Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

terça-feira, 28 de maio de 2013

HERÓIS OU BANDIDOS?





A CRUELDADE DO TEMPO.


A História Universal nos conta que através dos tempos a humanidade sempre teve inclinação para a construção de heróis. A Bíblia identifica personagens como Noé, Moisés, Davi, Sansão, Pedro, Paulo, João Batista e, também mulheres que se destacaram como Débora, Jael, Ester, Maria, Abigail e tantas outras. O traço comum dessas pessoas é ter colocado sua causa, a sua crença, acima de tudo e de todos, inclusive, de si mesmo, agindo estoicamente, sem deter-se ante os empecilhos.


A medida que o mundo foi evoluindo, o conceito de heroísmo se expandiu tomando visões diferenciadas; assim embora virtudes como a honestidade, a coragem, a ética, o equilíbrio, a busca e a prática  do bem, estejam presentes, como aspectos que tendem a ser um elo na construção de personalidades  heróicas , há sempre um catalisador que chama a atenção e repercute na história .




Assim o herói que abraçou uma religião, uma ideologia, a defesa de uma posição relevante para o momento histórico, apesar de festejado e reverenciado, por séculos, na velocidade ditada pela  atualidade, parece estar perdendo a simbologia que a simples menção de sua pessoa, de  seu nome,  acarretava.


É claro que nichos heróicos resistem ao desgaste do tempo, do natural distanciamento que a sociedade utiliza para sepultar atos, fatos e pessoas.  Aqueles que não mais conseguem traduzir uma densidade que os faça, indefinidamente, permanecer com o status que entrou para a história, vão perdendo a condição heróica e cada vez tornando-se vultos históricos desconhecidos ou apenas regionais. 


Adita-se ao natural despojamento da condição heróica, por falta de memória mesmo, as espoliações ditadas pelos donos da situação  e a ocasião que a sociedade atravessa. Houve um tempo em que personagens como Tiradentes, Ana Neri, Frei Caneca, José Bonifácio de Andrada e Silva, Pedro I, Anita Garibaldi, eram conhecidas, admiradas e havia toda uma preparação para que o heroísmo dessas pessoas fosse preservado. Todavia, ao que parece se volatizaram, perderam o elã.  São  estudados nas escolas, mas não se popularizam, não são personagens reconhecidas pelos jovens – que são donos do futuro.


Quem não preserva o passado, terá no futuro uma pálida idéia de suas origens, se a tiver. Entretanto, é comum  vermos tentativas de negar o passado, de tratar o que já ocorreu como se fosse um livro onde paginas foram escritas, não agradam aos leitores atuais e devem ser eliminadas.


Todos, de alguma forma, já ouviram falar em Adolf Hitler, racista e anti-semita, uma das criaturas mais repudiadas pela humanidade. O registro da morte de mais de 6.000.000 (seis milhões) de Judeus tornou o Presidente do Partido dos Trabalhadores Alemães – O Partido Nazista – mundialmente famoso. Todavia sua fama resultou da morte de judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, eslavos, poloneses, homossexuais, além do uso de seres humanos em experiências médicas e militares. Tudo em nome da etnia Ariana.


O autor do holocausto poderia ser unanimidade. Mas não o é. Em diversos momentos tive o desprazer de ouvir e ver atos em honra de Adolf Hitler. Igualmente, jovens, sem esperanças e sem qualquer senso de humanidade, insistem em ressuscitar o partido Nazista. Hitler tem que ser lembrado, do mesmo modo as atrocidades, crimes, dores, desenganos, tristezas e horrores por ele patrocinados, até mesmo para que não se permita o reaparecimento do vírus da loucura do Führer. A lembrança do genocídio poderá impedir sua repetição.


