Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

quinta-feira, 20 de março de 2014

POESIA

 
CASTRO ALVES E CARTOLA



Por vezes, mergulhamos tão fortemente em nosso mundo particular que deixamos passar excelentes oportunidades para nos expressarmos sobre coisas que tornam a vida mais bonita, mais colorida e de certa forma, mais amena.


Pois é, nessa loucura do dia a dia cometemos uma falha imperdoável. Esquecemos, sem o merecido registro, o dia 14 de Março em que se celebra o DIA NACIONAL DA POESIA. Ato falho, apenas escusável na avalanche de atividades que roubam, até mesmo, a nossa sensibilidade e nossa memória afetiva.


A poesia que já foi amplamente conceituada e definida pelos mais diferentes indivíduos como literatos, pessoas do povo sem maiores qualificações intelectuais, apaixonados, loquazes usuários da língua portuguesa e de tantas outras, merece, de nossa parte, um tributo à genialidade dos que através dela  externam seus amores, suas dores, seus sonhos e decepções.

Essa linguagem fantástica em que vibram as mais profundas emoções dos seres humanos, transmite sentimentos e pensamentos que comandam conexões, amorosas ou não; traduz paixão – pathos – até mesmo em seu sentido patológico e, arrebata de dentro das pessoas as mais íntimas centelhas de seu pensar.
 

É óbvio que algo significativo determinou a data eleita para a homenagem. Nada mais justo que a escolha tenha recaído sobre o dia do nascimento de legítimo e festejado brasileiro, representante desse dom criativo. Assim, 14 de Março, dia do nascimento de Antônio Frederico de Castro Alves, o grande Poeta, Humanista, Literato, que fez da poesia um grito de dor, de alerta e de amor em pró de homens e mulheres nascidos livres, príncipes e princesas das savanas e planícies, aprisionados, escravizados, humilhados, cujo sangue corre em nossas veias, e, constitui-se dívida para a Nação Brasileira.

                                     
Castro Alves foi a voz, a pena, a rima em forma de protesto. Chorou pelos náufragos dos tristes “Navios Negreiros”; sofreu com o torpor da melancolia que matava os cativos e a que chamavam de “Banzo”; desesperou-se com a mãe negra a quem os filhos eram arrancados do peito e definhavam enquanto ela, a mãe, alimentava os filhos brancos dos pais que torturavam, mutilavam, estupravam, milhares de criaturas subjugadas. 
  
 
Precursor da abolição é, sem sombra de dúvidas, o maior entre os nossos Poetas. Em sua luta anti-escravagista produziu a belíssima “Vozes d’a África”, “A mãe do Cativo”, “Navio Negreiro”... . Uma vida curta, intensa e fecunda que durou apenas 24 anos. Com a sensualidade a flor da pele, apaixonou-se por Idalina, para quem criou “Bárbara” do poema “Os Anjos da Meia Noite”. Amou profundamente Eugênia Câmara – experiente atriz dez anos mais velha que ele,  - e cantou seu sentimento nos versos da Poesia “Meu Segredo”. Enamorou-se de Lídia Fraga e, por último, caiu de amores – não correspondido – por Agnese Trinci Murri, soprano italiana que jamais se rendeu aos desejos do poeta.


Sua obra muito bela e rica acompanhava os seus sentimentos. Sua morte pelo acometimento da Tuberculose era considerada como típica dos que amavam a noite. A Poesia não se foi com o Poeta dos Escravos ou Poeta da Liberdade como também foi chamado.  Muitos outros vieram depois dele, amaram, sofreram, vibraram, esboçaram sorrisos e deixando lágrimas escorrerem por suas faces.

Nomes como Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Olavo Bilac, Cecília Meirelles, Gonçalves Dias, Manoel Bandeira, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Dolores Duran, Mário Quintana, Carlos Drumond de Andrade, Vinicius de Morais, Cora Coralina, Elisa Lucinda,  Patativa do Assaré, Jessier Quirino,  e tantos outros que se expressaram ou se expressam com liberdade, livres do jugo e das amarras da crítica, colocando em suas criações as mais diferentes leituras de seus sentimentos, certamente sugerem uma amostra do quanto, nós brasileiros, fomos e somos influenciados por essa arte lírica.


