Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

sábado, 5 de abril de 2014

JOSÉ WILKER À SERVIÇO DA ARTE

O ESPETÁCULO NÃO PODE PARAR.


O amanhecer traz sempre renovação. Com ele pode chegar  o alento às nossas dores, a alegria de mais um ser humano entre nós, a confirmação de algo muito esperado...enfim, o leque de possibilidades é infinito. Infelizmente, também contamos com a admissibilidade de novos acontecimentos que são contrários aos nossos interesses, às nossas vidas e até mesmo a algo que temos como uma constantes  em nosso existir. Falo do entretenimento,  aspecto imprescindível  que podemos exercitar através das múltiplas formas de cultura ou através do lúdico. O nosso presente, cheio de tensões e encargos, não pode  dispensar o afastar-se, momentaneamente, de tais  obrigações até mesmo para manter a saúde física e mental. 


Pois é, acostumamo-nos á fantasia. Tê-la nos dá o escape necessário à sobrevivência. Assim, nada mais fantasioso que imaginar os personagens  como atemporais. Os heróis e anti-heróis não sofrem a ação do tempo. Quem, em sã consciência, imagina Macunaíma ou Capitão Gancho ou mesmo o Príncipe Hamlet adaptados à nossa atualidade? Imaginem, Macunaíma no melhor estilo Funk, com os cabelo louros, cheio de pinces e amante de tudo que lhe possa abrir a mente. Capitão Gancho com uma prótese de titânio podendo, inclusive, pegar, delicadamente uma flor no estilo bem me quer...mal me quer...  E o Príncipe Hamlet, formado em Filosofia, Teologia, Física  e Medicina não mais nutrindo qualquer curiosidade sobre a existência, vagando pela cidade no mais profundo ócio.



Os meus heróis não morreram de overdose. A bem da verdade faz parte do mito que o herói nunca morra. Não importa se de quadrinhos, produto de computadores, da criatividade de gênios das letras, do cinema, da televisão... pouco importa a origem, são imortais e, no máximo, abrem a cortina e pedem passagem para um outro plano. Sua obra fica entre nós.





Hoje o amanhecer trouxe  um tom cinzento. Nuvens de chuva sobre o litoral emprestando à paisagem um tom melancólico. Não sabíamos, mas a natureza chorava para nos revelar que JOSÉ WILKER, alguém cujo arco de vida se estendera nos palcos desse imenso Brasil, partira de uma vez por todas para a fama, levando consigo algo que homem nenhum poderá roubar: uma imagem construída ao longo de sua vida artística e que se caracterizava  por sua capacidade intelectual, seu talento, sua presença marcante em cena.



Um Artista fantástico. Ator, Diretor, Narrador, Apresentar, Critico de Cinema. levava o público ao deleite nos palcos do Teatro, no dia a dia da Televisão, nas telas do Cinema. Cearense, 66 anos, deu vida a inúmeros personagens em 36 Telenovelas, 4 Seriados, 3 Minisséries. Dirigiu 2 telenovelas, 1 seriado e 1 filme. Atuou em mais de 40 filmes. Seu último trabalho na televisão brasileira deu vida ao médico Dr. Herbet em AMOR A VIDA.  



Foi casado  com as atrizes Renée de Vielmond com quem teve uma filha de nome Mariana;  Guilhermina Guinle;  Mônica Torres mãe de sua segunda filha chamada  Isabel e, por último a Jornalista Cláudia Montenegro,  que é mãe de sua filha Madá.  Uma existência impactante. Um homem que embora se dissesse agnóstico, colocava amor em tudo o que fazia.
   

Falo, já com saudade, de seu rosto expressivo sempre com um quê de "você que sabe". Um artista completo. Brilhante em tudo o que fez. Detalhista, foi um intérprete como poucos, capaz de levar o público ao riso ao choro; do endeusamento à raiva, em questão de segundos. Zé, como gostava de ser chamado, com seu riso enigmático e sua voz potente, sensual, dispensava a barriga tanquinho, as pernas poderosas ou outras tolices que escravizam os pseudos galãs de hoje.



