Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O AMOR DE DEUS


O SIM DE MARIA!

É chegado o NATAL. A nós cristãos é hora de rememorar. Nos voltarmos para o DEUS CRIADOR, que sinaliza o seu amor nos enviando a sua Luz. Materializando promessas  das Sagradas Escrituras,  manda, à frente do menino Jesus, um brilho que se faz ver por todo o  Oriente. É a estrela guia. Aquela que foi seguida pelos Magos que vieram para adorar o Salvador. JESUS, presente do PAI para o mundo.



Diferentemente da lógica humana o projeto de DEUS para os homens não prioriza a racionalidade. Faz nascer o Verbo Encarnado através de uma virgem, da casa de Davi, porém,  de  condição  humilde - uma jovem crédula, esposa e não mulher de um carpinteiro piedoso - , crente e zeloso das coisas do alto. 

As profecias começam a acontecer:  O  anjo do Senhor anuncia a Maria:



“O anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma jovem, prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de David. O nome da jovem era Maria. Entrando onde ela estava, o anjo disse-lhe:
- Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!
Ao ouvir as palavras, ela perturbou-se e reflectia no que poderia significar a saudação.
Mas o anjo continuou:
– Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!
Eis que conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus lhe dará o trono de David, seu pai. Ele reinará na casa de Jacob pelos séculos e seu reino não terá fim.
Maria perguntou ao anjo:
– Como acontecerá isso, pois não conheço homem?
Em resposta o anjo disse-lhe:
– O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; é por isso que o menino santo  vai nascer.
  Eis aqui a serva do Senhor. Aconteça comigo segundo tua palavra!
E conclui:
E o anjo afastou-se dela.
será chamado Filho de Deus.”
COM O SIM DE MARIA!




Surge o Magnificat

A minha alma glorifica o Senhor *
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva: *
De hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: *
Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração *
Sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço *
E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos *
E exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens *
E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo, *
Lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais, *
A Abraão e à sua descendência para sempre

Glória ao Pai e ao Filho *
E ao Espírito Santo,
Como era no princípio, *
Agora e sempre. Amem.

MARIA, estrela que Deus colocou à frente de outra para ser modelo de mulher, mãe, ouvinte e intercessora de todas as horas.


O mistério da Encarnação começava a se materializar, nele a figura masculina de JOSÉ “O carpinteiro, homem justo e fiel. Ouviu a voz do Pai : “José, filho de Davi, não tenhas cuidado em admitir Maria, tua esposa, em tua companhia. Saberás que o que foi concebido em seu ventre é fruto do Espírito Santo. Dará, então, à luz um filho, a quem tu porás o nome de Jesus. Ele apascentará os povos com o cajado de ferro. Dito isso, o anjo desapareceu. José, voltando do sono, cumpriu o que lhe havia sido ordenado, admitindo Maria consigo, e acolheu a mãe de Deus Protegendo e educando o menino Deus.”


As promessas estavam tomando forma, BELÉM, uma dentre as menores, foi a cidade escolhida por Deus para acolher o Messias.  As profecias  já registravam que em Belém havia de nascer o que governaria Israel: - “ Mas tu, Belém de Efrata, tão pequena para seres contada entre as famílias de Judá. É de ti que há-de sair Aquele que governará em Israel. (*Miq. 5/1).” * Profeta Miquéias.


Para a glória de DEUS e redenção dos homens, nasce o menino JESUS.  Aparece nos céus à estrela que sinaliza a sua presença e enche de alegria os Reis Orientais que conheciam o oráculo do Senhor. Os monarcas buscavam o Rei dos reis para adorá-lo, ouviram as enganosas palavras de Herodes, acharam o recém-nascido, Maria sua mãe e José, prostraram-se diante DELE adorando-o. Apresentaram-lhe os presentes trazidos: ouro, incenso e mirra.  Após adorá-lo partiram para sua terra evitando o caminho antes percorrido , enganando, assim,  o rei Herodes.


