Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

terça-feira, 1 de maio de 2012

SOBRE TRABALHO –


 E TRABALHADORES.


Mãos que semeiam

Hoje convido-os a fazerem um passeio por algo que sempre ouvi dizer: ”o trabalho dignifica o Homem”. Antes de qualquer coisa quero esclarecer aos mais novos que esta expressão é – evidentemente – antiquíssima e como tal, refere-se à humanidade no masculino. A palavra Homem toma a conotação de ser humano, naturalmente, naquela época, representado pelo sexo masculino.

Nosso texto será um pouco diferente de todos os que eu trouxe para vocês, pois tentarei um contraponto. A nossa viagem desnuda, um pouco, as peripécias do trabalhador ao longo de sua existência.

Na Bíblia Sagrada o trabalho, no primeiro momento, toma a conotação de castigo. No Livro do Gênese, após a introdução da chamada “culpa original”, no capitulo 3: 17, 19, disse o Senhor: "....maldita seja terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida . Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes a terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de  tornar."

Ainda, por suas convicções religiosas, o Ocidente enquadra a preguiça entre os "Sete Pecados Capitais" , esse entendimento reforça a idéia de que trabalhar é algo relacionado  a dor,  a agonia. É nessa reiteração que se poderia colocar o trabalho não como algo dignificante e sim como punição, infâmia.

Registra o Livro Sagrado do Catolicismo que os trabalhos executados mais amiúde eram: lavrar a terra; apascentar as ovelhas; pescar;  fazer e cozer tijolos; a carpintaria; o comércio; a cobrança de impostos; magia e interpretação de sonhos; o recenseamento; fabricação de armas e jóias; copismo; Judicatura e a prostituição feminina, entre outros.

Por outro lado, etimologicamente falando, o vocábulo latino que dá origem a nossa expressão “trabalho” é "tripalium", uma ferramenta de mortificação, tortura. Igualmente, a palavra "labor", em latim, quer dizer esforço penoso, vergar-se sob o peso de uma carga, angústia, dor e cansaço. 

 Antigas  sociedades como a grega e a romana desqualificavam o trabalho, cultuavam a vida contemplativa, as atividades espirituais, culturais, políticas, a dança, a arte militar.  Os ofícios mortuários, para os gregos, eram considerados desonrosos e exercidos por pessoas do povo, sem qualificação.

Os nobres, os senhores proprietários, os homens livres que possuíam terras e outros bens, dedicavam-se a guerra, a política ou mesmos a quaisquer outras atividades que não se constituíssem trabalho, atribuição física. Inclusive, não existia em nenhuma das duas civilizações uma palavra correspondente a trabalho, como se conhece hoje.


Entretanto a expressão aparentemente de fácil compreensão: "o trabalho dignifica o homem", desperta em mim a sensação de que há algo mais a ser analisado. Acredita-se que ele - o labor - permite ao ser humano legitimar-se na sociedade, sustentar-se, manter aos seus, colaborando com o desenvolvimento de sua comunidade.

Mas, o respeito aos trabalhadores maravilhosos que deixam em suas atividades diárias, o cansaço de seus braços e pernas, o limite de suas forças, o suor que brota em suas frontes, a paciência e o desagradável exercício de “engolir sapos”, no enfrentamento de situações por vezes grotescas, cômicas, se não fossem tristes, é o que nos impulsiona a refletir sobre tal honraria.

Porém a data não é de tristeza, comemorar, sorrir, seguir em frente ,  até porque o trabalho, no mínimo, nos ocupa e livra da terrível sensação de que não fazemos falta.

QUÃO DIGNIFICANTES FORAM OU SÃO ESTAS  PROFISSÕES?


 CARPIDEIRAS - Profissão das mais antigas do mundo, na Grécia essa mulheres vestiam luto e choravam profusamente nos velórios de pessoas totalmente desconhecidas, percebendo pagamento pelo pranto. As carpideira tornaram-se célebres e os velórios importantes era obrigatória a presença daquelas. A Bíblia registra o uso de uma carpideira para iludir Davi e permitir a volta de Absalão a Jerusalém.



