIA LUZIA" "um cartão de "saúde", com crédito ilimitado  e sem data de vencimento. AINDA CONTINUO PENSANDO ASSIM E A CADA DIA FICA MAIS NECESSÁRIO ESSE CARTÃO.




Esse dia das mães trouxe de volta uma linda canção.

MAMÃE

TOQUINHO

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

(Dorme, dorme, filhinho)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O MENINO MALUCO DO MORHAN


PIRELLI, NOVINHO, NOVINHO!



Conheci Pirelli no ano de 2001, em Salvador, por ocasião do X ENCONTRO NACIONAL DO MORHAN (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase). Fui ao encontro na condição de integrante da Delegação da Paraíba.  Estavam comigo três companheiros: Hortêncio, Severina Maria e Luzinete Victor. Jamais esquecerei aquela figura de pequena estatura, muletas, óculos de lentes enormes e escuras. 


Observei-o silenciosamente. À primeira vista me pareceu, apenas, mais um daqueles filhos de Deus terrivelmente marcados pela doença e pela dor. Detendo-me, superficialmente, no que se apresentava, constatei a ausência de dedos nas mãos,  faltava-lhe uma das pernas e, também, a luz de seus olhos, há muito o havia abandonado. Fiquei arrasada. Angustiei-me, silenciosamente pensei, como deveria ser doloroso para aquele homem ter tantas sequelas.


Sempre fui dada a desafios.  Saber como poderia interagir com aquele ser humano que, apesar de tudo, ali estava era algo a me impulsionar. Fui me aproximando devagar, temerosa de causar algum mal estar.


Ouvi uma voz que parecia vir do peito e não dos lábios do companheiro e que dizia algo mais ou menos assim: pode vir, eu não mordo. Parei, pensei rápido: como ele pressentira a minha presença e minha indecisão, ato contínuo ensaiei meu melhor sorriso, como se ele o pudesse enxergar.


Disse-lhe:
 - Bom dia, tudo bem? 
 - Sim, tudo bem.  Que cheiro bom. É mulher, nova, cheirosa e vaidosa. - Ri intimamente, por ter me tornado nova, de novo, sem ajuda de ácidos, bisturi ou qualquer desses artifícios que escravizam tanta gente. 

Muito à vontade, ele continuou: 
 - Como é seu nome? Você é de onde?  - Tudo perguntado de uma vez, rapidamente. Respirei e respondi: 
- Sou Maria de Lourdes, da Paraíba. 
- É? Que bom! Veio com Severina e Hortêncio?
- Foi. 
- É do Movimento ou só observa?
- Sou do MORHAN. 
- E o que faz na vida?
-Sou Advogada. 



Apresentou-se como Pirelli e com uma natural vocação para padre, embora nada convencional, continuou, literalmente, me confessando. Fui salva, naquela ocasião, pelo toque amigo de ARTHUR em meu ombro, avisando que reiniciaríamos, em minutos, os trabalhos. O encontro, em Salvador, estava nos proporcionando excelentes discussões, abrindo um leque de informações a perder de vista.



Confesso que minha atenção foi prejudicada. Não conseguia desligar minha mente, nela estava Pirelli. Sua vivacidade, perspicácia e inteligência. Pobre de mim. Inocente.  Não sabia ainda e na melhor acepção possível da expressão, a caixinha de surpresa que era o nosso dileto amigo.



Revelou-se, ao longo do dia, um guerreiro. Combatente, lúcido, meio maluco, é certo. Porém, maluco na proporção em que abria-se, sem medo, a anunciar o estigma da doença – maquiado com pessoas bonitas que foram atingidas e que não guardavam sequelas. Maluco, também, ao denunciar as políticas de faz de contas, reservadas aos que, de algum modo, dependiam do Poder Público para “amenizar necessidades especiais”. Maluco ainda, por se fazer de desentendido em determinados momentos, ignorando abordagens, misto de inocência e esperteza. Ah Pirelli!