É tempo de concretização de promessas repetidas. O anunciado Messias, aquele que resgataria o homem da vida de pecado para a salvação, promessa vaticinada desde o Gênese, cantada nos Salmos, reiterada pelos profetas, Isaías, Miquéias e Zacarias e, também revelada através de Mateus, João, Lucas e Marcos, os evangelistas que trouxeram a boa nova: finalmente está entre nós o Cordeiro de Deus, enviado para ensinar, com a sua essência Divina, o camiho  da Graça, do Perdão e da Misericórdia.

Pilares de fé e esperança fundem-se numa única palavra: AMOR. O verdadeiro espírito do Natal, a justificativa da Natividade de Maria. O NATAL do Pai nos faz REFLETIR como DEUS manifesta o seu amor por nós. É tempo de Graça, de grandes esperanças nos corações e nas mentes pelo nascimento do MENINO JESUS, O PRÍNCIPE DA PAZ.




Mais uma vez a natividade. Paira sobre grande parte da humanidade  um misto de fé, esperança, caridade. Há  alegria pela experiência de  tais sentimentos.  DEUS, em sua infinita benevolência se dispõe a nos redimir através de Jesus. Reveste-se de humanidade, mostra  a verdadeira solidariedade sem qualquer exigência de retorno. Doa-se em nome de um sentimento único, espontâneo e ilimitado por cada ser humano: O AMOR.

Nesse NATAL que o Menino Deus atue sobre todos nós para que  possamos trocar tudo aquilo que nos magoa, entristece, envergonha,  irrita, constrange por sentimentos bons, orações e braços abertos, não no sentido de nos vermos como magnânimos e sim para acolher e abraçar tantos quantos sejam guiados até  nos pelo ANIVERSARIANTE!  




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

DESPREZO AO SEXO!

CHOQUE!
             Acredito que, entre outra coisa, o bom senso é algo a ser utilizado em qualquer faceta da vida humana e, invariavelmente, resulta em ganho à convivência das pessoas, isso até mesmo sem que se examine a questão da aprendizagem que provêm de tais direcionamentos.


             A interpretação de fatos e atos comuns  pertence a cada um dos que integram a ação ou apenas a observam. Aprendi que a mais simples das explicações acerca de algo é a literalidade da coisa. Ao ler um texto, o mais simples é apreender o sentido das palavras e do conjunto, a literalidade do que está escrito.  Se é um fato, a príncipio e a forma mais natural é ver o quadro que se desenrola diante dos olhos sem buscar outros significados. É por assim dizer, uma visão reta, sem entrelinhas, sem atalhos.


             Pois é, hoje quero abordar a questão da sexualidade. Não a opção exercida por adultos que têm o direito de livre escolha, de exercer a sua preferência, o seu comando íntimo. Falo de algo mais emocional, algo que influi deformando a natureza dos seres.

             Li e não acreditei. Numa publicação da revista Veja, datada de 19 de dezembro de 2012, às folhas 92, 94 e 96, há uma matéria que registra inovação nas propagandas das filiais das lojas de brinquedo Touys ”R”Us e BR Toys, no que tange a confecção dos novos catálogos destinados a época de Natal.

            
              Seguindo  “uma orientação da Swedish Advertising Ombudsman, uma das organizações que regulam a propaganda na Suécia", nos anúncios destinados a venda de brinquedos, naquelas especializadas, as crianças foram fotografadas de forma inversa ao que tradicionalmente ocorre em tais ocasiões. 


             Vê-se sob o título “EDUCADOS NO SEXO NEUTRO”, fotografias de crianças, de ambos os sexos, onde o menino, passa roupa usando um ferro cor de rosa, sob uma mesa de passar também cor de rosa;  uma menina faz pose usando uma metralhadora. Normalmente tais brinquedos estariam nas mãos inversas. A criança do sexo masculino com a arma e a do sexo feminino com os costumeiros instrumentos á moda das donas de casa. Inclusive, há o registro de que no impresso promocional " as fotos mostram as meninas com carrinhos e armas de mentira e meninos se divertindo com bonecas e utensílios domésticos...".