Personagens da História Universal como Joshep Stalin – que é apontado pela morte de mais de 20.000.00 (vinte milhões) de pessoas; Mao Zedog ou Mao Tsé-Tung, criador da política “Grande salto para a frente”, que é acusado de matar de fome mais de 70.000.000 (setenta milhões) de Chineses;  Kim II-Sung, feroz fundador da Coréia do Norte, por sua vez é incriminado pela morte, através da fome, de mais de 3.000.000. (três milhões) de coreanos; Idi Amin Dada, sedento de sangue, Presidente de Uganda, foi responsável pela morte de 500.000 (quinhentos mil) Ugandenses;  Saddam Hussein, identificado como genocida que causou a morte de mais de 200.000 (duzentos mil) curdos; na lista, ainda,  Moammar Gaddhafi e Kim Jong-II, igualmente tiranos, déspotas, assassinos violentos, incapazes de aceitar qualquer tipo de oposição, também encontram admiradores, defensores e quem justifique os seus atos.



Tais ditadores, invariavelmente cometeram crimes contra o seu povo. Mataram, estupraram, saquearam, despojaram pessoas de seus bens, de sua honra. Sob o mesmo manto, da ditadura ou da permanência no Poder, “por livre e espontânea pressão”, Fidel Castro que segundo a Anistia Internacional matou 86.587 (oitenta e seis mil, quinhentos e oitenta e sete) pessoas; bem como Hugo Chaves (recentemente falecido), são figuras emblemáticas e que “governaram” sob os auspícios da imposição, do terror e do mandonismo. Todavia também não existe unanimidade em relação a qualificá-los como heróis ou vilões, suponho ser grande o risco de qualquer tentativa de defini-los. É mais provável, ante a camaradagem do governo atual, que sejam reconhecidos como heróis mundiais. 


O Brasil titubeia entre preservar a memória e agradar o poder. Cresce, vertiginosamente, o plano para excluir do cotidiano brasileiro figuras até bem pouco tempo reverenciadas. Queremos apagar a História?  Vamos adotar a amnésia política?  Será uma boa idéia, não relembrar os fatos que antecedem as crises e suas consequências?


Comecemos, então, por Tiradentes. Horrível, magro, com os cabelos desgrenhados e a barba por fazer. Certamente não faz o tipo heroico atual. Conspirou contra os poderes estabelecidos. Não serve para herói nacional, pode influenciar negativamente.  Afinal a liberdade deve ser vigiada... E D. Pedro I,  que se opôs a Portugal e subverteu a ordem dando um terrível exemplo, proclamando uma pseudo Independência...  E D. Pedro II, tão circunspecto. Pois é, por sua total falta de desconfiança foi derrubado e substituído pela República, aí sim, a coisa realmente desandou, tem que ser retirada dos livros de História, uma página que não serve para nada. 


A primeira República (1889 a 1930) com seus erros foi capaz de produzir figuras que oscilaram entre alheamento e benesses. Por exemplo, Epitácio Pessoa, Paraibano, que, segundo publicações Paulistas, da época, “ para privilegiar o Nordeste” construiu mais de 200 (duzentos) açudes. Possivelmente pensavam os políticos de então que tais construções foram desnecessárias, é claro. Para tais pessoas no Nordeste chovia sempre. Pelo menos alguns pensavam assim. Talvez se considere fato histórico, na atual conjuntura: a chamada Greve Geral de 1917; a fundação do Partido Comunista Brasileiro; o surgimento dos movimentos sociais conhecidos como Contestados e Canudos;  a figura de Lampião; o  aumento  do voto de cabresto, o coronelismo e  a marcha da coluna Prestes. Tudo muito confuso e misturado, deverá  ser deletado da História?

 
Com Getúlio Vargas, encerra-se a primeira República. O assassinato de João Pessoa, o golpe de Estado que colocou Getúlio no poder, a Revolução de 1930, que lhe permitiu fazer marketing político, propaganda pessoal, culto a sua personalidade, além de revelá-lo simpatizante do nazismo, do fascismo e ter, em sua crescente ânsia pelo poder ter se tornado  ditador. Entretanto, ocorreu,  também, a outorga de direitos sociais aos trabalhadores, como a CLT e o salário mínimo, fatos que totalmente em consonância com a política atual valem a pena ser mantidos na memória nacional. 


