Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O DANO PARTICULAR OU O MENSALÃO?



 AMENIDADES OU ESSENCIALIDADE?

Ter a consciência de que somos manietados pelas “amenidades” do dia a dia, nos revela o quanto somos prisioneiros de nosso tempo. Algumas situações são perigosamente incômodas e, portanto, nos parece correto buscarmos soluções. Outras importunam os nossos conhecidos, nossos vizinhos e assim sendo, merecem um comentário em tom de censura; quando muito, uma sugestão do que faríamos se tal fato fosse conosco. Finalmente, as ocorrências que embora nocivas, de um modo geral, trazem resultados que estão distantes de nos, aparentemente não nos atingirão, essas são sempre deixadas para depois. 


Listar aquilo que insiste em nos contrariar é certeza de enfrentar dificuldades. Tantas e tão desagradáveis são as temáticas dispostas  a nos tirar a leveza, a felicidade a possível simplicidade do cotidiano que, por vezes, nos calamos, deixamos passar o tempo, a espera de que tudo se organize. Aparentemente o brasileiro não sabe insurgir-se. 
  
Em alguns momentos há ensaios de irresignação, faixas são feitas, pessoas, sob a orquestração de outras, gritam “palavras de ordem”; bebem, fumam, dançam, arrecadam dinheiro, mas, não têm consistência em suas reivindicações e, não raro, reivindicam coisas absurdas, em franca rota de colisão com a legalidade, auxiliando, assim, aos que fazem as vezes de “advogados do diabo”.

 A idéia de que o Brasileiro é, por natureza, risonho, caloroso, amigo, aberto, parece cada dia mais distante. Com raras exceções. Hoje, apesar das ONGs, das pessoas que se desdobram para assistir aos que necessitam, há uma crescente desconstrução do sentido de comunidade. A globalização engole tudo e a todos produzindo cidadãos mais egocêntricos, individualizados, e menos participativo, sociáveis.

É lugar comum em nossa realidade vizinhos que não se conhecem ou mal se reconhecem, não se cumprimentam. A inquietação é cada vez mais crescente em relação ao desconhecido que com referência a aquilo que conhecemos, sabemos de sua nocividade, mora ao nosso lado. Entretanto, vivemos e fazemos de conta que não existe. Não chegou a nossa casa, portanto se debate num abismo sobre o qual apenas ouvimos falar.


Igualmente se esvaiu ao longo das gerações o conceito de nacionalismo. Quando muito vemos jovens e adultos enlouquecidos, vestindo verde e amarelo, demonstrando um grande e verdadeiro amor à Pátria...de chuteiras, claro. Na Copa do Mundo e em competições Internacionais, a exemplo das Olimpíadas e algumas outras, como do nada surge o amor-próprio, a alegria de ser brasileiro.

As coisas que mais trazem constrangimento no  Brasil de hoje são, sem dúvida nenhuma, a telefonia e a corrupção, não necessariamente nesta mesma ordem. O fato é que nos tornamos, conscientes ou não, escravos do telefone, reféns de um “fio condutor que nos liga com o mundo”. 

À sociedade pouco importa se é a telefonia tradicional ou se é o famigerado celular. O problema está na nossa dependência e em razão de termos nos rendido a tal.Suas excelências”, as operadoras, tripudiam sobre nos demonstrando a cada minuto mais fôlego, mais força.  

Multiplicam-se os casos de adquirentes de planos que não conseguem utilizar suas aquisições. Reproduzem-se de forma absurda os engôdos,  a incoerência nas informações, a péssima qualidade dos serviços, a incapacidade para resolver problemas.

O chamariz de tais empresas é sempre o baixo custo. Em contra partida há aumento contínuo de usuários, sem a correlata preocupação da prestadora de serviços em qualificar sua prestação, de forma a ofertar o que realmente foi contratado pelo cliente. Ao contrário, as operadoras não sinalizam no sentido de mudar o quadro de desatenção, desprezo, para com o consumidor. 



Persiste a falada incapacidade técnica e a contratação de novos serviços, ambos aliados à contraditória passividade dos milhões de usuários. A essa inércia as companhias sempre responderam com desserviço, morosidade, dominação e pedantismo. 

