Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

sábado, 17 de setembro de 2016

DOMINGOS MONTAGNER


FAZER MEMÓRIA À VIRTUOSE


Era uma vez..., assim começavam os Contos de Fada, as Histórias de Trancoso, os Folhetins e os Causos que povoaram a minha infância e de meus irmãos. A origem, o narrador ou narradora, eram sempre uma babá, um tio paterno que morava no interior e, pasmem, um tio paterno que morava no Rio de Janeiro mas,  a passeio, revisitava suas origens, inclusive, aquela área da alma povoada por personagens de um mundo infanto-juvenil, ora nordestino, ora universal. *Imagem:imelco.com.br


Pois é, era uma vez um homem, alto, forte, belo, e sereno. Dono de sonhadores olhos castanhos e de uma voz de modulação aveludada, essa em descompasso com a sua figura viril, máscula.  Versátil, iniciou sua passagem pelo Mundo das Artes no Circo. Foi acrobata, malabarista e, despia-se da sua natural beleza, escondendo-a detrás da máscara de palhaço, ofício que o agradava por demais. Através do palhaço revelava sua natureza humana, mesclando alegria de fazer aflorar o riso, com a tristeza que o personagem carrega de forma implícita. Pois é sabido que mesmo chorando por dentro, o palhaço traz pintado no rosto um sorriso e, com ele, dribla sua dor. *Imagem:ego.globo.com


Como se tivesse urgência no seu viver, Domingos Montagner, fez do Circo o seu palco. Passou pelo teatro. Conquistou Prêmios. Fundou, em sociedade com oito amigos, o Circo Zanni onde exerceu a Diretoria Artística. Surgiu e fez sucesso na TV brasileira, maduro, numa idade onde os galãs já começam a migrar para outros papéisGalã,  não se preocupou com a idade. Foi um astro de imensurável grandeza. talhado ao sucesso . *Imagem:gonzagoen.blogspot.com


Não foi apenas um Intérprete. A ausência dele das mídias que se deliciam com fofocas, notícias inescrupulosas - na maioria das vezes infundadas -, num mundo onde a informação se dá em tempo real, mostrou uma pessoa comprometida com a dignidade, com o respeito a si, a família e a vida. Daquelas que vêm para escrever seu nome na história. Seja na vida, na arte, na teledramaturgia, nos anais da fama, nos corações dos que tiveram a felicidade de privar de sua amizade, na saudade de milhões que aprenderam a amá-lo de longe, mesmo que  fosse em razão dos personagens vividos.*Imagem:wikipedia.com.org



A imagem reverenciada no meio artístico e fora dele, as informações unânimes, não deixam dúvidas: Domingos Montagner, foi um iluminado. Possuía o dom do encantamento. Sua figura transmitia serenidade, respeito, bem querer. A cada papel sobressaia mais e mais, na vida e no seu trabalho. Real, compromissado com arte da interpretação, nenhum telespectador conseguiria pensar no personagem vivido por ele, na pele de outro ator. *Imagem:radiojornal.ne10.uol.com.br


Transitava tranquilamente nos bastidores, nos palcos e nas telas. A imaginação autoral, sem fronteiras étnicas, físicas, temporais, tornou-se um ambiente propício ao fantástico talento de uma figura ímpar. Assim, ultrapassando épocas, escolas, gêneros e artes típicas de lugares e civilizações, brilhou num universo totalmente miscigenado, emocionando a todos. *Imagem:www1.folha.uol.com.br



Os trabalhos realizados pareciam escritos para ele. Brotavam de dentro do seu peito. A ênfase à magia da infância que, no Nordeste Brasileiro, mistura personagens épicos, reis, rainhas, príncipes, princesas, fadas, gnomos, cavaleiros medievais, madrastas, bruxas, magos e muitos outros a, cangaceiros, jagunços, coronéis, lobisomen, boto cor de rosa, encantados e encantadas, pássaros mágicos, profetas, adivinhos, curandeiros, bichos falantes, saci, mula sem cabeça, disputas com o diabo... tudo, num mesmo espaço ou em separado, tornou-se um diferencial na sua interpretação: impunha-se  desconhecer limites.  E não havia. O amor ao seu ofício superava qualquer obstáculo.*Imagem:oglobo.globo.com




