Quem sou eu? O que faço

Minha foto
João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

CONTRADIÇÕES



Não é muita contradição?


Registra a Wikipédia, a enciclopédia livre que: “...há contradição quando se afirma e se nega simultaneamente algo sobre a mesma coisa. O princípio da contradição informa que duas proposições  contraditórias não podem ter o mesmo valor de verdade. Dessa forma, ocorre uma contradição quando uma afirmação é falsa e a outra é verdadeira. Se forem ambas verdadeiras ou falsas, não existe contradição.” Ao longo da História da Humanidade a contradição sempre esteve presente em todos os aspectos da vida. 


A GRÉCIA legou à humanidade o conceito de Democracia: “ o governo do povo, pelo povo e para o povo.” Todavia, para o mundo grego, antes de Solon, apenas as pessoas livres, do sexo masculino, nascidos de pai e mãe Ateniense, acima de dezoito anos e que tivessem prestado serviço militar de dois anos, eram chamados de cidadãos e como tal sujeitos da democracia. Assim, não faziam parte da Democracia Grega as mulheres, os metecos e os escravos. Contraditoriamente a sociedade Grega era, a um só tempo, democrata, desigual e escravocrata.


NO EGITO, Cleópatra, a rainha, passou a história como uma devoradora de homens. Bela, sensual e que usava sua voluptuosidade para obter o que desejava. A Historiografia Universal demonstra a contradição existente na lenda. Cleópatra, não era bela, possuía um nariz fora de simetria com o seu rosto, os dentes apresentavam falhas; entretanto era dotada de grande inteligência, aspirava ao poder, era uma estrategista. Uma rainha regente que lutou pela independência de seu reino até a morte. A contrário senso da imagem de mulher dissoluta refletia e calculava todas as suas decisões, abrasando a oposição do masculino pelo feminino e instaurando o conflito entre ela e o romano Otávio. Cleópatra, portanto,  era feia, mas pensava como os homens de seu tempo, obtendo o que desejava não por sua beleza,  e sim por ser  inteligente.


O MITO DE SÍSIFO, invocado por Albert Camus introduzindo a Filosofia do Absurdo, já inicia com a contradição de um homem leviano e que se lança a procura de sentido, unicidade e nitidez, num mundo obscuro, ateu e absolutamente limitado. A interrogação de que será necessário o suicido para a realização do absurdo? O escritor responde: “Não. Exige revolta.” Abordando repetidamente o absurdo, Camus compara o absurdo da vida do homem ao mito grego de Sísifo – condenado a eternamente empurrar uma pedra de uma montanha até o cume e em seguida empurrá-la para baixo.  Atitude contraditória e absurda tanto quanto um ser vazio, frívolo, preocupar-se com razões existenciais.




No Brasil a contradição parece ter assumido uma posição ampla, confortável e sempre presente, senão vejamos: O DESCOBRIMENTO DO BRASIL já traz em
sua autoria uma contradição, no mínimo, curiosa. A História registra o navegador Português Pedro Álvares Cabral como o descobridor da nova terra que seria, posteriormente, o Brasil. Entretanto a Historiografia Brasileira, constantemente sinaliza a descoberta da mesma terra pelo Espanhol Vicente Yáñez Pinzón em Janeiro de 1500, quando alcançou à costa brasileira, tendo avistado um cabo que denominou como Santa Maria de La Consolacion, local cuja identificação atual é atribuída aos Cabos de Santo Agostinho, o Mucuripe, São Roque e o Cabo Branco. (Fonte Wikipédia, a enciclopédia livre e A História Geral do Brasil – Francisco Adolfo Varnhagen – 1854/ op. cit. p. Ronaldo Rogério de Souza Mourão).


Dando início as contradições oficiais, os livros de História do Brasil registram a chegada de Pedro Álvares Cabral como o navegador que escobriu o Brasil. Era na semana da Páscoa, no dia 22 de Abril de 1500, quando os portugueses alcançaram o que imaginaram ser uma ilha a que denominaram Ilha de Vera Cruz. Afinal, Espanhóis ou Portugueses, quem, descobriu o Brasil?