O que se dizer então da segunda República que culminou em 1964 quando era Presidente João Goulart. Esse final de governo foi marcado por greves, inflação desordenada, desabastecimento, insegurança, invasões a propriedades rurais, crimes e medo. Mas, diante da atual contingência política a nos “guiar”, não sei, ainda, se esse período vai permanecer como bandeira de luta ou ser apagado de nossas "mentes". 


Quanto mais avança a história mais confusa vai se tornando a  nossa História. A revolução de 1964 produziu toda a sorte de mudanças possíveis e impossíveis, uma vez que regime de exceção é regime de suspensão de direitos. Muitos foram perseguidos, presos, torturados, mortos e “suicidados”. Alguns jamais conseguirão ter uma vida normal, outros buscaram ajuda profissional para poder conviver com o horror que habita em suas memórias, outros tornaram-se políticos profissionais, riquíssimos e ávidos por mais dinheiro e poder.


Em destaque figuras da política atual. Um conhecido como herói e que tornou-se sinônimo de delação, continua traindo e enganando de paletó e gravata; outro, cuja identidade era desconhecida de sua mulher e filhos, permanece em sua rotina, cada vez mais rico e aprontando; outro que consegue a fórmula mágica de fazer uma remuneração de um salário mínimo potencializar-se transformando-se num império financeiro, recusa-se, terminantemente a ensinar o pulo do gato aos beneficiários do bolsa família.  Que egoísmo? Mesmo assim continuam seguindo o que o mestre mandou fazer, muitos não ouvem, não falam e não vêem. 


Como em todo processo de transição política foram muitas as vítimas a cada vez que houve mudança significativa. Assim aconteceu quando trabalhada a idéia da Independência e da proclamação da República. Mesmo o inesperado Estado Novo, produziu suas vítimas. A segunda República e a Ditadura Militar, imolaram nos altares da vaidade, da intolerância, da cupidez humana, milhares de pessoas.  Os imolados nunca se restringiram a um lado, ambos perderam, vidas ceifadas não podem ser usadas como material de desforra. 


 
Cada grupo lutou por uma ideologia. Antagônicas, mas igualmente importante para seus defensores.  Escreveram páginas e páginas da História do Brasil. O fato dos partidos ditos de oposição, a época da revolução, terem assumido o Poder não lhes dá o condão de fazer sumir os 21 anos em que os militares estiveram no comando.


A campanha e a materialização de atos que importam em retirar de logradouros públicos os nomes ligados à revolução ou a outro segmento político, é tão truculento quanto pode ter sido a colocação desses. A diferença é que a retirada é atual e, portanto, suas consequências serão atuais. Apagar a História poderá cobrar caro a seus arquitetos. 


Imaginem vocês trocar nomes de locais que normalmente repetem-se pelo Brasil afora. Ruas Duque de Caxias, Marechal Deodoro da Fonseca, Almirante Barroso, Brigadeiro Eduardo Gomes, Castelo Branco, Ernesto Geisel, João Baptista Figueiredo, Emílio Garrastazu Medici, Arthur da Costa e Silva, Aurélio de Lira Tavares, Augusto Rademaker,  Márcio de Souza Melo, pode até não causar grandes transtornos em cidades maiores, porém em localidades onde as pessoas são mais simples, sem maiores informações o mínimo será a confusão nos já tão conhecidos endereços.


Homenagear figuras como Carlos Mariguella, Vladimir Herzog, Manoel Fiel Filho, João Amazonas, José Genoíno, José Dirceu, Apolônio de Carvalho, Zuleika Angel Jones, Hugo Chaves, os irmãos Castro e tantos outros que lutaram por seus ideais é uma opção que não se choca com a História, não exclui, não induz ao erro de governos totalitários que baniram livros, uso de certas palavras e expurgaram, artificialmente, figuras históricas. 