Ainda somos conduzidos e ludibriados com maciça mídia – televisiva, jornalística, via rádio e outros - que busca demonstrar "avanço" em alguns setores. A telefonia, que por se apresentar aos utentes sob múltiplas denominações, como “OI, TIM, CLARO, VIVO..., sugere variedade de um mesmo serviço quando essa ideia fica apenas como estímulo

A bem da verdade, entre nós brasileiros, quando surge uma coisa, um serviço, um empreendimento, ele é de imediato multiplicado com roupagem diversas mas, com  mesma essência, repetindo erros e acertos, não há variedade, quando muito se maquia o produto final, mas, a qualidade não é o que dá o tom, esse é marcado pelo máximo lucro.


Apesar do tradicional aspecto manipulável de grande parte de nossa população, talvez por falta de formação escolar e informação sobre seus direitos, essa permanece alheia as afrontas aos seus direitos, como cidadão e consumidor; mesmo sem a tradição de reivindicar diritos, existe hoje no Brasil como um todo, um número enorme de ações no âmbito da telefonia - justificadas ou não - causando verdadeiros gargalos nos Juizados Especiais.

ENQUANTO ISSO, NO SUPREMO:


E o essencial? Onde fica? Onde, literalmente, esconder a cara, após mais de 35 (Trinta e cinco) anos de atividades como Advogada? Como deixar de lado  o desconforto de quem vê e reconhece as mais descabidas colocações feitas por Colegas Advogados, contratados a peso de ouro e, também, de membros da mais alta Corte de Justiça deste País?

Realmente, não há como se omitir diante de tamanhos acintes ao povo brasileiro, especialmente quando se tenta desclassificar  algo tão essencial à Democracia que é a credibilidade de um dos Poderes e, o mais terrível, quando se percebe dentro desse mesmo Poder posições inexplicáveis. 

Senão vejamos a diversidade das colocações, segundos os defensores e Ministros identificados :


Geiza Dias, conforme seu Advogado “era uma funcionária mequetrefe e batedeira de cheques”.

Rogério Tolentino, para seu defensor “foi denunciado para justificar a atuação de um quadrilhão”.


"Entende a defesa que o pedido de condenação de José Dirceu é  o  mais  atrevido   e  escandaloso ataque à Constituição Federal", Lima, parafraseando fala do procurador-geral.



"[Genoino] não é réu pelo que fez, mas pelo que foi. É o direito penal nazista: é judeu, então mata. Foi presidente do PT, tem que ir para a cadeia", Luiz Fernando Pacheco, advogado de José Genoino.


                                          

"Genoino não cuidava das finanças e da administração do partido. O tesoureiro procurou instituições financeiras, negociou os termos dos empréstimos. Isso sempre foi a palavra de Delúbio", Luiz Fernando Pacheco.



  
Era ilícito mesmo, e Delúbio não se furta a responder pelo que fez, que ele operou, que isso é ilícito. Agora, ele não corrompeu ninguém", Arnaldo Malheiros Filho, advogado de Delúbio Soares.

"O Banco Rural foi vítima da sua própria transparência", José Carlos Dia, advogado de Kátia Rabello, ex-presidente do Banco Rural.



"Meu cliente não é quadrilheiro, meu cliente não é chefe de organização criminosa, e quem diz são os autos", José Luis Oliveira Lima, advogado de José Dirceu.

"A verdade é que a prova é pífia, é esgarçada", Arnaldo Malheiros Filho.



"Marcos Valério não é troféu ou personagem a ser sacrificado em altar midiático", Marcelo  Leonardo, advogado de Marcos Valério. 
                                                                                                                                                                       
                      

"É impressionante o desprezo pela prova colhida em contraditório pelo Ministério Público", Marcelo Leonardo. Sem pretender louros questiono a miópia ou, quem sabe, sonolência que o impediu de ver seu cliente no centro de quase tudo o que foi discutido, analisado e julgado.


 "Ramon Hollerbach foi acusado das piores coisas sem que se aponte fato concreto. Marcos Valério não tinha ascendência sobre Ramon, eles eram sócios", Hermes Guerreiro, advogado de Ramon Hollerbach, ex-sócio de Marcos Valério. 