O encontrei várias vezes ao longo desses anos. Poderia discorrer sobre Pirelli dias a fio e ainda teria o que dizer. Até porque suas melhores facetas ainda não foram abordadas. O gozador, bagunceiro, piadista, ruidoso em suas brincadeiras, jamais passava desapercebido mesmo se no salão estivessem pessoas VIP. Ostentava qualidades que concorriam entre si, sem possibilidades de definição sobre a que mais se destacava.


Num momento era Pirelli, o conquistador. Mulherengo, irreverente, sempre disposto a novos amores. Perdoe-me a viúva se tal declaração não a satisfaz. Um colecionador de “causos” que fariam corar um frade de pedra, não se detinha ou embaraçava quando, com o microfone em riste, falava sobre a (colônia) Antônio Diogo, ou bradava contra coisas desagradáveis, ou mesmo registrava a  necessidade de união dos integrantes do Movimento e da constante vigilância para que esse não fosse envolvido em práticas desonestas. 


Os anos foram passando e os encontros sucedendo. Faço Justiça a Pirelli. Aquele que entre piscadelas de seus olhos frios pela ausência da luz, em Niterói,  me confidenciou baixinho e sério: Doutora, disseram que a senhora além de elegante, feminina, bonita, é dona de uma voz que engana os ouvidos fazendo eco com uma idade diferente da sua, gostaria de lhe ter conhecido antes. Fiquei atônita, era uma simples declaração de uma informação recebida, uma brincadeira, um elogio, uma cantada? Não consegui enquadrar o que acabara de ouvir. Nunca consegui saber se ele estava me gozando.



Pensava ainda, quando Pirelli continuou: Doutora, hoje sou um pneu velho, careca, desencapado, mas quando fui interno, menino, corria como um pneu novo, fazendo tudo o que a idade me permitia. Quando rapaz (dando uma risada), não cabia dentro de mim. Tinha todas, mesmo que elas não soubessem. Quase desabo. 

Ainda mais assustada e preocupada com o rumo da conversa, ouvi algo surpreendente: Doutora (respeitoso, entretanto objetivo), a vida vai mudando a gente, o corpo vai se acabando, a alma vai se adaptando às cicatrizes, o espírito, esse permanece livre, nos dá asas e faz sonhar. E tem mais - com aquele jeito dele - ainda bem que a Medicina dá aos já maltratados pelos anos os meios para seguir desfrutando dos prazeres da vida. 



Depois de alguns anos, entres burburinhos, risadas e comentários de corredores, entendi tudo o que aquele valente, cuja doença atingira de forma implacável, tentara me dizer naquela hora. Pirelli não se deixava abater e buscava com unhas e dentes defender o Homem que habitava suas entranhas.

Em sucessivas ocasiões tive o privilégio de encontrá-lo. Apenas em uma ocasião ouvi sua voz tremer, seu semblante tenso, seu corpo menor e mais frágil ainda. Num evento do MORHAN fomos informados que seu filho sofrera um acidente de carro. Pirelli pai não era diferente dos demais. O coração sangrava, a luta dera lugar à cautela, o guerreiro impetuoso cedera espaço ao homem amoroso. Era visível a dor, a momentânea perda de rumo. Mesmo assim usou do microfone para se desculpar com os companheiros por ter que se ausentar. Graças a Deus que tudo não passou de um susto.


Lamento profundamente a perda do companheiro. Pirelli. Que você possa continuar defendendo a boa causa, lutando o bom combate, divertindo-se, onde quer que esteja. E CONSIDERANDO A AUSÊNCIA DE UM CORPO FÍSICO, QUE VOCÊ POSSA NOVAMENTE FAZER O QUE SEMPRE GOSTOU: CORRE PIRELLI, RODA MAIS UM VEZ AQUELE PNEU QUE O DIVERTIA, VAI AO ENCONTRO DE TANTOS COMPANHEIROS QUE, COMO VOCÊ,  PARTIRAM E ALÇARAM OUTROS VOOS.