Ainda e como se não fosse suficiente, com base no famoso Testamento de Adão: “Tratado de Tordesilhas”, a descoberta foi transformada numa colônia portuguesa. Todavia tal fato não livrou o Brasil da contradição. O raciocínio lógico seria o de que os portugueses trazidos para a colônia e que constituísse a elite dos aqui instalados, recebessem de seu país de origem o apoio e incentivo necessários ao seu enriquecimento. O sucesso dos portugueses nas colônias, sob o ponto vista lógico seria o sucesso do colonizador, mas Portugal vedava terminantemente qualquer iniciativa de desenvolvimento que concorresse com as mercadorias adquiridas ao Reino. Assim, tudo permanecia como dantes no quartel de Abrantes.



Compactuando com os ditames da coroa, os ricos da colônia entravam em contradição, quando criavam formas de fugir ao pagamento de impostos e opor-se a fiscalização portuguesa o que gerou rebeliões, nessa época. Todavia, naquilo que lhes era confortável permaneciam silentes e obedientes.
Guindado a império a contradição ampliou-se de forma absurda. O Brasil era a um só tempo escravagista e libertário. Escravizava e fermentava a escravidão enquanto que por outro lado defendia a liberdade econômica. Os precursores das idéias abolicionistas sofreram violenta oposição e, via de conseqüência houve aumento no contrabando de seres humanos ou seja: enquanto crescia o sentimento abolicionista, duplicava o contrabando de pesoas escravizadas. Conviviam num mesmo espaço, a defesa da liberdade, a elevação da escravidão e do tráfico humano, a população livre com garantias do colonizador e que necessitava do escravo para poder ser sujeito de tais garantias e o escravizado, que era o último degrau de uma hieráquia social infame.



O império tinha no Imperador D. Pedro I a maior de suas contradições. Apelidado de O Libertador, O Rei Soldado, extremamente simples e habituado a trabalhos manuais. Imperador e separatista. Católico e Maçon.  Era um guerreiro que tocava flauta, piano, fagote, trombone, violino, violão, cravo etc. A personificação da contradição.




Patrocinador  de   escândalos sexuais, D. Pedro I teve   seu perfil  traçado   por
Heitor Lyra que o caracteriza como uma pessoa “de temperamento, era impulsivo. Volúvel até os extremos, era capaz dos maiores egoísmos e das mais largas generosidades. Tudo nele era incompleto: mal educado, mal guiado, mal aconselhado, faltou-lhe sempre o senso da medida. Mas, como todas as naturezas espontâneas, tinha um fundo de grande bondade.” Certamente a pessoa mais contraditória de seu império.




O Segundo Império com D. Pedro II revelou-se uma exceção. O monarca transformou o Império, sendo respeitado por intelectuais como Wagner, Nietzsche, Pasteaur, Darwin, entre outros.  Foi deposto num período em que gozava de alta aceitação, tendo vencido três conflitos internacionais: a Guerra da Prata, a Guerra do Uruguai e a Guerra do Paraguai. Após sua deposição o Brasil entrou em declínio. Para não fugir a regra das contradições, viu muitas de suas realizações que alavancaram o País, serem desfeitas, mas aqueles que tramaram sua queda logo se convenceram de suas qualidades e o viram como um modelo para a República. Alguns historiadores o consideram o maior dos Brasileiros.


 A Primeira República trouxe as facetas mais curiosas possíveis; o período da Ditadura Militar e o Governo de excessão constituem um intervalo singular, penoso e cuja abordagem erá feita em separado; o retorno da República, não modificou o jeito de ser brasileiro. Nada livrou o País da contradição. O brasileiro parece ter no seu sangue o DNA da incoerência.



Uma nação socialmente desigual, muito embora desde os mais remotos registros fale sobre liberdade, fraternidade, igualdade, solidariedade, amor e paz. A bem da verdade o que testemunhamos no Brasil e no mundo é um histórico de guerras fratricidas, mundiais, regionais ou mesmo as chamadas guerras urbanas, entre grupos, gangues rivais, aumentando, dia a dia as estatísticas de criminalidade.


Convivem na contradição do dia a dia, “desses Brasis”,  Ferrari,  Lamborghini, Ford K, Fiat Uno, Fuscas, motos BMW, Kawasaki, Scooter, Shineray, ônibus com pneus carecas, superlotados, bicicletas, carroças, animais. Tudo serve para transportar os cidadãos.  Igualmente, encontramos mansões e apartamentos de alto padrão, cujo luxo chama a atenção do mundo para o Brasil. Nesse sentido, de despertar o olhar mundial, temos também as palafitas, as favelas - alagadas ou não -, os casebres, abrigos de papelão, cercas de vara, ou simplesmente as calçadas, viadutos, becos e outros, que servem de endereço a milhares de Brasileiros.