ORGANIZADOR DE ORGIAS- Não pensem no significado atual da palavra. A orgia a que nos referimos não incluía desordem ou sexo degenerado. Eram festas cuidadosamente planejadas por  religiosos, entre esses, sacerdotes e/ou sacerdotisas, vestais... . O termo, na Roma antiga, era a designação original de rituais secretos ou, de mistérios que eram repassados aos que cultuavam aquela religião. 

Incluiam, ainda,  bailados sensuais, a ingestão de vinho e, também, relações sexuais. Os famosos mistérios dionisíacos, criação grega, foram, posteriormente, absorvido por Roma que designou-os de bacanais. Sob uma desinência feminina “as bacanais”  promovidas no palácio de Herodes atravessaram os séculos até chegar aos nossos dias.

 CALÇADORA DE SAPATOS- A Grécia, por sua vez considerava o ato de tirar os próprios sapatos como uma tarefa humilhante, degradante. Assim, quando convidados a uma festa, os gregos, do mais pobre aos mais abastados, levavam consigo uma  sandaligerula, uma escrava que tinha essa função, por sinal disputada, apenas entre os escravos por não exigir esforço físico. A serva substituía o calçado que a senhora usara na rua  até chegar a festa e os substituía  por sapatilhas apropriadas ao evento. As cortesãs calçavam e descalçavam os seus sapatos.


PAPAGAIO DE ARISTOCRATA -Na Roma antiga os cidadãos mais importantes,   entres   esses os Nobres,  os Jurisconsultos, os Cônsules, as figuras mais respeitáveis da urbe estavam sempre com um escravo ao seu lado, com a incumbência única e exclusiva de lembrar ao seu amo os nomes e referências sobre queles com quem se deparavam, fosse nas ruas ou nos eventos diários que ocorriam em Roma.

REGISTRADOR DE MALDIÇÕES – Eram oficiais que registravam as maldições proferidas contra as pessoas e que se cumpridas davam aos amaldiçoados a condição de indenização. Noutra vertente, na Antiguidade, a preocupação com a concorrência ou com seus inimigos deveria levar o cidadão a registrar uma maldição, especificando suas conseqüências e, para melhor efeito, deveria ser proferida - a praga - num templo de uma divindade do submundo e a tábua do registro exposta na parede.
 
ANIMADOR DE FUNERAL – No império Romano era usual a contratação de companhias de teatro mambembe e mímicos para  dar entusiasmo as exéquias.. Ao "archimimus” que era o chefe dos mímicos cabia representar o morto. O artista travestia-se como tal, assumia a personalidade do  finado, com essa atitude acalmava os espíritos dos antepassados . Ainda, nesse trabalho, o animador colocava uma máscara mortuária que se assemelhasse ao defunto e os adereços de sua profissão, fazendo graças ao longo o percurso até a pira funerária onde tudo seria consumado.
 
CAPACHO DE PRÍNCIPE -  Uma profissão que existiu nos séculos XVII e XVIII, na qual era escolhido um menino de classe alta, para ser castigado no lugar do filho do rei quando aquele fazia algo que não era o desejado para a sua condição social. Se o príncipe ia mal nos estudos, "o capacho" era castigado, até porque ninguém poderia castigar o príncipe, exceto o rei e aquele estava sempre ausente. Sendo companheiros de infância estabelecia-se entre o príncipe e  " o capacho" fortes laços de amizade que levavam o herdeiro do trono a ser bem comportado e se esmerar na sua instrução a fim de que o amigo não fosse castigado em seu lugar, tal fato estimulava bons sentimentos e nobreza de alma ao futuro rei.

CAMAREIRO DE PRIVADA - Os reis ingleses reservavam a um servo a obrigação de limpá-los após ter defecado. Esta  inusitada ocupação era desempenhada por filhos de nobres com importante condição na Corte. O ofício, ao longo do tempo, passou a agregar aspectos outros, inclusive, administrativos, dando ao "limpador" uma proximidade  e atenção do monarca, o que tornava a esdrúxula tarefa muito desejada.  

BOBO DA CORTE – Figura por demais explorada no cinema. Esses indivíduos transitavam no palácio e podiam fazer graça para qualquer um, inclusive para o rei. O bobo quase sempre é apresentado como uma criatura emblemática. Sua performance compreendia  tiradas humorísticas acompanhadas de  acrobacias  e também colocações misteriosas de modo a prender a atenção dos monarcas e da corte.