             Sob o argumento de que foram inúmeras as reclamações da propaganda conservadora praticada pelas lojas, o órgão orientou que se adotasse uma visão “ de uma corrente pedagógica que defende a tese de que meninos e meninas devem ser criados da mesma forma”. Leia-se criação sem observação, distinção do sexo das crianças. Isenção de Gênero.
      
             Pois é, me defino como uma pessoa simples. Sem o verniz dos intelectuais. Sem o conhecimento dos Mestres. Sem a petulância e a certeza dos “donos da verdade” que encontramos no nosso dia a dia. Me vejo como uma amante da natureza, acredito que deixá-la seguir o seu curso é uma grande escolha.

      
             A condução deliberada de atos contrários ao que se apresenta com naturalidade, pelo menos para mim, é algo que ressoa assustador. Demonstrar total desprezo ao sexo pode resultar em algo extremamente nocivo aos envolvidos.

             Realmente eu já havia visto imagens de crianças trajadas diferentemente do que seria comum ao sexo, mas, em momento algum me deparei com artigos onde a situação fosse tratada com a clareza e detalhes  expostos na revista Veja. Há explicações sobre a atitude,  as suas origens,  adeptos e  resultados visíveis de tais opções.



             Assim causou-me um misto de dor e pena ver uma das filhas de um casal famoso,  que  desde bebê – foi vestida pelos pais como se fosse um menino. A criança, uma linda menina, aparece, talvez beirando sete anos, vestida de menino, com uma expressão masculina, totalmente descaracterizada de sua natureza feminina. O gênero feminino parece fazer parte de uma ficção, pelo menos para aqueles pais em relação à filha.
           
              E não foi opção, tal caracterização foi imposta, lhe foi tirado o direito de se mostrar como menina, criança do sexo feminino, uma direção escolhida por quem a educa e que, necessariamente, não teria de ser  a adotada, por inclinação natural, da maior interessada. Há uma violação, uma indução que, inclusive, a uma pessoa dotada de senso comum, sem especialização sobre o assunto, poderia sugerir problemas psicológicos, confrontos e indefinição.



             Para mim a sexualidade é algo extremamente pessoal. Vi ao longo de sessenta anos as mais estranhas situações envolvendo tão importante aspecto da vida humana. Conheci alguém que durante muitos anos foi vista e tratada pelos pais como menino porque eles desejavam um filho homem. Esta menina, embora muito nova, tem apenas dezoito anos, comporta-se como se fosse um adolescente. Cerca-se de amigos, faz referências a si como do sexo masculino, veste-se e assume posições extremamente masculinas. Hoje há um visível arrependimento dos pais.

             Nesta mesma linha de ação, um menino que foi tratado por sua mãe como se fosse menina, sempre recebeu presentes de meninas, tinha toda a coleção da boneca Barbie, era vestido sempre com roupinhas rosa, shortinho com babado nas pontas, blusas e não camisas. É hoje um jovem totalmente despersonalizado em sua masculinidade, não se reconhece como do sexo masculino. Cito um exemplo de cada caso. Conheço muitos outros com maiores ou menores repercussões, em todos observei a ausência de respeito dos pais e dos cuidadores e o total aborrecimento quando se lhes fazia alguma observação.


             Estranho mundo esse onde os responsáveis pela formação de seus filhos, influenciados até mesmo por decepções,  sonhos que não conseguiram realizar ou por orientações de profissionais descompromissados com a boa mídia e que, por anos a fio erotizam crianças através de anúncios, artigos e outros, negam-lhes o direito de serem – enquanto crianças, em formação física e psíquica - ajustados a realidade de seus corpos. O tratamento de crianças deve ser igualitário, respeitadas as diferenças próprias dos sexos, da idade, da condição física e psicológica.
            