Como esquecer “o Capitão Herculano Araújo” – cangaceiro temido e famoso; um homem preocupado com sua família, se debatendo entre sua consciência e aquilo que acreditava ser necessário fazer. Mais difícil ainda deixar no passado o turco Zyah, homem rude, morador de uma caverna, dono de uma docilidade e de uma sedução há muito esquecidas pela modernidade das relações atuais. Ciente e consciente, encarnar o turco oportunizou ao ator um passeio por fantástica cultura e tornou natural, quase inata, a marcante e sedutora dança por ele realizada em vários momentos.*Imagem:wp.clicrbs.com.br



Onde encontrar a impressionante força moral de Raimundo Fonseca?  O personagem que criou vida na voz, no gestual, na figura composta com a magnífica interpretação de Domingos Montagner. E o Miguel de Sete Vidas, figura dramática, densa, carregada de um remorso sem causa; ambientalista, solitário por opção, cada vez mais distanciado do convívio e de vínculos afetivos; coerente e coercitivo, fez os expectadores transitarem entre um protagonista impenetrável e, ao mesmo tempo previsível em sua humanidade, com erros e acertos.*Imagem:novelas.sapo.ao


Igualmente aplaudidas e reconhecidas, suas atuações no cinema, no teatro e na Tv, seja em filmes,  casos especiais e minisséries, como no Brado Retumbante , no qual viveu o “Presidente Antônio Ventura”, alçado á Presidência por um golpe do destino, carismático e determinado no combate à corrupção. Revelava sua fragilidade, seu calcanhar de Aquiles, nas aventuras extraconjugais que punham em risco o homem e a autoridade.*Imagem:extra.globo.com



Muito se poderia dizer sobre Domingos Montagner. Foi um ator, teatrólogo e empresário brasileiro, nascido aos 26 de fevereiro de 1962. No auge da forma e da fama teve o papel de sua vida. Santo dos Anjos, o herói do Velho Chico. Encarnando um sertanejo valente, empenhado na luta em defesa dos pequenos produtores de frutas da região, contra a cultura do Coronelismo – ali vigente. Encanta e seduz por sua beleza e firmeza de caráter. Viveu um amor intenso e verdadeiro. Como todos sonham ou sonharam. *Imagem:campoformoso.com.br





Foi pai, embora não soubesse. Perdeu a condição de pai biológico da filha que mais parecia “Santo de saia”.  Foi ferido. Levou cinco tiros, mergulhou para morte, submergiu e foi salvo por “encantados”, pajés e índios. Resgatado do mundo das sombras pela voz maviosa de sua grande paixão, rasgou a carne, expôs-se ao ódio, venceu resistências, enfrentou a barbárie de seus inimigos. Caminhava a passos largos para a felicidade. Que pena, a vida não imitou a arte.Imagem:veja.abril.com.br





Santo dos Anjos teve melhor sorte que seu interprete.  Sobreviveu aos reveses. Privações de toda natureza; perdas familiares de maneira trágicas; separação da mulher que amava e de seu primogênito; tentativas de morte, humilhações e dor. Jamais se entregou. Seu sorriso, sua paz, sua força interior, entremeadas à luta tornaram-no vitorioso, inesquecível. *Imagem:areavip.com.br



Paulista de Tatuapé, foi um grande ator, um “colega” amado e admirado por seus pares. Casado há quatorze anos definiu sua relação em declarações como: “Nosso diálogo é sempre gostoso, leve." "Se não fosse casado com ela, não seria quem sou hoje." Pai de Leo, 13 anos, Antônio, 8, e Dante, 5 se disse: "Sou louco pelos meninos. Procuro não criá-los para mim, e sim para o mundo, mas sou aquele tipo de pai canguru. Gosto de carregá-los comigo". *Imagem:jaguarverdade.blogspot.com

Partiu. Não conseguiu na vida real a benesse da fantasia. Num mergulho derradeiro pegou carona em águas revoltas, entregou-se ao Velho Chico como se voltasse às primícias de sua vida.  Não foi o primeiro a retornar. O padre Romão, vivido pelo excelente ator  - Humberto Magnani – também deixou o elenco e, órfãs sua ovelhas fictícias.  A casa do Pai tem muitas moradas. Com toda a certeza há um lugar para Domingos Montagner, para Humberto Magnani e todos que fazem a viagem de volta. A nós resta a saudade e a incompreensão dos fatos ante a nossa pequenez. Segue e fascina nessa nova dimensão.

Um comentário:

Adayza Cândido disse...

O mundo perdeu, um grande ator, incomparável, inesquecível...
mas seu trabalho sempre será lembrado, pois ele desempenhava perfeitamente cada papel interpretado, ainda está um pouco difícil acreditar na sua morte, mais... essa é a única certeza da vida. A morte!