Quem sou eu? O que faço

Minha foto
João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

sexta-feira, 13 de março de 2015

TURISMO RURAL / ECO TURISMO


TURISMO EM CAMARATUBA/PARAÍBA


A cada dia as expressões "Turismo Rural e Eco Turismo" ganham força ante a população urbana das cidades de médio e grande porte. O corre-corre, o trânsito quase sempre engarrafado,  a poluição sonora, as fisionomias pouco amistosas que encontramos diariamente  nos percursos rotineiros, cobram de nós válvulas de escape que nos recarreguem com energias positivas. 

Com o olhar voltado para "a selva de pedra",  há muito acompanho nos noticiários, locais ou não, a multidão que, diariamente, é tragada pela "loucura coletiva" de deslocar-se nas metrópoles, enfrentando verdadeiras batalhas  no que  se refere à essa tal mobilidade urbana. Por vezes urge a necessidade de "esticar" a visão até mais não poder.


Seja utilizando as vias públicas como pedestres ou mesmo utilizando transporte particular ou público, o traslado para o trabalho, a escola, as compras, o passeio, a visita...  é quase sempre sob pressão. Pouco importa se a rotina é curta ou longa, se a pé ou utilizando veículos pequenos ou não, se ônibus, metrô ou qualquer outro meio de transporte, o enfrentamento diário é um desafio cada vez mais tortuoso. Ainda quando visível a pressa nos impede de contemplar a beleza da natureza.



Não é fácil. As superlotações, o desconforto, as distâncias, desrespeito, ausência de requisitos básicos de cidadania, produzem uma crescente insatisfação. Entretanto, faz tempo que convivo com a curiosidade sobre o nosso pequenino Estado da Paraíba, diga-se, deveras tentador a quem sucumbe diariamente às mazelas da tão malfazeja imposição ditada pela sobrevivência nos grandes centros. Graças a Deus podemos conviver e/ou sonhar com algo diferente.


Pois é. Nosso Estado de lindas praias, gastronomia variada e cheia de sabores, povo receptivo e hospitaleiro, tem, também, recantos quase que inexplorados, principalmente pelos Paraibanos, onde é possível transitar desde a prática de naturismo à sofisticação de campos de golfe e/ou os tão atuais ecoturismo e  turismo rural.


É claro que como tudo que se torna modismo, tais modalidades de turismo vêm fazendo seguidores e tomando feição predeterminada, assim temos: "Ecoturismo é o segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações". Fonte MTur *Marcos conceituais)



O Turismo Rural, além do comprometimento com as atividades agropecuárias, caracteriza-se pela valorização do patrimônio cultural  e natural como elementos da oferta turística no meio rural. Assim, os empreendedores, na definição de seus produtos de Turismo Rural, devem contemplar com a maior autenticidade possível os fatores culturais, por meio do resgate  das manifestações e práticas regionais (como o folclore, os trabalhos manuais, os “causos”, a gastronomia), e primar pela conservação do ambiente natural. * Fonte - WIKIPÉDIA - A Enciclopédia Livre.


Com absoluta certeza a grande maioria dos leitores jamais ouviu falar no Distrito de Camaratuba, um pedacinho especial na Paraíba, onde o verde reina absoluto e está encravado o Camaratuba Hotel Fazenda, com acesso no Km 18 da BR 101, sentido Paraíba - Rio Grande do Norte, a apenas 1 Km da rodovia. Um lugar no qual o homem e a natureza entram em comunhão.  Ali o sossego, o repouso, completam-se numa equilibrada simbiose proporcionada pela interação ser humano e meio ambiente.


Se você busca conforto da cidade na fazenda, irá se encantar com  uma estrutura onde apartamentos  climatizados podem abrigar até mesmo 5 (cinco) pessoas, dotados de decoração harmonizada com o ambiente externo, aparelho de TV  com tela plana, a cabo. Área conectada à internet.


Distando aproximadamente 80 (oitenta) kilometros da Capital, João Pessoa, o Hotel Fazenda Camaratuba se oferece aos olhos dos visitantes como um espaço propício à interação com a natureza e à meditação, ao tempo em que  deslumbra os que ali chegam pela diversidade de opções de lazer, que vão desde trilha ecológica, passeio a cavalo ou de charrete, touro mecânico, pedalinhos na forma de maravilhosos cisnes, barco a remo e pesca.