             A repulsa à orientação sexual, na conformidade do que é natural pode levar a erros incorrigíveis. A Veja o citou e a enciclopédia Wikipédia registra:  “ David Reimer - nascido saudavelmente do sexo masculino, mas que teve sua identidade sexual modificada e foi criado como uma menina depois que seu pênis foi acidentalmente destruído durante uma circuncisão. Nascimento: 22 de agosto de 1965, Winnipeg. Falecimento: 4 de maio de 2004, Ottawa. Cônjuge: Jane Fontaine (1990 a 2004). Irmão: Brian Reimer. Filiação: Janet Reimer, Ron Reimer.


             Resta informar que a mesma fonte – A Veja – publicou, que David jamais aceitou ser tratado como menina, aos dois anos rasgava os vestidos, recusava-se a brincar com bonecas, sofreu bulliyng na escola e somente veio a saber da mudança de sexo aos 14 anos. Os seus pais, sob a orientação de um psicólogo nos Estados Unidos foram aconselhados a uma cirurgia para construção de uma vagina artificial.    

  
             O profissional buscava comprovar uma teoria segundo a qual não eram as características físicas que determinavam o sexo e sim a forma como as crianças eram criadas por seus pais. Mais uma vez a minha visão de leiga sugere deduções diferenciadas quais sejam:  o remorso  ditou a opção dos pais e a ânsia de comprovar uma teoria e  ser reconhecido por tal, ditou a conduta do profissional. Ambos fracassaram. David pagou com sua vida o erro desses. Não só ao suicidar-se em agosto de 2004, mas e principalmente, durante toda a sua atormentada existência. 


                Os problemas decorrentes da ausência de definição foram abordados  em Tomboy que é um longa-metragem escrito e dirigido por uma francesa, Céline Sciamma, sobre a atração na adolescência, quando a personagem título se revela atraída por outra do mesmo sexo, assumindo personalidade dupla, identificando-se mais como do sexo oposto ao seu, criando um nome diferente e o utilizando fora de sua casa. 


                O filme não define o que acontecerá no futuro, mesmo assim mostra a flexibilidade dos pais que estão preocupados com a gravidez da mãe, a adolescência da irmã mais velha e sequer se vê um só diálogo que passe informações, esclareça dúvidas, demonstre interesse dos pais em relação à filha. Será essa a ideia de família a que devemos nos acostumar?

             Aos pais um apelo no sentido da preservação de seus filhos. Não há pieguice, redundância ou atraso, em prover as crianças da proteção necessária enquanto não estão desenvolvidas, física, mental, moral, espiritual e socialmente em condição de liberdade e dignidade, conforme estabelece o Estatuto da criança e do Adolescente.


         Ainda, o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais (Art. 17 ECA). 
             Imagine-se adulto, exercendo plenamente a sua sexualidade e de repente tomar conhecimento, através de pessoas ou de fotografias, que em determinado período de sua vida você foi tratado e caracterizado como sendo do sexo oposto. Ou você que vive em conflito com seu corpo descobrir que ouviu de seus pais, durante toda a sua infância o quanto foi decepcionante ter uma filha ao invés de um filho homem? Ou vice-versa.

             Os ensinamentos, a orientação, a educação no lar é a primeira que um ser humano recebe. Na  Bíblia Sagrada em João 8:38 há a seguinte passagem:” Eu falo das coisas que o meu Pai me mostrou, mas vocês fazem o que aprenderam com o pai de vocês.” O Cristo assinalou a importância da postura, das escolhas feitas pelos pais como caminho indicado aos filhos. O desprezo pela natureza desses certamente não poderá repercutir bem em sua intimidade.
             Espero jamais ter que conviver com um desrespeito tão grande as nossas crianças!
          