Olhando o Brasil de agora temos a sensação de que a contradição só aumentou. Vive-se um período político onde o Poder é exercido por partidos historicamente pequenos, de oposição, representantes da “massa oprimida”. Iniciado que foi com a eleição de um ex-metalúrgico, contundente em seus pronunciamentos enquanto militante e que,  ainda candidato assumiu um discurso polido, reticente, passando a ser chamdo de Lulinha Paz e Amor.


Uma vez presidente, o oponente, carrasco da situação, ferrenho defensor do proletariado, rapidamente reiterou o caminho da contradição. Travestiu-se de político engomado, passou a usar frases de efeito, viajou muito – apesar de sempre ter criticado quem o fazia -, envolveu-se no maior escândalo político de todos os tempos da Nação Brasileira. Contraditoriamente, permaneceu blindado. À moda dos macaquinhos  de Nikko, nada ouviu, nada falou e nada viu, logo ele, tão atento, tão solto no falar e com uma visão  aquilina sempre direcionada a seus oponentes. Somente Rose poderia coroar tanta ingenuidade!


A Presidente, igualmente “camarada, militante, ex-guerrilheira”, abre mão de seu passado político com arranjos destinados a lhe garantir a reeleição e governabilidade, a exemplo da nomeação de Afif Domingues para Secretaria de Micro e Pequena Empresa o mesmo que, criticando o governo,  apelidou o PAC – a menina dos olhos de Dilma – de Plano de Abuso da Credulidade.



Na esteira da contradição não podemos olvidar a histórica condição beligerante da nossa Presidente e, do mesmo modo, não nos é permitido ignorar que o Cargo e suas consequências, liberaram-na da essência libertária que parecia ditar suas emoções.  Hoje a vemos fazer vista grossa a posição do STF quanto à criação de novos partidos...; a tentativa de controle da imprensa; a subordinação da mais alta corte brasileira, o STF, a maioria Congressista do Governo e, também, a mal fadada questão da restrição da capacidade investigativa do Ministério Público. Haja contradição para quem, acima de tudo, lutou pela liberdade de poder escolher sua conduta, sua direção política.


Só para finalizar é triste o registro da mais cruel contradição brasileira. Há uma negação generalizada à própria existência dês que cresce vertiginosamente o comércio de armas, o tráfico e que, os senhores da guerra urbana satisfazem todas as suas necessidades de sangue, luxo e orgias. Contraditoriamente, milhões de trabalhadores vivem subalimentados; crianças morrem de desnutrição; boa parte da população não tem acesso à tecnologia. A saúde, a educação a segurança, vitais à população, perdem espaço, importância e dotações para a Copa do Mundo, a reeleição da Presidente, a importação de médicos – qualificados ou não. Então gente, temos opção ou não? Somos o País do futebol ou da contradição?

domingo, 5 de maio de 2013

“ A ESPERA DE UM MILAGRE”

POR QUE?




Estou, literalmente, a espera de um milagre. Não aquele que torne tudo ao meu redor exatamente como eu quero ou gosto. Também, com a Graça de Deus, não é nada que diga respeito à saúde. Estamos bem, dentro de nossas respectivas idades. O contexto é outro. A necessidade bem diferente. Mas, isso não a torna menos considerável, ao contrário, urge. O tempo passa e as coisas só tendem a crescer.



Somos um se considerarmos o mandamento cristão de que que somos todos irmãos, descendemos DE UM SÓ CRIADOR e o que  fizermos, de bem ou de mal,  a qualquer de nossos irmãos, fazemos a nós mesmos enquanto minúscula parcela da humanidade, do Universo. Os nossos atos ecoam não só em nossas vidas, mas e também no existir.


Entretanto, é necessário lembrar que foi dado ao ser humano o livre arbítrio. Aquele distintivo que nós faz livres no pensar e no agir segundo as nossas convicções, a nossa ética. A escolha é da cada um, o respeito, a consideração, a capacidade de tolerância com e para o semelhante, próximo ou não, parente, “aderente” ou mero conhecido, qualquer opção deve ocorrer de forma pessoal e com assunção de total responsabilidade. 