Nele, tudo era muito, muito visceral.  O olhar parecia penetrar as pessoas. Sua estatura crescia a medida que falava. Sua personalidade envolvia a todos. Parecia estar, constantemente, sob luzes. Acredito que refletia dons, qualidades inatas e que não o deixavam ser apenas mais um ZÉ.



Entre os personagens que mais fizeram sucesso visualizo: MUNDINHO FALCÃO, na primeira versão da novela Gabriela. Um jovem, inteligente, determinado e apaixonante exportador Baiano que derruba o Cel. Ramiro Bastos, casa-se com sua neta Gerusa, tornando-se o novo Intendente da progressista cidade de Ilhéus. VADINHO, o marido falecido na obra de Jorge Amado, "Dona Flor  e seus dois maridos" . Um vulcão em erupção, aparecia nu nas horas mais inconvenientes e deixava em fogo a ex-viúva. LORDE CIGANO, de By by Brasil, um dos sucesso do ator no cinema, sob a direção de Cacá Diegues; no filme, rodava o País numa trupe mambembe vendendo ilusões, inclusive,  prometendo neve para o Brasil. ROQUE SANTEIRO, seu personagem de maior sucesso. Emblemático, o que era sem nunca ter sido, Santo Fujão, que está sempre associado a figura do ator. GIOVANNI IMPROTTA, bicheiro exagerado,  misto de manda chuva e capacho de uma paixão, mostrava sua satisfação exclamando: Felomenal. Encarnou a figura do Presidente JUSCELINO KUBITSCHEK, na Minissérie JK, na segunda fase, tornando-se  o político, cujo riso em nada devia ao original.  Uma interpretação a altura de seu talento. 


Soube ser mau. Mostrou-se antiético, violento, agressivo. Foi convincente ao extremo, vivendo o Deputado pistoleiro TENÓRIO CAVALCANTI no filme O HOMEM DA CAPA PRETA que protagonizou o famoso Caso Imparato e a tentativa de assassinato a Antônio Carlos Magalhães. Wilker convenceu a todos do quanto podia tornar-se asqueroso, com o Coronel JESUÍNO LACERDA e seu temido bordão: "deite que eu vou lhe usar", no remake de Gabriela. Moldou um ZECA DIABO feio, de cara fechada e livre de censuras para a versão cinematográfica do BEM AMADO em 2011. O seu canto do cisne na televisão foi na novela Amor à Vida onde viveu o melancólico Dr. Herbet, um homem dividido entre o passado e o presente.



Pensar José Wilker é como abrir uma obra de arte que você leu, releu, retorna  a leitura  e sempre encontra coisas novas e que você e eu, nós havíamos deixado escapar. Sua vocação para camaleão nos deu a oportunidade de vermos os tipos mais controversos possíveis. Interpretar  para ele era transformar-se e adotar expressão tão diferentes que sugeria a presença de outra pessoa. Um homem bonito, charmoso e sugestivo de uma boa pegada. Uma bela voz, um timbre cheio, sensual. Um Homem, um Artista, um fazedor de ilusões. Deixa saudades e na orfandade pessoas que riram, choraram, amaram, sofreram, sonharam, odiaram, aplaudiram e esperaram o dia seguinte para, mais uma vez, beber da fonte mágica de seu talento.


Acho que no céu estão ensaiando um grande espetáculo. Nesse ano foram chamados para cantar lá em cima: Nelson Ned, Milky Mota, Márcio Vip, Dino Franco; para animar a festa Marly Marley, Virgínia Lane, Paulo Schroeber, Nonato Buzar, Canarinho e, para atuar, Nico Nicolairewsky, Arduíno Colassanti, Paulo Goulart e nosso amado José Wilker, todos sob a câmera humanista e documental do inesquecível Eduardo Coutinho. Que cada um deles tenha encontrado a sua morada na casa do Pai. 