Mas, a poesia não é algo que se encastele nesse ou naquele segmento de nossas vidas. Está presente no nosso dia a dia; em momentos simples, em atitudes mágicas, músicas belíssimas que falam de amor, nas manifestações artísticas como o teatro, a pintura, a escultura e a dança.


Como deixar de ver poesia no beija flor que de galho em galho executa um bailado sobre si, beija as flores sorvendo o néctar de cada uma? Impossível ignorar a sequência poética nos gestos de uma criança que ergue as mãos abre um sorriso e atira-se nos braços de quem ama? Irreal deixar de sentir a poesia nas palavras de Cartola: “Queixo-me às rosas, mas que bobagem... As rosas não falam...Simplesmente as rosas exalam...O perfume que roubam de ti, ai...


Qual a alma empedernida que não se comovia com a poesia, a paixão de Paulo Autran em cena? E a poesia pura de Michelangelo, traduzidas em corpos belos, madonas perfeitas, peças inimitáveis cheias de angústia visceral? Será força de expressão falar da poesia arrebatadora de corpos vibrando nos brilhantes movimentos do “Lago dos Cisnes” ou mesmo na paixão dos corpos entrelaçados na volúpia do Tango?


Não há dúvidas a poesia acompanha a vida. Irrompe com a presença da musa inspiradora na mente do poeta. Existe em seu estado latente independente de porquês. Surge na rima culta dos intelectuais e, igualmente, povoa os sentimentos contidos nos poemas de cordel, na viola matuta dos “cantadores”, “repentistas” e de tantos quantos sintam pulsar em seu peito um entusiasmo criador que os transformem.

POESIA É ISSO:

A ARTE -


“A vida bate e estraçalha a alma
e a arte nos lembra que você tem uma.”
Estella Adler

A RIMA –   
                

As Duas Flores
Castro Alves

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol.
Vivendo do mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas...Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor
Juntar as rodas da vida,
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

A BELEZA - 


As Rosas Não Falam
Cartola

Bate outra vez
Com esperanças em meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti,ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim


TUDO ISSO ME FASCINA!





segunda-feira, 3 de março de 2014

COMO DIRIA PEDRO BLOCH


 CRIANÇA DIZ (FAZ) CADA COISA!
 


Fevereiro foi um mês muito difícil. Convivemos com notícias ruins na Economia, na Política, na Saúde, na Segurança e, tristemente, na Justiça. Muito embora tenhamos vivido um período em lua-de-mel com o STF, aplaudido e elogiado aqui e fora de nossas fronteiras - ante a comunidade internacional livre e ética - não conseguimos manter essa luminosidade. Os mensaleiros continuarão mamando, conectados.  O MÊS TRADICIONAL DO CARNAVAL NOS DEIXA, MAIS UMA VEZ, COM CARA DE PALHAÇOS, COM UMA PERFORMANCE PÍFIA E A CERTEZA DE TERMOS OBTIDO A TÃO DESCONCERTANTE VITÓRIA DE PIRRO”.



Não quero começar Março  com coisas tão escabrosas. Os leitores merecem uma pausa e assuntos que revigorem as esperanças, que demonstrem a existência de vida  saudável e condutas humanas qualificadas longe do corporativismo, da doença moral instalada em nosso País.


Fazendo memória, como num flash de minhas lembranças, surge uma luz, de beleza, brilho e inocência a toda prova. Falo, especificamente, de uma seção da Revista Manchete, da Bloch Editores, intitulada “Criança diz Cada Uma”, onde o Pediatra, escritor  e dramaturgo,  Pedro Bloch, semanalmente, nos trazia pérolas do seu convívio com crianças de 3 a 11 anos.  Seus pacientes e alimentadores de sua vocação para letras  que lhes revelavam um universo mágico. Essa coluna fantástica também foi reproduzida pelo seu autor na Revista Pais e Filhos.


O que pode ser mais renovador do que o mundo infantil? Como competir com criaturas fantásticas que criam, a cada segundo, situações inimagináveis aos adultos? Como não se deixar seduzir, encantar e,  ranzinza criar obstáculos a observações, histórias e perguntas inocentes feitas nos momentos mais incríveis? Pois é, vamos passear um pouco nesse maravilhoso universo e sentir a doçura, a inocência devolvendo o riso ao nosso rosto. Algumas histórias narradas por quem viveu o momento nos mostram a diversidade e criatividade das reações infantis. Trago histórias que não foram contadas pelo grande Pedro Bloch, mas que com toda certeza caíria muito bem em suas  colocações e como ele, reservo-me o direito de omitir suas identificações.