Já coloquei nesse blog, em texto anterior, sob o título “A INDIVIDUALIDADE DOS SONHOS”, o seguinte: “E os casais? O seu sonho pode ser o dele. O sonho dele pode ser o seu. MAS, O SEU SONHO NÃO TEM QUE SER O SONHO DO SEU AMADO E VICE VERSA. O casal pode sonhar junto. Mais que uma coincidência tal acontecimento é a certeza de que um completa o desejo do outro e um representa para o outro a convivência/parceria que não deseja perder.”



Igualmente, na mesma postagem, fiz a seguinte observação: “Acreditem, são muitos os aspectos que ameaçam os sonhos. O excesso de ambição de um, a apatia, a ausência de projetos do outro ou mesmo a existência de um plano incompatível com os desejos do outro; as pressões familiares e sociais que cercam as pessoas; a ausência de diálogos e a temível oração do eu sozinho: eu quero, eu decido, eu faço, sugerindo: você não conta, não tem vontade, só acompanha.”



Pois é. Vemos todos os dias pessoas queridas, que não só convivem, mas vivem bem, com respeito mútuo e apreço. Todavia, mesmo com esses cuidados, preciosos numa relação, numa amizade, há situações de imposição. Pode ser que aquela pessoa que exige não se dê conta do quão é importante para a outra manter viva aquela idéia,  conservar o simbolismo e as lembranças de luta, de crescimento, de alegria, de companheirismo, de momentos cruciais na vida do outro. 


Ainda que se fale muito em amor, emoção, compreensão, na vida prática não há muito a se esperar de adultos além da racionalidade agregada à educação na condução de suas vontades. Os nossos desejos, por serem diferentes dos de outras pessoas não são, obrigatoriamente, contrários. Não têm que colidir com anseios diferentes. Entretanto o desencontro de aspirações tem produzido muitas arestas entre casais.


É uma impropriedade afirmar que o Direito de um começa onde o do outro termina. Os direitos convivem e se completam. Os indivíduos, porém, muitas vezes os desvirtuam e os conduzem sob uma ótica pessoal e inegociável. O litígio, quase sempre, nasce da ausência do direito de uma das partes, de seu equívoco, o que obriga a quem detém a legitimidade agir no sentido de se resguardar.



O pacto, o entendimento, cresce à medida que os indivíduos raciocinam olhando verdadeiramente o outro, fazendo memória de suas decisões em situações semelhantes. Lembrar que o outro também fez e faz concessões. Não se deprecia aquele que percebe uma atitude controversa e sabe recuar. Ao contrário, pode significar crescimento, amadurecimento, mostrar as necessidade e adequações que a vida passa a exigir, em resumo: “Mutatis Mutandis.” Mudar o que deve ser mudado.




Por mais próximos que sejam as pessoas não há como saber o grau de sacrifício, os embates, o que as conquistas diárias significaram e significam para o outro? Pode até ser que em relação a si e ao companheiro algumas pessoas decidam de forma totalmente diversa da que “decidiram”, em questão semelhante, quando, noutra oportunidade,  necessitavam preservar alguém. Ainda que o façam automaticamente, num nível de inconsciência que, inclusive, determina a negação  da atitude.



É, sempre afirmo que nós não vimos ao mundo para fazer graça. Se observarmos com atenção e dispusermos de tempo e coragem para investigar, veremos que mesmo os palhaços, em grande maioria têm uma história triste e quando não, sua pintura que mostra um riso escancarado revela, nos traços dos lábios, quase sempre, um contorno que denota tristeza.


No meu dia a dia, quando tudo parece dar errado, quando  o mundo parece conspirar contra nós, o exemplo que sempre cito é o das hienas: são horrorosas, manquejam, se alimentam de restos, só fazem sexo uma vez por ano e mesmo assim vivem  “gargalhando”. Não se sabe de quem riem. Se delas mesmas ou se daqueles que, com ou sem vida, se tornam seu alimento. 


O que nos redime, em primeiro momento, é a nossa FÉ. A certeza da PROVIDÊNCIA DIVINA. Esperar um milagre é quase que diário em nossas vidas. Todos aguardam o seu milagre particular. É sempre produtivo. Alimenta a nossa Crença, mantêm a esperança e não nós deixa cair na terrível armadilha da depressão. A humanidade acostumou-se a tal acontecimento. Sou mais uma e espero o meu milagre.

sábado, 27 de abril de 2013

FILHOS SEPARADOS

ALIENAÇÃO PARENTAL II


Tratei aqui no blog, em fevereiro desse ano, da ALIENAÇÃO PARIENTAL, crime tipificado na Lei 12.318, de 26 de agosto de 2010, que o define, aponta  seus possíveis autores e as formas práticas do delito. Todavia por mais abrangente que seja a legislação, os danos causados quer no terreno físico, psíquico e, também, espiritual, são alcançados apenas por suas maiores vítimas: crianças, pais, mães e familiares que submetidos a tal crueldade, sofrem as consequências da expoliação no seu patrimônio afetivo.