Aplausos para a cortina que se fecha!





terça-feira, 1 de abril de 2014

31 de Março de 1964

UM DIA DE MUITAS FACES!





Uma tarde como outra qualquer.  Um filme exibido numa sessão chamada “Cinema de Arte”. Na tela, Audrey Hepburn dá vida a jovem Gabrielle Van der Mal, filha de um famoso cirurgião, que resolve jogar tudo para o alto em busca de seus sonhos: torna-se  freira, faz votos de obediência, pobreza e castidade, dedica-se a seus estudos de Medicina e  espera ser enviada a África. Após anos trabalhando em enfermarias é mandada para o Congo e ali conhece um médico ateu, cínico e brilhante profissional interpretado por Peter Finch. 


Daí fatos que justificam o título e as interpretações dos protagonistas tornam o filme, realmente, uma obra de arte. Aos doze anos, acompanhava minha mãe, amante da sétima arte, e fomos surpreendidas na saída do cinema. Eram 18h e 30min,  o rebuliço, o corre-corre e a aflição das pessoas mostravam que havia algo assustador: ocorrera um golpe de Estado, o Presidente fora deposto.  Enquanto nos comovíamos com a ilusão, a vida escrevia uma história bem mais emocionante.


O País continuou em polvorosa. Entre os dias  31 de Março e 1º de Abril de 1964, abateu-se sobre nós, como se fosse uma lâmina afiada, o  estranho golpe de Estado que declarou vaga a cadeira Presidencial, pelo Exercito Brasileiro e não pelo Poder Legislativo, conforme previa a Constituição. O pronunciamento desencadeou uma sucessão de fatos que se estenderiam por 21 anos, ecoando na sociedade e na memória do povo brasileiro. Instalara-se uma revolução que se propunha a devolver aos nacionais o Estado Brasileiro, bem como a legalidade e, abortar, no seu nascedouro, a concretização do poder nas mãos de comunistas. 


Ideologias à parte, os acontecimentos ocorridos há 50 anos e que por razões diversas fizeram de João Goulart protagonista, no olho do furacão, impuseram à nação perseguições, intolerância, barbárie,  medo, ódio, traumas, torturas, desaparecimentos, mutilações e mortes.


O horror, digno de caprichosa ficção, não privilegiou vítimas. Assim como para a inquisição, ao novo Estado brasileiro tudo era motivo para imposição de pesados fardos. Os Militares em consenso com Empresários, autores do golpe, apoderaram-se da História e tentaram escrevê-la ao sabor de sua ordem, suas crenças. Chegaram, assumiram o Poder, estabeleceram um regime de exceção e jugo onde validaram suas práticas e não aceitavam insurreição. O Presidente foi transformado num inimigo da nação e pseudo mentor de um golpe de esquerda que transformaria o Brasil numa nova Cuba.


A história da revolução, com seus aspectos tristes, suas manobras e seus Generais já foi contada e recontada milhares de vezes. Igualmente o foi a saga dos que estavam do outro lado, os resistentes que integravam a Vanguarda Popular Revolucionária – VPR; o Comando Geral dos Trabalhadores – CGT; a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria- CNTI; a UNE - União Nacional dos Estudantes,  além de outros jovens, estudantes ou não, em milhares de Centros Estudantis e Operários, espalhados no Brasil a fora; intelectuais, jornalistas, artistas, políticos, economistas, professores, religiosos, donas de casa,  gente de todos os confins, todos os credos e todas as raças.


Rompida a Lei pela conspiração, subvertido o povo brasileiro pela estupidez da tortura, dos assassinatos, da luta fratricida onde a delação funcionava como moeda de troca, aquilo que se dissera e se apresentara como passageiro tornou-se permanente, naufragando, cometendo erros crassos como combater o terrorismo implantando um “terrorismo de direita”; buscar a erradicação da resistência pela mordaça, pelo sepultamento em vida através da clandestinidade. A revolução foi, aos poucos, anarquizada, moralmente falida e incapaz de se sustentar num discurso corroído de defesa das instituições nacionais.