Corria o ano de 1963, após 08 anos como caçula a criança viu-se destronada pelo nascimento de um bebê. No princípio, olhou desconfiada, mas a ternura foi maior que o sentimento negativo. Entretanto, ao perceber que a atenção de todos voltara-se para o recém-chegado, teve uma ideia: foi ao jardim pegar formigas para colocar no berço e assim esperar que elas levassem o novo rei da casa ou que o devorassem. Mas as formigas preferiram a segunda hipótese, a pele rosado do neném e assim, uma picada resolveu tudo. O bebê gritou a plenos pulmões e a pretensa destronada foi a primeira a correr retirando-o para livrá-lo dos insetos. Maldade, não: defesa inocente de sua condição.


Numa outra residência, uma criança de dois anos, caçula, caçulinha, viu sua mãe voltar para casa com uma menininha. Enciumada, ficou sempre por perto da mãe e da irmã. Um descuido e a ex-caçula entrou no berço, sentou na barriga da irmãzinha, pegou o talco e derramou com toda sua força sobre o bebezinho. Graças à chegada de sua mãe tudo foi contornado, apesar de existir um mito de que a sinusite que hoje a Advogada de sucesso tem é fruto do banho de talco que recebeu. Insisto: cada criança defende seu território como pode. 



O ciúme é um sentimento independente, não respeita nada ou ninguém. Um menininho que não aguentava mais ser deixado de lado na hora do futebol, pelo irmão  e os amigos daquele que o chamavam de fracote, pirralho, perna de pau e dengoso, num certo dia correu para o meio da pelada, pegou a bola e ao invés de sair correndo como era previsível, sentou na gorduchinha e, pasmem, FEZ XIXI, COM A MAIOR TRANQUILIDADE E CARA DE PAU. Os outros, com nojo e com ódio não o pegaram porque os gritos trouxeram a "cavalaria" para fazer a defesa da criança: a mãe e as irmãs, que correram assustadas e frustraram a ira dos jogadores com a justificativa de que ele era criança e não sabia o que estava fazendo.


Estranho mesmo é o que fez uma criança pequena. Também um menino a quem toda a família já explicara o perigo que representava as tomadas. Muito embora todos tivessem insistido no risco de choques e até a possibilidade de morte, esqueceram de dizer que líquidos costumavam ser excelentes condutores de eletricidade. Um belo dia o menino, inquieto como ele só, resolveu tirar a limpo uma interrogação, ato contínuo abriu as calças e urinou na tomada. O choque foi tamanho que o desobediente foi jogado para trás. O que se sabe até hoje é que ficou elétrico: cem por cento agitado.


As meninas muito cedo começavam a imitar as adultas. Adoravam vestir roupas, usar maquiagem, bijuterias e sapatos de suas mães e tias. Normalmente resultava em prejuízos e muitas vezes castigos. Em 1977, com um caprichado figurino a tia brilhara em sua festa de formatura no Curso de Direito da UFPB, no então maravilhoso Clube Cabo Branco. Pois é, a sandália preta com salto dourado e tiras recobertas por strass fixado sobre uma base também dourada era linda, cara e estava no auge. A sobrinha tinha aproximadamente uns três anos, falava pelos cotovelos, ao ser surpreendida pela mãe, usando maquiagem e sapato alto, de festa, foi ameaçada com castigo se houvesse repetição. Não se fez de rogada e disse: “ você é muito chata, minha tia deixa eu usar o batom dela e a sandália de ouro e brilhante e não reclama nada...".  Virou folclore familiar.

E as rapidinhas:



E o menino que puxou a cadeira para ver se o pai era rápido mesmo? Que injustiça o castigo que recebeu!

E a menina que jogava as taças de cristal da varanda no primeiro andar só para ouvir o barulho na calçada? Susto e prejuízo para os adultos, muita diversão para  a pequena.

E aquela que observando o tio consertando a moto pegou a "chave de fenda" e mandou na testa? Nunca explicou o motivo. 