Não pensem que para por aí. Os adultos  têm ainda diversão e aprendizado garantidos com a visita ao engenho onde há a fabricação de cachaça, ou a visita a casa de farinha e ao engenho de rapadura. Um trenzinho puxado por um trator assegura mais uma novidade: banho no rio Camaratuba, com direito à cascata. Ainda, nesse trenzinho os hóspedes são levados para conhecer a comunidade local, no passeio estão incluídos a igrejinha e, o tradicional caldo de cana com pão doce. Esse último, tradicional aos moradores de pequenas cidades nordestinas. 


Para quem realmente quer só moleza,  pode escolher  ser massageado na banheira spa (hidromassagem), com espaço para um grupo pequeno. Fazer sauna. Ficar com seus amigos num carteado, jogar pebolim, sinuca ou divertir-se no karaokê.


As crianças recebem tratamento especial. Além do espaço fantástico para quem vive a acostumado a limites, o hotel fazenda coloca à disposição dos pequenos, playground, cama elástica, jogos e brincadeiras. Os maiores e dados a aventuras  podem  arriscar na tirolesa e fazer escalada no paredão, ou não fazer nada, usufruir das piscinas e se deixar inebriar pelos ruídos da mata, do vento e o perfume das flores.



Caso, alguém que já se esbaldou opte por descontrair um pouco,  pode tomar água de coco de papo para o ar, balançando numa rede ou mesmo usufruir de uma gostosa espreguiçadeira.


Façam um regime prévio. Com certeza o peso irá mudar. O Camaratuba Hotel Fazenda tem uma cozinha regional deliciosa. Não há como fugir. Refeições servidas a partir do toque do sino, numa agradável alusão ao pasto. Um café da manhã cheio de frutas e iguarias típicas como tapioca, cuscus, arroz doce, queijo coalho e de manteiga, banana frita, bolo de milho, de mandioca, de chocolate, bolachas variadas, inclusive a paraibaníssima "soda", uma bolacha macia, cor de chocolate a cuja receita – rica em ferro, é adicionada rapadura;  pãezinhos....hummmmmmm.


O almoço um escândalo. Arroz da terra, feijão verde e preto, macaxeira frita, galinha de capoeira ao molho pardo ou, simplesmente cozida. Bode, pirão, legumes cozidos, saladas cruas. Peixe, frito e cozido. Carnes, linguiças, comida de primeira. Sucos e sobremesas simples e gostosas. O jantar também se revela um atentado às cinturas e as silhuetas.


Some-se a tudo isso uma sucessão de matizes verdes, natureza pródiga e rica. Um rio com nome igual ao distrito. Animais silvestres; cavalos e éguas; carneiros; gado bovino; pavões, gansos, patos, galinhas, enfim, um quadro campestre celebrando a poesia, a beleza, a paz que vem da natureza viva. Preservar, manter o equilíbrio dos ecos sistemas: todos ganham a vida agradece.

PAZ, SAÚDE E AMOR

quinta-feira, 5 de março de 2015

CONTINUANDO A RETROSPECTIVA

MARÇO E ABRIL DE 2014

Fortes emoções. O Ministério da Saúde faz bater descompassados os corações adolescentes, anuncia aos seis de março que a partir da segunda-feira, dia 10, todas as garotas brasileiras de 11 a 13 anos deverão  ser vacinadas contra o vírus do HPV (papilomavírus humano) na rede pública de saúde. O Ministro da Saúde,  informa, em pronunciamento à sociedade, que no próximo ano, a faixa etária da campanha será ampliada para um público feminino a partir dos nove anos. http://zip.net/bfmJvL. Imagem:institutopierrefaurespgina.blog.spot.com



Historicamente a vacinação no Brasil é motivo de desconfianças e dúvidas. Apesar de a informação ser a moeda do momento, por se tratar de uma doença sexualmente transmissível, a situação toma conotações peculiares num país em que a ciência e a ignorância convivem lado a lado e muitas vezes sob o mesmo teto. Alguns pais questionam: O Estado brasileiro está  incentivando a prática sexual de pré adolescentes e adolescentes? *Imagem www.nacionalnet.com.br



Março bate recordes de comoção. No dia oito desapareceu o Boeing 777-200 da Malasya Airlines, que decolou de Kuala Lumpur com destino a Pequim. No avião, estavam 239 pessoas. Uma semana depois, foi confirmado que o último sinal recebido do avião ocorreu sete horas após a partida, quando sobrevoava o Oceano Índico.Imagem: muitoalem2013,blogspot.com




Num acontecimento que mexeu com o emocional de todos, no  fatídico mês de março, a mídia registra: "Na hipótese provável de se confirmar a morte das 239 pessoas a bordo do avião da Malaysian Airlines que desapareceu no Mar do Sul da China, este será o pior desastre aéreo dos últimos dez anos". Infelizmente o que era provável tornou-se real. Imagem. notícia.uol.com.br