Mas como em todos os fatos Políticos as baixas ocorreram para todos os contendedores. A guerrilha urbana, os combates no Araguaia, as ações nos “aparelhos”, também produziam órfãos, viúvas, segregação das famílias, enganos, seqüestros, torturas e mortes. 


A minha memória registra o terror das famílias por seus filhos, isso em relação aos militares e também à militância. Patrulhas ideológicas existiam em ambos os lados e as intervenções na vida íntima desconheciam barreiras. Para os militantes não havia família – ela desvirtuava a luta e desviava o “companheiro” de suas convicções. Também não se podia falar em envolvimentos amorosos, tão combatidos quanto os laços familiares, esses poderiam oportunizar mudança de rota e entrega de companheiros.  Apenas os líderes puderam reconhecer seus amores e mesmo assim em momentos que se mostravam interessantes á causa. 


Cinquenta anos não passam sem deixar marcas. Mortos continuam sem identidades. Desaparecidos são, pouco a pouco identificados em extremadas confissões recheadas de cenas macabras muito além da ficção.   Vivos, modificaram-se de tal forma que no melhor estilo “Chico Buarque” se pode pensar e dizer: ...Quem te viu, quem te vê. Quem não a conhece não pode mais ver pra crer. Quem jamais esquece, não pode reconhecer...”


Militares que  eram os senhores da situação, determinavam os que deveriam ser cassados e caçados. Presentemente, os sobreviventes ao tempo, são pálidos reflexos do que foram um dia. Doentes, alquebrados, remoídos por suas lembranças ou se escusam a falar sobre a revolução ou, como aconteceu recentemente, abrem-se em relatos pavorosos, não se sabe se buscam diminuir seus fantasmas, elucidar mistérios ou mesmo esclarecer o quanto desumano pode ser o poder absoluto.


E os mortos? Os dois lados concordam na justificativa de suas perdas. Cada um de per si afirma, sem qualquer drama de consciência que foram heróis mortos em combate na defesa da melhor ideologia para o País. A violência foi inominável. É impossível contabilizar o número de mortos. Alguns fatos, todavia, não podem ser negado. Os assassinatos, os erros, o reconhecimento da ditadura como  tragédia, a indignação, os efeitos que eclodiram e perduraram sob a sociedade brasileira, são manifestações inegáveis de consciência social.

Sem perder de vista a conotação que os adversários se atribuíam pergunta-se: como estão os heróis da revolução? 


Os militares e simpatizantes perderam o posto heroico, tornaram-se vilões, alguns tiveram seus nomes apagados de placas que lhes homenageavam,  submetem-se,  atualmente, ao comando dos que perseguiam, torturavam. Os militantes deram a volta por cima, ocupam altos postos. A Presidência da Republica, como é fato público e notório, é exercida por uma ex-militante, ex-guerrilheira. Cultua-se,  ou cultuava-se  o mito do guerrilheiro heroico.


Bom, a historia nos revelou traições entre os guerreiros do Socialismo e/ou Comunismo. As delações dos guerrilheiros do Araguaia têm nome, e o traidor se arroga a condição de grande companheiro, sustentando o direito de continuar vivendo da glória do enfrentamento por ter sido opositor na Revolução Militar de 1964. 


Muitos nomes rolaram na lama, por crimes de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, peculato. O Brasil que está há quase doze anos sob o governo do Partido dos Trabalhadores constata que o discurso em pró das minorias e a ética anunciada reiteradamente, cedeu lugar ao cinismo, a improbidade, a absorção das práticas que repudiavam e, principalmente, ao crime de lesa-pátria, considerando-se que  os cofres públicos foram sistematicamente espoliados e jogados num lamaçal sem precedentes. Instituições e cargos nunca dantes emporcalhados em tão grande escala foram arrastados com seus ocupantes numa teia pegajosa reforçada por propinas.