MÉDICO DE SAPOS – Existia na Inglaterra até o fim do século XIX, um tipo de feiticeiro que praticava uma medicina endereçada a cura da escrófula que era uma doença de pele ligada à tuberculose. Esses médicos feiticeiros utilizavam sapos vivos ou os seus membros, envolto em tecido e pendurados no pescoço dos pacientes, para tanto necessitavam caçá-los o tempo todo, daí a expressão médicos de sapos.

CHICOTEADOR DE CACHORROS - Nos séculos XVII a XIX a Igreja dava  a um de seus empregados a função de enxotar os cães que, tendo acompanhado os seus donos e sem poder adentrar ao interior do templo, começavam a latir e incomodar os fiéis. Alguns animais entravam, eram removidos e dispersados pelo chicoteador para que o padre pudesse continuar a celebração.

LIMPADOR DE LUTADOR DE SUMÕ - Os lutadores de sumô são portadores de obesidade mórbida e como tal incapazes de realizar alguimas tarefas, entres essas a higienização de suas partes íntimas. Figuras tradicionais da cultura oriental o lutador de Sumõ renuncia a uma vida mais duradoura e de melhor qualidade em função da luta.  A profissão de limpador é reconhecida, considerada de periculosidade média e com boa remuneração.  Um dos maiores riscos é de que o lutador possa cair sobre o profissional.

 
PROVADOR DE COMIDAS DE ANIMAIS - Especialistas que provam a comida fabricada para cães e gatos, de modo a aferir se o sabor está adequado ao paladar da clientela. 

O TRABALHO PODE DIGNIFICAR O HOMEM, PODE, TAMBÉM, AVILTÁ-LO, ESCRAVIZÁ-LO E CONSTITUIR-SE EM ÓBICE AOS SEUS MAIS ÍNTIMOS DESEJOS.

A INFÂMIA TRAVESTIDA  DE TRABALHO -

 
O CARRASCO
CAÇADOR DE ESGOTOS

MERCADOR DE ESCRAVOS



A SAUDADE DE  ALGUMAS PROFISSÕES:

Algumas profissões não mais existem em razão do domínio de técnicas substitutivas as anteriores assim, teoricamente, desapareceram: o pisoteador; copistas; acendedor de lampiões; o fotográfo lambe-lambe; o albardeiro; pintor de letreiros e cartazes em porta de cinemas; ferreiro; cocheiro; telegrafista; guarda-chaves; foguista (que cuidava da fornalha do trem); guarda-freios; tipógrafo e outros.


O FOTÓGRAFO LAMBE LAMBE
O MAQUINISTA
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES






                                                 O VENDEDOR DE PIRULITOS

O SERESTEIRO


A TODOS UM 1º DE MAIO ONDE HAJA TEMPO PARA DIZER:
                                                      
                                                      
                                                   SEM CORRERIAS


                                                     
                                                    SEM RODEIOS!





                                              

3 comentários:

Lílian disse...

Aí, Excelentíssima Doutora Dona Maria de Lourdes, Lourdinha, minha sogra...gostei de conhecer algumas estas profissões tão "exóticas", por assim dizer. Jamais imaginei que podiam existir e tenho certeza de que, atualmente, muitas profissões inusitadas estão se configurando.
Beijocas.

Cynthia Pessoa disse...

Arrasou colega!! Muito interessante sua abordagem, Lourdinha. Algumas dessas profissões antigas aos olhos de hoje são hilárias. Hoje no 1ºde maio vou me solidarizar com os desempregados, que não possuem um trabalho remunerado, nem exótico, nem infame, nem engraçado, nem pesado, nem dignificante...torço para que ano que vem eles comemorem esta data com mais dignidade. Beijos!

Leonardo Dantas disse...

Fantástica esta postagem. Uma abordagem diferenciada, que prende o leitor e arranca-lhe boas e surpreendentes risadas. Feliz dia do trabalho, ou que o trabalho seja feliz para todos nós!

Obs. Aproveitando a deixa de Lílian, dou uma dica para uma futura postagem sobre as profissões bizarras da "atualidade". Acho que será legal também...

Parabéns!