É muito tênue, em termos históricos, a linha que separa o herói do vilão.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

CONTRADIÇÕES



Não é muita contradição?


Registra a Wikipédia, a enciclopédia livre que: “...há contradição quando se afirma e se nega simultaneamente algo sobre a mesma coisa. O princípio da contradição informa que duas proposições  contraditórias não podem ter o mesmo valor de verdade. Dessa forma, ocorre uma contradição quando uma afirmação é falsa e a outra é verdadeira. Se forem ambas verdadeiras ou falsas, não existe contradição.” Ao longo da História da Humanidade a contradição sempre esteve presente em todos os aspectos da vida. 


A GRÉCIA legou à humanidade o conceito de Democracia: “ o governo do povo, pelo povo e para o povo.” Todavia, para o mundo grego, antes de Solon, apenas as pessoas livres, do sexo masculino, nascidos de pai e mãe Ateniense, acima de dezoito anos e que tivessem prestado serviço militar de dois anos, eram chamados de cidadãos e como tal sujeitos da democracia. Assim, não faziam parte da Democracia Grega as mulheres, os metecos e os escravos. Contraditoriamente a sociedade Grega era, a um só tempo, democrata, desigual e escravocrata.


NO EGITO, Cleópatra, a rainha, passou a história como uma devoradora de homens. Bela, sensual e que usava sua voluptuosidade para obter o que desejava. A Historiografia Universal demonstra a contradição existente na lenda. Cleópatra, não era bela, possuía um nariz fora de simetria com o seu rosto, os dentes apresentavam falhas; entretanto era dotada de grande inteligência, aspirava ao poder, era uma estrategista. Uma rainha regente que lutou pela independência de seu reino até a morte. A contrário senso da imagem de mulher dissoluta refletia e calculava todas as suas decisões, abrasando a oposição do masculino pelo feminino e instaurando o conflito entre ela e o romano Otávio. Cleópatra, portanto,  era feia, mas pensava como os homens de seu tempo, obtendo o que desejava não por sua beleza,  e sim por ser  inteligente.


O MITO DE SÍSIFO, invocado por Albert Camus introduzindo a Filosofia do Absurdo, já inicia com a contradição de um homem leviano e que se lança a procura de sentido, unicidade e nitidez, num mundo obscuro, ateu e absolutamente limitado. A interrogação de que será necessário o suicido para a realização do absurdo? O escritor responde: “Não. Exige revolta.” Abordando repetidamente o absurdo, Camus compara o absurdo da vida do homem ao mito grego de Sísifo – condenado a eternamente empurrar uma pedra de uma montanha até o cume e em seguida empurrá-la para baixo.  Atitude contraditória e absurda tanto quanto um ser vazio, frívolo, preocupar-se com razões existenciais.




No Brasil a contradição parece ter assumido uma posição ampla, confortável e sempre presente, senão vejamos: O DESCOBRIMENTO DO BRASIL já traz em
sua autoria uma contradição, no mínimo, curiosa. A História registra o navegador Português Pedro Álvares Cabral como o descobridor da nova terra que seria, posteriormente, o Brasil. Entretanto a Historiografia Brasileira, constantemente sinaliza a descoberta da mesma terra pelo Espanhol Vicente Yáñez Pinzón em Janeiro de 1500, quando alcançou à costa brasileira, tendo avistado um cabo que denominou como Santa Maria de La Consolacion, local cuja identificação atual é atribuída aos Cabos de Santo Agostinho, o Mucuripe, São Roque e o Cabo Branco. (Fonte Wikipédia, a enciclopédia livre e A História Geral do Brasil – Francisco Adolfo Varnhagen – 1854/ op. cit. p. Ronaldo Rogério de Souza Mourão).