Ainda e de modo especial direcionado ao gênero feminino, tivemos no dia 08 de março o Dia Internacional da Mulher. Contraditoriamente, houve  destaque para a conclusão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada(Ipea), que retratou “Tolerância social à violência contra as mulheres”, desnudou o entendimento da população relativamente a  agressões e abusos contra o sexo feminino.Imagem. estiloeluxo.com


Num percentual significativo de 65% de aproximadamente 4 mil consultados, com a incrível informação de que  66% foi constituída por mulheres,  revelaram  acreditar,  quase que inteiramente, no fato de que as mulheres que se vestem exibindo seus corpos atraem os ataques e como tal merecem ser agredidas.Imagen. ogusmao.com

Igualmente, num montante de 58,5% dos ouvidos assentiram de todo ou em parte, à inescrupulosa ideia de que: “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Por outro lado, houve divergência total de cerca 30,3%, enquanto que 7,6% se opuseram parcialmente, fechando a pesquisa 2,6%  preferiram permanecer "sobre o muro", anunciando neutralidade. Após reiteradas críticas e censuras o IPEA refez seu resultado alegando erro. Cabeças voaram! Imagem. diariosdainformação.com


Março e sua águas. Tivemos um Carnaval tardio. Num resultado disputado décimo a décimo, a Unidos da Tijuca é a campeã do Carnaval 2014 do Rio de Janeiro. A escola que fez um tributo a Ayrton Senna encerrou os desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro, na madrugada de terça-feira, conquistando 269,4 pontos ainda no terceiro jurado. Esse é o quarto título da agremiação e o terceiro em cinco anos com o carnavalesco Paulo Barros à frente da escola. Fonte: Júlio César Guimarães/UOL http://zip.net/brmJOg.


Antes que eu esqueça. Março se despede com uma amenidade: O Flamengo conquista o seu vigésimo título da Taça Guanabara. Único campeão mundial dos times do Rio, tem quase o dobro de Taças GB que o Vasco, o segundo maior campeão com 11 conquistas, nove do Flu e sete do Botafogo. Além desse título o Flamengo é também o maior campeão estadual, com 32 títulos contra 31 do Flu, 22 do Vasco e 20 do Botafogo.  Fonte: Blog do Juca Kfouri.



Abril chega com sua diversidade. Dia 1º, antes tão comemorado dia da mentira e que com a net foi despachado para o rol dos esquecidos. Dias 18 e 20, em razão do calendário móvel, tivemos, respectivamente, a Sexta feira da Paixão - e o Domingo de Páscoa que completaram o feriadão com a segunda feira,   dia 21 de abril, no qual se homenageia o mártir Joaquim José da Silva Xavier, o  "Tiradentes". Realmente nosso calendário é pródigo quando se trata de feriados, imprensados e outros "ados" afins. Imagem:tocadocalango.blogspot.com


Mês com perdas irreparáveis para a arte cênica, as letras, a narração, nos enche de saudades e leva para sempre, , José Wilker, Gabriel Garcia Márquez, Luciano do Valle, Mickey Rooney e Bob Hoskins, entre outros. Imagem:portaldoholanda.com


A vida continua, a bolsa de valores parece não guardar empatia pela Presidente, sempre que aquela subia nas pesquisas a bolsa caia. Paulo Roberto Costa assusta toda a nação. O que vaza sobre a Petrobrás cria um enorme mal estar nos aspectos Político e Administrativo. O que poderá ainda ser revelado? Essa e outros questionamento incomodam. André Vargas, amigo do doleiro Roberto Yussef, se contorce numa extremada ação para salvar o seu Mandato. Imagem: alertatotal.net   


Morre, de forma trágica,  Bernardo Boldrini. O menino que era constantemente maltratado por seu Pai, o médico Leandro Boldrini e  sua madrasta, a enfermeira Graciele. A história desenrolou-se tal qual um roteiro macabro com requintes de perversidade e total ausência de amor. No ar o prenúncio de racionamento de eletricidade e água. 
Imagem:cartaacademica.wordpress 


A Presidente Dilma, sanciona o Marco Civil. São Paulo, cidade sede do evento Netmundial, viu na quarta-feira, dia 23 de abril, que o projeto de Lei foi sancionado, em regime de urgência, para que, no dia seguinte, por ocasião da abertura do citado evento, pudesse ser apresentado já como lei durante o evento internacional, que aborda a governança da internet.  Ainda, na conformidade do publicado no "Diário Oficial da União", o marco passará a valer em junho. * Imagem: molon1313.com.br