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CLARICE LISPECTOR


PERTENCER

Houve entre nós, por pouco mais de cinco décadas, uma criatura que se lapidava a medida  em que fazia suas opções. Uma escultura viva, moldada por um vivente que foi a um só tempo criador e criatura, incansavelmente  mergulhada em seu íntimo buscando respostas às suas indagações.  A  ininterruptas inquietações. 


Exercia a crítica não somente no sentido de separação, mas e principalmente de partejamento, de fazer aflorar a verdade, sempre focando a essência até mesmo se para isso fosse necessário refazer caminhos, ideias. Acreditava que tênues limitações justificariam uma liberdade que a levasse a respostas, naquela conjuntura, definitivas. 


Com uma atitude que poderia ser erroneamente entendida como inconstante , essa Ucraniana perseguiu, a exaustão,  o âmago de suas personagens, imiscuindo-se  em seus cérebros,  tentando apreender  todo o pensar, o agir, os intricados processos de funcionamento da psiquê. Em sua obra  o enredo é de somenos, tudo gira em torno dos atributos mentais, psíquicos de cada uma das figuras criadas para dar vida aos seus escritos. Assim Clarice via as suas criações literárias:
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
"A descoberta do Mundo" , seleção de Crônicas originalmente publicada em coluna semanal assinada pela escritora, no Jornal do Brasil, no período compreendido entre agosto e 1967 e dezembro de 1973 nos trouxe "Pertencer", que mostra a dualidade, o tênue equilíbrio e a genialidade da autora, senão vejamos:


"Pertencer

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
 
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 


Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.


Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. 


Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. 


Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 


Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. 


Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. 

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.


Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido. 


A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!"


Clarice Lispector, no mínimo será inspiração aos que não se contentam com o óbvio. Uma mulher fantástica que conseguiu conviver e usar sua doença para melhor desvendar a alma humana. Uma escritora que explorou o existencial, fragmentando-o, indo ao fundo de seus personagens como se mergulhasse em si , exigindo respostas. Difícil, porém, fascinante!





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DEZEMBRO.

            Este deveria ser um mês no qual tudo e todos se curvassem à ideia do renascimento Cristão. O mundo se vestiria de amor, se perfumaria com beijos e as pessoas, ao invés dos costumeiros meios de transportes, seriam levadas de um lugar para outro nas asas da imaginação, essas, movidas por brisa suave ou mesmo por movimentos mais fortes do ar, conforme a necessidade assim o exigisse.



            As pessoas se cumprimentariam, amavelmente; os patrões e empregados dispensariam, entre si, um tratamento cortês, sincero e prazeroso; nas repartições públicas, expressões negativas, incitação à baixa-estima, a desvirtuação de valores, seriam banidas e, cada um, de per si, seria estimado conforme os seus atos,  sua maneira de ser, aliando-se  a essas, virtudes como afabilidade, humanidade, dignidade e, em especial, habilidade no trato com os outros, como elementos intrínsecos à competência.


     Seria maravilhoso que tocados pela grandiosidade do aniversário de Jesus Cristo - celebrado pomposamente, quando deveria sê-lo amorosamente - cada indivíduo pudesse ser  influenciado, de modo a conscientizar-se de que os seus atos repercutem na humanidade, sejam bons ou maus e, que cada ação demanda uma reação.  

            Mas, que lástima!  Desejar que respeito,  amor,  humildade, razão e bons sentimentos estejam presentes, pautando comportamentos, parece integrar o reino da quimera. Que lamentável erro! Quão distantes da realidade estão tais anseios?  Onde se cogitou tais despropósitos? Partilhar com todos a “dádiva máxima” de um cumprimento, um bom dia, boa tarde, por favor, obrigada? Não! Isso inverteria a hierarquia. 

           E o que se dizer de empregados e patrões, chefes e chefiados, em conversações destituídas do “EU posso, EU mando, você é subordinado a MIM e, portanto, vai fazer o que EU disser? Seria muito bom. Não apenas politicamente correto, mas, totalmente adequado para que houvesse a boa prática de cordialidade e educada convivência.