Alguns insistem, ainda, numa imagem de compromisso social e, contraditoriamente estão presos ou livraram-se de condenações em face do “pulo do gato”, patrocinado pelas melhores Bancas Advocatícias da nação. É, os militares não são mais os mesmos, perderam o comando e a força. Os ex-militantes também não guardam as boas características da juventude, perderam o brilho. Acreditam estar acima do bem e do mal. Defendem a corrupção, se agarram a postos, posições sociais, vantagens econômicas e financeiras como se estivessem resgatando algo que por direito lhes pertence. 



Do passado não se pode apagar sequer a queda de uma folha. Conviver com a História de um País tem que ser bem mais do que andar com um retrovisor em busca de culpados. As lições que podem resultar de erros reiterados devem levar a sociedade a repensar suas escolhas e, os dirigentes à compreensão de que exercer a cidadania é também opor-se, ao Estado, as autoridades, as ideologias e doutrinas.   Por amor a Justiça questiono: Os Militares que hoje são, de alguma forma, afetados pela determinação de prestar contas a Comissão da verdade, do porquê de espaços do Exército terem sido usados para atividades de repressão, estão obrigados a fazê-los?

Pobre Brasil. Pobres criaturas, militantes e familiares, militares e familiares imoladas nos altares de suas crenças de Justiça Social, a esses,  que deram suas vidas, sacrificaram seus sonhos e seu amores por uma Pátria melhor, mais justa e mais igualitária,  A MINHA HOMENAGEM.

quinta-feira, 20 de março de 2014

POESIA

 
CASTRO ALVES E CARTOLA



Por vezes, mergulhamos tão fortemente em nosso mundo particular que deixamos passar excelentes oportunidades para nos expressarmos sobre coisas que tornam a vida mais bonita, mais colorida e de certa forma, mais amena.


Pois é, nessa loucura do dia a dia cometemos uma falha imperdoável. Esquecemos, sem o merecido registro, o dia 14 de Março em que se celebra o DIA NACIONAL DA POESIA. Ato falho, apenas escusável na avalanche de atividades que roubam, até mesmo, a nossa sensibilidade e nossa memória afetiva.


A poesia que já foi amplamente conceituada e definida pelos mais diferentes indivíduos como literatos, pessoas do povo sem maiores qualificações intelectuais, apaixonados, loquazes usuários da língua portuguesa e de tantas outras, merece, de nossa parte, um tributo à genialidade dos que através dela  externam seus amores, suas dores, seus sonhos e decepções.

Essa linguagem fantástica em que vibram as mais profundas emoções dos seres humanos, transmite sentimentos e pensamentos que comandam conexões, amorosas ou não; traduz paixão – pathos – até mesmo em seu sentido patológico e, arrebata de dentro das pessoas as mais íntimas centelhas de seu pensar.
 

É óbvio que algo significativo determinou a data eleita para a homenagem. Nada mais justo que a escolha tenha recaído sobre o dia do nascimento de legítimo e festejado brasileiro, representante desse dom criativo. Assim, 14 de Março, dia do nascimento de Antônio Frederico de Castro Alves, o grande Poeta, Humanista, Literato, que fez da poesia um grito de dor, de alerta e de amor em pró de homens e mulheres nascidos livres, príncipes e princesas das savanas e planícies, aprisionados, escravizados, humilhados, cujo sangue corre em nossas veias, e, constitui-se dívida para a Nação Brasileira.

                                     
Castro Alves foi a voz, a pena, a rima em forma de protesto. Chorou pelos náufragos dos tristes “Navios Negreiros”; sofreu com o torpor da melancolia que matava os cativos e a que chamavam de “Banzo”; desesperou-se com a mãe negra a quem os filhos eram arrancados do peito e definhavam enquanto ela, a mãe, alimentava os filhos brancos dos pais que torturavam, mutilavam, estupravam, milhares de criaturas subjugadas. 
  