Abril, um mês que já trouxe muitas alegrias à minha família. Nos dias 8 e 9 celebrávamos os aniversários de minha avó, a quem chamávamos carinhosamente de "Mamãe Quetinha" e, de meu pai, chamado pelos parentes de "Alvinho" e pelos amigos "Álvaro". A minha avó sempre foi, para mim um ser de Luz e, meu pai, nessa condição, o melhor dos pais; amigo e companheiro. Saudades deles e de tantos outros que se foram deixando um enorme vazio. Imagem:intimidadesedyherwans.blogspot


No final de abril e inicio de Maio as manifestações populares se multiplicaram. Como se fosse uma onda os protestos ecoaram de norte a sul, leste a oeste do país. Nesse aspecto vale ressaltar que muitos ganharam as ruas questionando os homicídios envolvendo pessoas conhecidas ou anônimas. As sensações de insegurança, impunidade, a não aceitação da Copa do Mundo - no Brasil -, transporte público caro e deficitário, mortes por balas perdidas, entre outros, produziram indignação e repudio. Para não deixar dúvidas quanto aos ânimos em ebulição, registre-se, também, a campanha "Não mereço ser estuprada", que tomou conta do Brasil promovendo uma comoção pouco vista no território nacional. Imagem:kezitadotco.wordpress.com

É muita água ainda rolou num ano marcado por dramas internos, sofrimento, desaceleração e outras situações não muito promissoras, mas isso é algo a ser visitado posteriormente. Imagem:recadoonline.com

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O MENINO MALUCO DO MORHAN


PIRELLI, NOVINHO, NOVINHO!



Conheci Pirelli no ano de 2001, em Salvador, por ocasião do X ENCONTRO NACIONAL DO MORHAN (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase). Fui ao encontro na condição de integrante da Delegação da Paraíba.  Estavam comigo três companheiros: Hortêncio, Severina Maria e Luzinete Victor. Jamais esquecerei aquela figura de pequena estatura, muletas, óculos de lentes enormes e escuras. 


Observei-o silenciosamente. À primeira vista me pareceu, apenas, mais um daqueles filhos de Deus terrivelmente marcados pela doença e pela dor. Detendo-me, superficialmente, no que se apresentava, constatei a ausência de dedos nas mãos,  faltava-lhe uma das pernas e, também, a luz de seus olhos, há muito o havia abandonado. Fiquei arrasada. Angustiei-me, silenciosamente pensei, como deveria ser doloroso para aquele homem ter tantas sequelas.


Sempre fui dada a desafios.  Saber como poderia interagir com aquele ser humano que, apesar de tudo, ali estava era algo a me impulsionar. Fui me aproximando devagar, temerosa de causar algum mal estar.


Ouvi uma voz que parecia vir do peito e não dos lábios do companheiro e que dizia algo mais ou menos assim: pode vir, eu não mordo. Parei, pensei rápido: como ele pressentira a minha presença e minha indecisão, ato contínuo ensaiei meu melhor sorriso, como se ele o pudesse enxergar.


Disse-lhe:
 - Bom dia, tudo bem? 
 - Sim, tudo bem.  Que cheiro bom. É mulher, nova, cheirosa e vaidosa. - Ri intimamente, por ter me tornado nova, de novo, sem ajuda de ácidos, bisturi ou qualquer desses artifícios que escravizam tanta gente. 

Muito à vontade, ele continuou: 
 - Como é seu nome? Você é de onde?  - Tudo perguntado de uma vez, rapidamente. Respirei e respondi: 
- Sou Maria de Lourdes, da Paraíba. 
- É? Que bom! Veio com Severina e Hortêncio?
- Foi. 
- É do Movimento ou só observa?
- Sou do MORHAN. 
- E o que faz na vida?
-Sou Advogada. 



Apresentou-se como Pirelli e com uma natural vocação para padre, embora nada convencional, continuou, literalmente, me confessando. Fui salva, naquela ocasião, pelo toque amigo de ARTHUR em meu ombro, avisando que reiniciaríamos, em minutos, os trabalhos. O encontro, em Salvador, estava nos proporcionando excelentes discussões, abrindo um leque de informações a perder de vista.



Confesso que minha atenção foi prejudicada. Não conseguia desligar minha mente, nela estava Pirelli. Sua vivacidade, perspicácia e inteligência. Pobre de mim. Inocente.  Não sabia ainda e na melhor acepção possível da expressão, a caixinha de surpresa que era o nosso dileto amigo.