Chamei a atenção para o que os especialistas chamam de “Síndrome da Alienação Parental”, revelada de diversas maneiras. Enfatizei os casos de depressão, incapacidade de adaptação a ambientes psico-sociais normais, transtornos de identidade e de imagem, desespero, sentimento incontrolável de culpa, sentimento de isolamento, comportamento hostil, falta de organização, dupla personalidade, até suicídios em casos extremos. Identificando a  fonte “curso lex.com.br/doutrina_23916734”, citei que estudos demonstram que  o adulto, vítima de             Alienação Parental tem inclinação para o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de drogas e apresentam outros sintomas  de profundo mau –estar.


Entretanto hoje pretendo falar sobre a ALIENAÇÃO PARENTAL INSTITUCIONALIZADA, praticada pelo Estado Brasileiro, durante anos a fio. Infelizmente não existe apenas uma vertente dessa práxis, entretanto, agora, quero referir-me a apenas uma delas: a praticada contra filhos de pessoas atingidas pelo “Mal de Hansen”, vulgar e/ou institucionalmente, conhecido, até a década de 70, como Lepra.


A partir de relatos Bíblicos a Hanseníase é exposta como um mal de natureza punitiva, “degradante e desonrosa”, que provocava, ao mesmo tempo, medo, asco, aversão, tendo em vista a aparência dos doentes que não recebiam tratamento, suas ulcerações, deformidades com a perda de membros, nariz, visão; suas aparências deploráveis, cobertos de andrajos, com sinetas presas aos tornozelos, representavam o que havia de mais turvo na existência humana.  Tudo concorria para torná-los, aos olhos da sociedade, “indignos” do convívio com os “normais”. Inicialmente encurralados em verdadeiros guetos. Posteriormente isolados e detidos como se fossem criminosos, condenados à prisão perpétua.  Vítimados duplamente, sofriam as dores decorrentes da enfermidade e as dores morais causadas pelo isolamento, deprezo e preconceito.


A situação de isolamento compulsório, no “Brasil”, perdurou por quarenta anos, desde a decada de 20 até a década de 60, quando foi  editado o Decreto 968, datado de 7 de Maio de 1962. Entretanto e como toda legislação nova, o seu cumprimento, não foi de imediato e variou de Estado a Estado. São Paulo, por exemplo, só no ano de 1967 é que aboliu o internamento nos chamados leprosários. (Fonte: Laurinda Maciel, A hanseníase ao longo da Hisória - Agência Fiocruz de Notícias).


Essa prática, do internamento compulsório, resultou inócua na prevenção de novos casos. O que, possivelmente, pode ter gerado a construção monstruosa de um tripé – três segmentos buscando combater uma mesma doença – ocasião em que, mais uma vez, se deixou ao largo a busca científica, a descoberta de novas terapias e se investiu no que constituiu uma das mais terríveis formas de segregação.




Foi executado a partir de 1930, o que se pensou como controle epidemiológico da doença, qual seja: a internação compulsória do doente, do noticiante e dos filhos daqueles que eram diagnosticados. A ruptura tornara-se tão intensa quanto o era o preconceito. O hanseniano era “confinado” nos Leprosários; o familiar que o levara era mantido nos Dispensários para exames pró-diagnose e os filhos, sadios, eram amontoados nos chamados Preventórios.


Há muito que se falar desse período negro para a Saúde no Brasil.  Entretanto, a nossa meta é a terrível separação imposta as crianças geradas dentro de Hospitais Colônias ou por que seus genitores foram  acometidos  da doença. Para elas, crianças, muitas vezes recusadas por familiares, o Estado criou os Preventórios ou Educandários. Naqueles locais tornavam-se prisioneiras do sistema vigente. Inclusive, a maioria dos funcionários e pessoas dos arredores das Colônias incutiam, em sua mentes rudes,  que os filhos sadios dos Lázaros, como também eram chamados,  traziam dentro de si, de forma congênita, uma deformação moral.