E as meninas que fizeram um contrato de escravidão com o irmão - para lavar os pratos da casa - em troca de um segredo? O coitado saíra para jogar futebol e foi flagrado pelas espertinhas. Ainda bem que a avó descobriu tudo.

E as crianças mudas diante da vizinha toda pronta de longo e maquiada. Animadíssima perguntou? Estou bonita? Em coro: não tia, muito feia. Detalhe, aproximadamente cinco e sete anos.

E outra que olhou a amiga da tia e perguntou . "Tu é homem ou mulher? Detalhe, os seios salvaram a dita cuja.

E os irmão que brincando de índio e brancos amarraram a vizinha no fundo do quintal e esqueceram? Na hora do jantar a busca aflita dos vizinhos pela filha lembrou a todos. Saíram correndo e encontraram a pobre cara pálida dormindo amarrada.

E a porta alianças que recusou-se, terminantemente, a entregar a almofadinha aos noivos?

E as frases?


“Mãe tô com fome de gagau faz meu leitinho rápido!”

“Mãe por que menino tem torneirinha?”

“Mãe não quero usar o shampoo de tia, senão meu cabelo fica branco como o dela!”

“Mãe compre um marido pra mim, eu quero...”

“Mãe por que você bate nas costas do neném pra ele arrotar e briga comigo quando arroto?”

“ Mãe quem cuida das pessoas quando Papai do Céu dorme?”

“Mãe por que Papai Noel é tão velhinho e tem tantos filhos?”

“Mãe você segura com força na minha mão enquanto eu durmo? Assim sei que você não saiu de casa enquanto eu dormia.”

“Papai por que mamãe usa aliança e você não?”

“Mãe dente de leite desmancha no liquidificador?”

“Moço você também ta grávido como minha mãe?”

Uma amostra ínfima do que as crianças podem fazer e dizer no seu dia a dia, num oasis de graça, beleza e imaginação.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

DROGAS NÃO


RENASCER NO ESPORTE!

 
As drogas nunca estiveram na mira de minhas abordagens, pela terrível carga emocional que evoca sofrimento, lembranças, dores. Todavia, dois fatos fizeram com que eu vencesse minha natural aversão e colocasse preto no branco, com algumas considerações. Gosto de ouvir rádio. Uma entrevista levada ao ar pela CBN me chamou a atenção de maneira muito positiva. Jornalistas entrevistavam um maratonista brasileiro, que mesmo sendo amador registra índices e tempo olímpicos. Parecia algo corriqueiro, entretanto, alguma coisa disparou um alerta em minha já aguçada atenção. Ouvi a frase: “viciado em drogas pesadas”. EPA!!!!!!!!


Não reprimi meu interesse no que pudesse ser revelado por aquele jovem de voz clara, grave, que falava em tom baixo e pausado. A jornalista pediu ao entrevistado que falasse sobre o seu problema com as drogas. Num relato cheio de emoção foi dito que por 10 (dez) anos o maratonista se debatera entre drogas pesadas como cocaína, heroína, crack e a necessidade de largar o vício. Uma guerra, travada com os temperos da depressão, vergonha, ira, sensação de frustração, desespero. 


Um dia a decisão era deixar o vício, isso, quase sempre ao término da euforia, da liberação propiciada pela droga, na hora da ressaca moral e consequente observação da destruição continuada de seu corpo, no outro já havia esquecido o seu propósito. Às vezes a decisão durava apenas 1 (um) dia. Tudo recomeçava e aparentemente mais forte. Entretanto, a idéia de livrar-se do vício parecia tão persistente quanto à de permanecer nele. Assim, oscilando entre o céu e o inferno, numa crise de abstinência, o jovem simplesmente correu, correu, correu. Corria para preencher um vazio, uma angústia má conselheira e uma necessidade inadiável de drogar-se.


O que fazer com aquele corpo vazio, aquela mente divagando, aquele desejo cada vez mais crescente? Não havia receita válida, não havia placebos. Nada preenchia aquela lacuna. Mas, sem o interessado se dar conta a corrida começou a tomar espaço em sua vida, a restabelecer vínculos, a recuperar sua individualidade. O que era uma guerra tendia a tornar-se uma situação com um cenário mais positivo. Ainda não tinha entendido a dimensão do que estava acontecendo. Angustiava-se diariamente sob o peso da idéia de não resistir, recair e, novamente debater-se entre a vida e a morte.