 
Precursor da abolição é, sem sombra de dúvidas, o maior entre os nossos Poetas. Em sua luta anti-escravagista produziu a belíssima “Vozes d’a África”, “A mãe do Cativo”, “Navio Negreiro”... . Uma vida curta, intensa e fecunda que durou apenas 24 anos. Com a sensualidade a flor da pele, apaixonou-se por Idalina, para quem criou “Bárbara” do poema “Os Anjos da Meia Noite”. Amou profundamente Eugênia Câmara – experiente atriz dez anos mais velha que ele,  - e cantou seu sentimento nos versos da Poesia “Meu Segredo”. Enamorou-se de Lídia Fraga e, por último, caiu de amores – não correspondido – por Agnese Trinci Murri, soprano italiana que jamais se rendeu aos desejos do poeta.


Sua obra muito bela e rica acompanhava os seus sentimentos. Sua morte pelo acometimento da Tuberculose era considerada como típica dos que amavam a noite. A Poesia não se foi com o Poeta dos Escravos ou Poeta da Liberdade como também foi chamado.  Muitos outros vieram depois dele, amaram, sofreram, vibraram, esboçaram sorrisos e deixando lágrimas escorrerem por suas faces.

Nomes como Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Olavo Bilac, Cecília Meirelles, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Dolores Duran, Mário Quintana, Carlos Drumond de Andrade, Vinicius de Morais, Cora Coralina, Elisa Lucinda,  Patativa do Assaré, Jessier Quirino,  e tantos outros que se expressaram ou se expressam com liberdade, livres do jugo e das amarras da crítica, colocando em suas criações as mais diferentes leituras de seus sentimentos, certamente sugerem uma amostra do quanto, nós brasileiros, fomos e somos influenciados por essa arte lírica.


Mas, a poesia não é algo que se encastele nesse ou naquele segmento de nossas vidas. Está presente no nosso dia a dia; em momentos simples, em atitudes mágicas, músicas belíssimas que falam de amor, nas manifestações artísticas como o teatro, a pintura, a escultura e a dança.


Como deixar de ver poesia no beija flor que de galho em galho executa um bailado sobre si, beija as flores sorvendo o néctar de cada uma? Impossível ignorar a sequência poética nos gestos de uma criança que ergue as mãos abre um sorriso e atira-se nos braços de quem ama? Irreal deixar de sentir a poesia nas palavras de Cartola: “Queixo-me às rosas, mas que bobagem... As rosas não falam...Simplesmente as rosas exalam...O perfume que roubam de ti, ai...


Qual a alma empedernida que não se comovia com a poesia, a paixão de Paulo Autran em cena? E a poesia pura de Michelangelo, traduzidas em corpos belos, madonas perfeitas, peças inimitáveis cheias de angústia visceral? Será força de expressão falar da poesia arrebatadora de corpos vibrando nos brilhantes movimentos do “Lago dos Cisnes” ou mesmo na paixão dos corpos entrelaçados na volúpia do Tango?


Não há dúvidas a poesia acompanha a vida. Irrompe com a presença da musa inspiradora na mente do poeta. Existe em seu estado latente independente de porquês. Surge na rima culta dos intelectuais e, igualmente, povoa os sentimentos contidos nos poemas de cordel, na viola matuta dos “cantadores”, “repentistas” e de tantos quantos sintam pulsar em seu peito um entusiasmo criador que os transformem.

POESIA É ISSO:

A ARTE -


“A vida bate e estraçalha a alma
e a arte nos lembra que você tem uma.”
Estella Adler

A RIMA –   
                

As Duas Flores
Castro Alves

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol.
Vivendo do mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas...Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor
Juntar as rodas da vida,
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

A BELEZA - 


As Rosas Não Falam
Cartola

Bate outra vez
Com esperanças em meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti,ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim


TUDO ISSO ME FASCINA!