O Governo Brasileiro, como acontecia noutras partes do mundo, buscava, oficialmente,  impedir o contágio, que poderia ocorrer para a criança exposta ao agente causador da doença. Havia, inclusive,  de forma potencializada, a idéia de que, por ser filho de pessoa atingida pela hanseníase a criança poderia ter a doença com base na hereditariedade. Os filhos eram separados. Os familiares humilhados e constantemente submetidos a exames que expunham a sua intimidade.


A separação dos filhos recém-nascidos somam-se as dos irmãos, que muitas vezes eram transferidos de um preventório para outro; dos adotados, daqueles dados como mortos – sem que as mães pudessem ver o cadáver de seu filho e, ainda, os que simplesmente desapareceram sem que fossem dadas explicações convincentes. Para essas crianças havia a certeza de vidas cheias de angústias, dores, injustiças e maus tratos.



Vindas de todas as partes do Brasil, multiplicam-se as histórias de filhos separados cujo traço característico é a dor, o sofrimento. Relatos de agressões físicas, estupros, castigos degradantes, vendas de crianças, abandono. Não se pode aferir com exatidão o alcance, na formação de uma criança, de abusos constantes, de desqualificação de seus pais, da negação a uma vida onde pudessem olhar, com esperança, seu  futuro. 




A existência confinada nos preventórios, o afastamento do lar e dos entes queridos, o dia a dia de centenas de crianças se desenvolvendo em meio a um instrumento de controle ditado por um entendimento equivocado, aonde a violência e a arbitrariedade eram justificadas pela pseudo-ação profilática do Estado, gerou, entre outras dores, uma população sem identidade, sem a certeza de suas origens.  


A Alienação Parental, sob esse foco – “da separação profilática” – foi bem maior do que se possa imaginar. O Estado Brasileiro, com um aparato público despreparado e arbitrário, comandou, nas décadas de trinta a sessenta, a violência de uma política que marginalizou e estigmatizou, marcando por toda a vida os filhos separados, diminuindo suas oportunidades, restringindo suas opções, levando-os a baixa estima e a desenvolver sintomas típicos de vidas desfeitas, laços abruptamente rompidos, incertezas, perda da identidade.


Não há dúvidas. A questão não se cingia a supressão da liberdade. Não era suficiente “deter”, tolher os movimentos impedindo idas e vindas. Havia uma política voltada a demonstrar "a existência de pessoas de segunda classe", criaturas diuturnamente desclassificadas, fossem os compulsoriamente internados ou as crianças de preventórios, sempre identificadas como filhos de leprosos e que, em muitas instituições de ensino, recebiam, à margem de seus nomes, nas cadernetas escolares, uma observação que os identificava, pejorativamente, tais como: filho de leproso; morador do preventório; filho de Lázaro...


A Alienação Parental mata sentimentos, produz dor, revolta, induz ao erro e violenta pessoas. Os filhos separados em Preventórios, em Lares Diversos de suas origens, dados para Adoção ou de qualquer forma alijados do seio de suas mães, do beijo de seus pais, privados  de descobrir o mundo ao lado de irmãos e que sofreram carências de toda a ordem, não podem ser vistos como se tivessem vivido suas vidas ao lado dos seus. Urge providências que respondam ao eco de seus lamentos, de suas dores. O Estado alienante precisa tornar-se o Estado da reinserção, aquele que promove e resgata a cidadania, que devolve esperanças e reúne famílias.




Nesse contexto o MORHAN – MOVIMENTO DE REINTEGRAÇÃO DAS PESSOAS ATINGIDAS PELA HANSENÍASE, abre sua nova frente de batalha. Motivado a buscar e possibilitar o reencontro de pessoas que foram separadas de seus familiares no período do isolamento compulsório, vem,  investindo em planos e ações mobilizadoras que levem o Estado Brasileiro a declarar Direitos dos filhos que foram separados de seus pais, o que, impreterivelmente, impõe a identificação dos beneficiários.



Unidos por um sentimento motivador, visando reencontrar pessoas, reuni-las sob um tronco comum, garantir-lhes o resgate de suas cidadanias, o XIV Encontro Nacional do MORHAN, em fevereiro próximo-passado,  produziu sua Carta de Manifesto onde, entre outras, expressa, pública e coletivamente, “ a separação de filhos e a necessidade do Estado Brasileiro reconhecê-los e indenizá-los  como vítimas de Alienação Parental”.


A HORA É DE MOBILIZAÇÃO.  REPARAÇÃO  PARA OS FILHOS SEPARADOS.