Dando início as contradições oficiais, os livros de História do Brasil registram a chegada de Pedro Álvares Cabral como o navegador que escobriu o Brasil. Era na semana da Páscoa, no dia 22 de Abril de 1500, quando os portugueses alcançaram o que imaginaram ser uma ilha a que denominaram Ilha de Vera Cruz. Afinal, Espanhóis ou Portugueses, quem, descobriu o Brasil?



Ainda e como se não fosse suficiente, com base no famoso Testamento de Adão: “Tratado de Tordesilhas”, a descoberta foi transformada numa colônia portuguesa. Todavia tal fato não livrou o Brasil da contradição. O raciocínio lógico seria o de que os portugueses trazidos para a colônia e que constituísse a elite dos aqui instalados, recebessem de seu país de origem o apoio e incentivo necessários ao seu enriquecimento. O sucesso dos portugueses nas colônias, sob o ponto vista lógico seria o sucesso do colonizador, mas Portugal vedava terminantemente qualquer iniciativa de desenvolvimento que concorresse com as mercadorias adquiridas ao Reino. Assim, tudo permanecia como dantes no quartel de Abrantes.



Compactuando com os ditames da coroa, os ricos da colônia entravam em contradição, quando criavam formas de fugir ao pagamento de impostos e opor-se a fiscalização portuguesa o que gerou rebeliões, nessa época. Todavia, naquilo que lhes era confortável permaneciam silentes e obedientes.
Guindado a império a contradição ampliou-se de forma absurda. O Brasil era a um só tempo escravagista e libertário. Escravizava e fermentava a escravidão enquanto que por outro lado defendia a liberdade econômica. Os precursores das idéias abolicionistas sofreram violenta oposição e, via de conseqüência houve aumento no contrabando de seres humanos ou seja: enquanto crescia o sentimento abolicionista, duplicava o contrabando de pesoas escravizadas. Conviviam num mesmo espaço, a defesa da liberdade, a elevação da escravidão e do tráfico humano, a população livre com garantias do colonizador e que necessitava do escravo para poder ser sujeito de tais garantias e o escravizado, que era o último degrau de uma hieráquia social infame.



O império tinha no Imperador D. Pedro I a maior de suas contradições. Apelidado de O Libertador, O Rei Soldado, extremamente simples e habituado a trabalhos manuais. Imperador e separatista. Católico e Maçon.  Era um guerreiro que tocava flauta, piano, fagote, trombone, violino, violão, cravo etc. A personificação da contradição.




Patrocinador  de   escândalos sexuais, D. Pedro I teve   seu perfil  traçado   por
Heitor Lyra que o caracteriza como uma pessoa “de temperamento, era impulsivo. Volúvel até os extremos, era capaz dos maiores egoísmos e das mais largas generosidades. Tudo nele era incompleto: mal educado, mal guiado, mal aconselhado, faltou-lhe sempre o senso da medida. Mas, como todas as naturezas espontâneas, tinha um fundo de grande bondade.” Certamente a pessoa mais contraditória de seu império.




O Segundo Império com D. Pedro II revelou-se uma exceção. O monarca transformou o Império, sendo respeitado por intelectuais como Wagner, Nietzsche, Pasteaur, Darwin, entre outros.  Foi deposto num período em que gozava de alta aceitação, tendo vencido três conflitos internacionais: a Guerra da Prata, a Guerra do Uruguai e a Guerra do Paraguai. Após sua deposição o Brasil entrou em declínio. Para não fugir a regra das contradições, viu muitas de suas realizações que alavancaram o País, serem desfeitas, mas aqueles que tramaram sua queda logo se convenceram de suas qualidades e o viram como um modelo para a República. Alguns historiadores o consideram o maior dos Brasileiros.


 A Primeira República trouxe as facetas mais curiosas possíveis; o período da Ditadura Militar e o Governo de excessão constituem um intervalo singular, penoso e cuja abordagem erá feita em separado; o retorno da República, não modificou o jeito de ser brasileiro. Nada livrou o País da contradição. O brasileiro parece ter no seu sangue o DNA da incoerência.