Vagando, mas  já interessado pela corrida resolveu entrar numa palestra de uma instituição que se dizia anônima. Naquela ocasião se apercebeu, de algo que o tocou profundamente e deu novo contorno às suas dificuldades, a partir duma colocação levada à plateia. O expositor, que abordava dificuldades com drogas, asseverou aos presentes que “ cada batalha dura apenas 24:00 h”- a frase foi mais ou menos essa.
 Analisando e conjecturando consigo o então "corredor das ruas" passou a registrar sua necessidade de dizer diariamente não as drogas, ou seja: cada dia com sua resistência, uma  vitória em doses homeopáticas e comemorada a conta gotas, à semelhança do conhecido PHN - Por Hoje Não - significando por hoje não vou pecar mais. Assim cada dia de lucidez deixava a corrida mais interessante, a vida mostrava que o dia de ontem se fora, o dia de amanhã ainda não existe e HOJE É O DIA DA LUTA.

Confesso que chorei, para mim foi algo mágico. Pelo que vi e ouvi até aquele momento não encontrei nada que se assemelhasse a essa garra, esse chamado maravilhoso de um esporte individual, nesse doloroso universo de enfrentamento diário. Até o presente os resgates de que tenho notícia sempre estiveram profundamente ligados à Religião e/ou Família, ou ainda ao surgimento de um grande amor. 


Por questões éticas deixo de registrar o nome desse guerreiro do bem. O seu nome, o seu rosto não são indispensáveis; o que realmente tem que ser reverenciado é sua humildade aliada a sua incontestável força moral. Parabéns campeão. Sua medalha é uma vida digna onde você é alguém que se encontrou com a liberdade recusando todas as algemas, independentemente de belas, emocionantes e supostamente convidativas apresentações. 


Ainda não havia digerido o impacto da entrevista quando, num segundo momento me assustei ante uma reportagem que mostra, um de nossos vizinhos, como um  dos maiores produtores de maconha da América do Sul.  O Paraguai, que tem no Brasil seu mais forte aliado, seja pela facilidade de acesso na fronteira com o qual se limita a Sudoeste, seja pela receptividade dos traficante brasileiros.


A reportagem com a Polícia Federal e Funcionários Paraguaios, veiculada pelo Fantástico nesse Domingo, 23 de fevereiro, esclareceu, também, que o País limítrofe destina   80% (Oitenta por cento) de toda a droga ali produzida ao mercado brasileiro e, especificamente, à Brasília. Chocante, a Capital Brasileira por mais que acreditemos que não mais poderá nos surpreender, eis que, mais uma vez o  consegue. Além de palco para absurdas e degradantes situações políticas,  empunha a faixa de principal compradora da droga Paraguaia.



Mostra a matéria que numa ousadia a toda prova os traficantes Paraguaios plantam maconha, camufladas entre as árvores, também em fazendas particulares, impondo-se aos proprietários que não têm condição de enfrentamento para resistir a invasão de suas terras. Armados com armamentos modernos e de alto poder destrutivos submetem os produtores rurais. Assim, plantações gigantescas  com exemplares que chegam a 3 metros de altura são reiteradamente encontradas.  Muitas vezes cultivar a erva é a única ocupação remunerada na região, isso também facilita o apoio de pessoas que mesmo não tendo o perfil, aliam-se aos produtores ilegais pela sobrevivência.


A ONU - Organização das Nações Unidas declarou recentemente, baseada em documentos destinados a mapear a situação específica, que 9% da população adulta brasileira diz já ter tido contato com a droga, leia-se: usado maconha. Perdendo apenas para o México, país da América Latina que é o maior produtor de maconha das Américas, o Paraguai promove um efervescente comércio da drogas e tem levado a Polícia Federal Brasileira a trabalhar em conjunto com a Secretaria Nacional Anti Droga do Paraguai, realizando constantes investidas, prisões, queima de plantações e destruição da droga.