Revelou-se, ao longo do dia, um guerreiro. Combatente, lúcido, meio maluco, é certo. Porém, maluco na proporção em que abria-se, sem medo, a anunciar o estigma da doença – maquiado com pessoas bonitas que foram atingidas e que não guardavam sequelas. Maluco, também, ao denunciar as políticas de faz de contas, reservadas aos que, de algum modo, dependiam do Poder Público para “amenizar necessidades especiais”. Maluco ainda, por se fazer de desentendido em determinados momentos, ignorando abordagens, misto de inocência e esperteza. Ah Pirelli!


O encontrei várias vezes ao longo desses anos. Poderia discorrer sobre Pirelli dias a fio e ainda teria o que dizer. Até porque suas melhores facetas ainda não foram abordadas. O gozador, bagunceiro, piadista, ruidoso em suas brincadeiras, jamais passava desapercebido mesmo se no salão estivessem pessoas VIP. Ostentava qualidades que concorriam entre si, sem possibilidades de definição sobre a que mais se destacava.


Num momento era Pirelli, o conquistador. Mulherengo, irreverente, sempre disposto a novos amores. Perdoe-me a viúva se tal declaração não a satisfaz. Um colecionador de “causos” que fariam corar um frade de pedra, não se detinha ou embaraçava quando, com o microfone em riste, falava sobre a (colônia) Antônio Diogo, ou bradava contra coisas desagradáveis, ou mesmo registrava a  necessidade de união dos integrantes do Movimento e da constante vigilância para que esse não fosse envolvido em práticas desonestas. 


Os anos foram passando e os encontros sucedendo. Faço Justiça a Pirelli. Aquele que entre piscadelas de seus olhos frios pela ausência da luz, em Niterói,  me confidenciou baixinho e sério: Doutora, disseram que a senhora além de elegante, feminina, bonita, é dona de uma voz que engana os ouvidos fazendo eco com uma idade diferente da sua, gostaria de lhe ter conhecido antes. Fiquei atônita, era uma simples declaração de uma informação recebida, uma brincadeira, um elogio, uma cantada? Não consegui enquadrar o que acabara de ouvir. Nunca consegui saber se ele estava me gozando.



Pensava ainda, quando Pirelli continuou: Doutora, hoje sou um pneu velho, careca, desencapado, mas quando fui interno, menino, corria como um pneu novo, fazendo tudo o que a idade me permitia. Quando rapaz (dando uma risada), não cabia dentro de mim. Tinha todas, mesmo que elas não soubessem. Quase desabo. 

Ainda mais assustada e preocupada com o rumo da conversa, ouvi algo surpreendente: Doutora (respeitoso, entretanto objetivo), a vida vai mudando a gente, o corpo vai se acabando, a alma vai se adaptando às cicatrizes, o espírito, esse permanece livre, nos dá asas e faz sonhar. E tem mais - com aquele jeito dele - ainda bem que a Medicina dá aos já maltratados pelos anos os meios para seguir desfrutando dos prazeres da vida. 



Depois de alguns anos, entres burburinhos, risadas e comentários de corredores, entendi tudo o que aquele valente, cuja doença atingira de forma implacável, tentara me dizer naquela hora. Pirelli não se deixava abater e buscava com unhas e dentes defender o Homem que habitava suas entranhas.

Em sucessivas ocasiões tive o privilégio de encontrá-lo. Apenas em uma ocasião ouvi sua voz tremer, seu semblante tenso, seu corpo menor e mais frágil ainda. Num evento do MORHAN fomos informados que seu filho sofrera um acidente de carro. Pirelli pai não era diferente dos demais. O coração sangrava, a luta dera lugar à cautela, o guerreiro impetuoso cedera espaço ao homem amoroso. Era visível a dor, a momentânea perda de rumo. Mesmo assim usou do microfone para se desculpar com os companheiros por ter que se ausentar. Graças a Deus que tudo não passou de um susto.


Lamento profundamente a perda do companheiro. Pirelli. Que você possa continuar defendendo a boa causa, lutando o bom combate, divertindo-se, onde quer que esteja. E CONSIDERANDO A AUSÊNCIA DE UM CORPO FÍSICO, QUE VOCÊ POSSA NOVAMENTE FAZER O QUE SEMPRE GOSTOU: CORRE PIRELLI, RODA MAIS UM VEZ AQUELE PNEU QUE O DIVERTIA, VAI AO ENCONTRO DE TANTOS COMPANHEIROS QUE, COMO VOCÊ,  PARTIRAM E ALÇARAM OUTROS VOOS.