       Infelizmente estamos nos distanciando cada vez mais de práticas públicas saudáveis. Digo públicas porque excedem os lares, extrapolam o privado, ganham às ruas, empresas, indústrias, lojas, as administrações nas diferentes esferas de governo e, até mesmo, aqueles nichos que sempre buscaram abrigar a excelência no serviço público. 



        A nação assiste, envergonhada, sucessivos escândalos e tentativas de blindagem. Ora são ocupantes de altos cargos Políticos no Executivo e/ou  cargos Legislativos, como os envolvidos no caso do mensalão. Ora cai sobre todos nós, como  uma bomba,  outros desmandos.



       O mais recente envolvendo a Chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo e, indivíduos à frente de Agências Reguladoras, criadas para fiscalizar a prestação de serviços  por seus regulados. Todas, estratégicas  ao funcionamento da máquina administrativa  no cenário da União. O imenso poder de Rose, as viagens reveladas, os diálogos mantidos e divulgados não deixam dúvidas sobre as falcatruas. Inclusive, ainda se insiste em demonstrar, no mínimo a título de “anunciada inocência” que: “O tempo passou e, na janela, só o Lula não viu.”
         Enquanto isso, no Rio de Janeiro, as autoridades constituídas ameaçaram a não realização da Copa, se debateram, exigiram,  xingaram e conseguiram: o petróleo não é mais nosso, é das grande construtoras, dos cartolas e dos políticos cada vez mais articulados. O veto presidencial baseado em "Direito Adquirido", esqueceu, entre outros,  a cobrança de INSS para aposentados – e aí, nesse caso,  onde foi parar o direito adquirido? 

            Aos gestores parecem não importar o caos instalado a partir de:

hospitais sucateados nos quais falta o básico, o essencial; as filas quilométricas em busca de atendimento na área de saúde, com espera de até de 10 (dez) anos, conforme reportagem realizada pela Rede Globo de Televisão, essa semana.



     A insegurança em todos os setores, com o banditismo circulando livremente entre ricos e pobres; nas repartições públicas instaladas na periferia e grandes centros, igualmente,  nos altos escalões administrativo, inclusive, eles, os bandidos, não têm preconceito na hora de assenhorear-se do alheio, independentemente da condição social, estado civil, cor ou credo, todos são vítimas em potencial.



       O déficit na educação pública, que não prepara o alunado, aprova os que não poderiam ser aprovados, em face de uma política de não reprovação e que recebe premiação em forma de engodo pela criação de  sistema de cotas, quando a tônica teria de ser o investimento maciço  na escola. Já dizia Pitágoras: “Eduquem-se os meninos e não será preciso punir os homens.”
       
         Rogo, incessantemente, que o nosso  despertar, qualquer dia desses, não encontre manchetes escandalosas denunciando a “subversão da hierarquia”, com o baixo clero impondo suas aspirações; ou   mesmo um  estranho quadro onde comissionados, cuja qualificação é a truculência, assumam, de direito, o comando de servidores e ações necessárias ao funcionamento dos órgãos.



       Torna-se assustador pensar algo pior, como "a galinha pintadinha", adorada pelas crianças,  por conhecimentos impensáveis de alcova, passar a dar ordens, nomear e exonerar altos escalões. 



  Mais terrível ainda, imaginar uma hipotética dupla do "Patati e Patatá", envolvidos em propinas, obtenção de vantagens, defendendo interesses escusos, ganhando dinheiro sujo (desculpem o pleonasmo) e fazendo tráfico de influência.



    Peço, ainda, o direito de não ter que enfrentar, para meu particular sofrimento, a notícia de uma CPI  contra "anjinhos barrocos",  sim - porque aquelas caras interrogativas e risos sarcásticos -....hum..., é melhor não deixar passar pois se poderá incorrer em  impunidade.  Afinal, a inquisição queimou mulheres que sorriam demais.