Cliente número um, do tráfico Paraguaio de maconha, o Brasil não se limita ao uso dessa droga. Considerada de menor potencial ofensivo que a cocaína, a heroína e o crack, tem sua maior  utilização nas classes média e de baixo poder aquisitivo.  Engana-se, porém, aqueles que acreditam ser inofensiva. É consenso entre os que fazem uso da maconha ser ela, uma porta aberta para drogas mais fortes, além de liberar as pessoas da censura  para reações pouco possíveis em situações de normalidade, nos momentos transitórios de satisfação psíquica. São comuns os relatos de violência, agressividade, prática de delitos sob os efeitos da droga.


Há um momento em que a erva não mais atende a necessidade do viciado e daí em diante, dependendo da condição financeira daquele, tornar-se-á um potencial e infeliz consumidor de cocaína ou de crack, adoecendo, empobrecendo, perdendo sua identidade, sua dignidade, sua vida,  enquanto os seus fornecedores enriquecem, andam com mulheres de todos os estilos possíveis, exibem jóias, ostentam carros importados, mansões, fazem turismo no exterior e se deliciam com tudo quanto o dinheiro, efetivamente, possa pagar. Pois é a filosofia de tais personagens é de que alguém tem que pagar o pato ou, simplesmente ser o Pato. 


O Brasil, também, tem enfrentado a chegada de novas drogas, ainda mais potentes que as conhecidas e que foram identificadas recentemente. A inclusão de 21 novas drogas na lista de substância proibidas ocorreu recentemente - Sexta-feira dia 21, com atraso, uma vez que algumas foram encontradas, pela primeira vez em nosso território, em Novembro do ano passado como é o caso de Metilona e 25INBO-me ou simplesmente 25I. Observa-se da primeira ocorrência até a definição de ilegalidade, o transcurso de aproximadamente 3 (três) meses. Desse modo, por questões burocráticas, a primeira apreensão das substâncias teve que ser desconsiderada, pois a ANS ainda não as classificara como drogas proibidas.


Difícil, triste, vergonhoso o quadro que infelizmente se desenrola sobre os nossos olhares que tomamos conhecimento através das mídias. Bandeira desenrolada em momentos de campanhas políticas, tensão social, visitas de autoridades estrangeiras, a questão das drogas, na maioria das vezes, recebe dos  gestores ações pontuais  de combate ao tráfico, de forma irresponsável e eleitoreira, enquanto famílias lidam com a perda de membros, desestruturação, desconfiança, dor e crescente desgraças.


Uma luz vermelha se acendeu, estamos na semana pré-carnavalesca. As drogas, a uma semana do carnaval, potencializam-se e exacerbam um problema tão velho quanto letal. Nossa fronteira terrestre tem uma extensão enorme que dificulta sobremaneira seu controle. Os aviões, as pistas clandestinas, as “mulas”, as fortunas resultantes do tráfico de drogas são uma realidade inegável,  um insulto e um terrível contraponto aos que batalham honestamente o pão de cada dia.


É preciso estabelecer normas.  Nessas horas mais que pais, mães, tios, avós, amigos, temos que nos tornar vigilantes observadores; críticos incansáveis no sentido de separar o joio do trigo. Não há como deixar passar aquele comportamento diferente, aquelas constantes mudanças de humor, o súbito medo de que alguém entre no quarto, a amizade nova, desconhecida, invariável e que parece ter tanta influência que afasta os demais. 



Não esqueçam, dinheiro não dá árvores. Se seu filho e sua filha não trabalham, é impossível ter dinheiro, comprar coisas e, também, não é saudável ganhar presentes o tempo todo. Olhe, veja, não tenha medo de confrontar-se com novidades desagradáveis. Enquanto são novidades podem ser, com amor, interesse e condutas adequadas, resolvidas com menor dor, menor sofrimento.



Pode ser carnaval, mas nem por isso alguém precisa tornar-se "PALHAÇO DAS PERDIDAS ILUSÕES". Não deixe que riam de você. Não se permita estragar a vida que você merece. Não há futuro nas drogas, não há Paz. Não há amor próprio, respeito, nada. Só existe a droga, o drogado e aqueles que ganham cada vez mais com a perdição dos outros.


Vencedores como o entrevistado da CBN representam tão pouco no universo das recuperações que se tornam estrelas solitárias porém não menos brilhantes. Reflitam: UM NÃO AS DROGAS MAIS QUE UM SIM À VIDA, É A CERTEZA DE VIDA.