Uma nação socialmente desigual, muito embora desde os mais remotos registros fale sobre liberdade, fraternidade, igualdade, solidariedade, amor e paz. A bem da verdade o que testemunhamos no Brasil e no mundo é um histórico de guerras fratricidas, mundiais, regionais ou mesmo as chamadas guerras urbanas, entre grupos, gangues rivais, aumentando, dia a dia as estatísticas de criminalidade.


Convivem na contradição do dia a dia, “desses Brasis”,  Ferrari,  Lamborghini, Ford K, Fiat Uno, Fuscas, motos BMW, Kawasaki, Scooter, Shineray, ônibus com pneus carecas, superlotados, bicicletas, carroças, animais. Tudo serve para transportar os cidadãos.  Igualmente, encontramos mansões e apartamentos de alto padrão, cujo luxo chama a atenção do mundo para o Brasil. Nesse sentido, de despertar o olhar mundial, temos também as palafitas, as favelas - alagadas ou não -, os casebres, abrigos de papelão, cercas de vara, ou simplesmente as calçadas, viadutos, becos e outros, que servem de endereço a milhares de Brasileiros.


Olhando o Brasil de agora temos a sensação de que a contradição só aumentou. Vive-se um período político onde o Poder é exercido por partidos historicamente pequenos, de oposição, representantes da “massa oprimida”. Iniciado que foi com a eleição de um ex-metalúrgico, contundente em seus pronunciamentos enquanto militante e que,  ainda candidato assumiu um discurso polido, reticente, passando a ser chamdo de Lulinha Paz e Amor.


Uma vez presidente, o oponente, carrasco da situação, ferrenho defensor do proletariado, rapidamente reiterou o caminho da contradição. Travestiu-se de político engomado, passou a usar frases de efeito, viajou muito – apesar de sempre ter criticado quem o fazia -, envolveu-se no maior escândalo político de todos os tempos da Nação Brasileira. Contraditoriamente, permaneceu blindado. À moda dos macaquinhos  de Nikko, nada ouviu, nada falou e nada viu, logo ele, tão atento, tão solto no falar e com uma visão  aquilina sempre direcionada a seus oponentes. Somente Rose poderia coroar tanta ingenuidade!


A Presidente, igualmente “camarada, militante, ex-guerrilheira”, abre mão de seu passado político com arranjos destinados a lhe garantir a reeleição e governabilidade, a exemplo da nomeação de Afif Domingues para Secretaria de Micro e Pequena Empresa o mesmo que, criticando o governo,  apelidou o PAC – a menina dos olhos de Dilma – de Plano de Abuso da Credulidade.



Na esteira da contradição não podemos olvidar a histórica condição beligerante da nossa Presidente e, do mesmo modo, não nos é permitido ignorar que o Cargo e suas consequências, liberaram-na da essência libertária que parecia ditar suas emoções.  Hoje a vemos fazer vista grossa a posição do STF quanto à criação de novos partidos...; a tentativa de controle da imprensa; a subordinação da mais alta corte brasileira, o STF, a maioria Congressista do Governo e, também, a mal fadada questão da restrição da capacidade investigativa do Ministério Público. Haja contradição para quem, acima de tudo, lutou pela liberdade de poder escolher sua conduta, sua direção política.


Só para finalizar é triste o registro da mais cruel contradição brasileira. Há uma negação generalizada à própria existência dês que cresce vertiginosamente o comércio de armas, o tráfico e que, os senhores da guerra urbana satisfazem todas as suas necessidades de sangue, luxo e orgias. Contraditoriamente, milhões de trabalhadores vivem subalimentados; crianças morrem de desnutrição; boa parte da população não tem acesso à tecnologia. A saúde, a educação a segurança, vitais à população, perdem espaço, importância e dotações para a Copa do Mundo, a reeleição da Presidente, a importação de médicos – qualificados ou não. Então gente, temos opção ou não? Somos o País do futebol ou da contradição?