   A Operação Porto Seguro, traduzida na costumeira sátira nacional como "Rosegate", mostra a sedução e o poder.  Além de ratificar a insegurança do Estado Brasileiro em confronto direto com a corrupção traduzida em nomeações para postos estratégicos, venda de pareceres  fraudulentos a vigaristas travestidos de empresários - por quadrilha especializada -  e a  compra de diploma universitário falso, tudo sugere um polvo que lança seus  tentáculos sobre o poder.




   Como se não fossem suficientes tais revelações, somos surpreendidos  com a  inimaginável situação do romance entre o homem que não sabia de nada e a mulher que sabia de tudo. Só DEUS, onipotente e onipresente,  dará o discernimento para que se consiga permanecer sadio ante às pressões exercidas pelo mal,  institucionalizado ou não,  sob aqueles que  repudiam “a pseudo normalidade de tais ingerências”.


   Por outro lado refletindo sobre partidos políticos e uma possível analogia a aventura real e atual de uma mulher que usa e abusa do poder, corrompe e se deixa corromper, RESTA ESCOLHER, como último refúgio às almas incansáveis na busca do ético, a doce alienação patrocinada  pelo  PAÍS DE ALICE ou pela PASÁRGADA.


   No país de Alice há criaturas extraordinárias e situações, a um só tempo absurdas, incoerentes, que levam a aventura e a identificar, na mesma obra, ocasiões criadas visando adultos e outras, declaradamente escritas para crianças.




   Na Pasárgada, paraíso imaginado por Manuel Bandeira há o registro dos dois mundos: o dos sonhos, onde só existe a felicidade e o real com suas dificuldades e negações. É a realidade, permutada pelas infinitas possibilidades do imaginário.




    Assim é o ser humano. Se há sofrimento e dor, a fantasia é válvula de escape que não implica em pagamento, na aquiescência do outro e, que mesmo sem plástica estética,  sem o embelezamento de uma polpuda conta bancária,  ou a virilidade conferida pela potência dos motores (leia-se: Lamborghini, Porshe, BMW, Mercedes-Benz, Ferrari), todos tornam-se super homens, senhores e autores de seu destino.

   Enquanto o espírito “dezembrino” não se instala, resta-nos compartilhar o equilíbrio patrocinado ora  pela alternância de Manoel Bandeira, ora pelo esculacho do inigualável Bezerra da Silva. Reflitam e Divirtam-se.

        
Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira




Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei


SE GRITAR PEGA LADRÃO -
Bezerra da Silva.   


                                                                                             
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Você me chamou para esse pagode,
e me avisou: "Aqui não tem pobre!"
Até me pediu pra pisar de mansinho, porque sou da cor,
eu sou escurinho...
Aqui realmente está toda a nata: doutores, senhores,
até magnata
Com a bebedeira e a discussão, tirei a minha
conclusão:

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Lugar meu amigo é a minha Baixada,
que ando tranqüilo e ninguém me diz nada
E lá camburão não vai com a justiça, pois não há
ladrão e é boa a polícia
Lá até parece a Suécia, bacana, se leva o bagulho e se
deixa a grana,
Não é como esse ambiente pesado, que você me trouxe
para ser roubado....

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Você me chamou para esse pagode,
e me avisou: "Aqui não tem pobre!"
Até me pediu pra pisar de mansinho, porque sou da cor,
eu sou escurinho...
Aqui realmente está toda a nata: doutores, senhores,
até magnata
Com a bebedeira e a discussão, tirei a minha
conclusão:

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Lugar meu amigo é a minha Baixada,
que ando tranqüilo e ninguém me diz nada
E lá camburão não vai com a justiça, pois não há
ladrão e é boa a polícia
Lá até parece a Suécia, bacana, se leva o bagulho e se
deixa a grana,
Não é como esse ambiente pesado, que você me trouxe
para ser roubado....

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um