"É bonito acusar as pessoas por quadrilha ou bando, virou moda. Até na novela, a Carminha disse que ia processar a Rita por formação de quadrilha", Leonardo Yarochewsky, advogado de Simone Vasconcelos, ex-diretora financeira da agência SMP&B.” 
  
"Tenta-se dizer terroristicamente que o motivo que levou o Banco Rural a fazer empréstimos seria o pote de ouro de R$ 1 bilhão que teria quando o Banco Mercantil fosse liquidado", Márcio Thomaz Bastos, advogado de José Roberto Salgado, dirigente do Banco Rural, sobre a motivação do banco para participar do esquema denunciado.

"Eu tenho certeza que cada um dos senhores há de julgar com duplo cuidado, no lugar do duplo grau de jurisdição. É um julgamento de bala de prata, feito uma vez só, e por isso, como se trata de destinos de pessoas, é preciso um duplo cuidado", Márcio Thomaz Bastos, sobre a recusa do STF em remeter o processo envolvendo réus sem foro privilegiado para a primeira instância. 



OBS. Quando o réu é um pai de família que roubou alimentos não se trata de destino das pessoas? Pelo menos numa visão micro significaria o almoço, mas a poucos importa o alimento de quem não tem.

 
"A verdade é que quem mandava e desmandava naquele partido, como quem manda e desmanda até hoje, é o deputado Valdemar Costa Neto", Délio Fortes Lins e Silva Jr., ao afirmar que Jacinto Lamas não tinha importância política no PL e que era tesoureiro apenas formalmente”.


"O presidente não é só safo, como é doutor honoris causa em universidades brasileiras e fora do país? Mas é um pateta? Tudo isso acontecendo sob suas barbas e nada? Claro que não. É safo, é doutor honoris causa justamente e não só sabia como ordenou tudo isso", Luiz Francisco Corrêa Barbosa , advogado do ex-deputado e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. 


"As reformas não eram só do PT, eram do PT e do PL. É uma questão de matemática e até de astúcia política", Bruno Alves Pereira de Mascarenhas Braga, advogado de Carlos Rodrigues, ex-deputado do extinto PL, ao citar depoimento de seu cliente para as investigações do Ministério Público em que nega que o PL tenha vendido votos, porque apoiava o governo.

ENQUANTO ISSO O STF PRODUZIA: 

 “As provas colocam o então ministro da Casa Civil na posição central da organização e da prática, como mandante das promessas de pagamento das vantagens indevidas a parlamentares para apoiar o governo. Entender que Marcos Valério e Delúbio Soares agiram e atuaram sozinhos, contra o interesse e a vontade de Dirceu, nesse contexto de reuniões fundamentais, é inadmissível.”
Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal e relator do processo do mensalão.


“O que surpreende é o joguinho. Eu que estou surpreendido com ação de obstrução de Vossa Excelência”. Barbosa em critica a Lewandowski que levou vários minutos para ler um artigo de jornal em defesa dos réus do núcleo publicitário.


"O racismo parte da premissa de que alguém é superior.  O negro é sempre inferior. E dessa pessoa não se admite sequer que ela abra a boca.   'Ele é um maluco, é um briguento'. No meu caso, como não sou de abaixar a crista em hipótese alguma."  Ministro Joaquim Barbosa.

 
Antes de encerrar eu quero dizer que este não é apenas o último voto que dou nesta casa que servi por quase 10 anos. Devo dizer que nenhum juiz verdadeiramente digno de sua vocação condena ninguém por ódio. Há uma misericórdia que pune.” “ Ministro César Peluzo.


“Deus no céu e a política na terra”. Carlos Ayres Brito, ministro e presidente do STF.

E num momento magistral na busca do equílibrio: " Tenho de cumprimentar o retorno de sua Excelência  o Ministro Ricardo Lewandoski, que reassume seu indispensável e altaneiro papel de revisor desse processo. Vossa Excelência e o ministro Joaquim Barbosa, para mim, só merecem elogios."

Em sua despedida no Supremo: " Não temos direito a mau humor. Entendo que nossas rugas aumentam para que nossas rusgam diminuam . Aprendi com meu pai. É dele também a frase que diz que o juiz não deve impor respeito. O juiz deve impor-se ao respeito. Eu sempre disse para mim que derramamento de bílis e produção de neurônios não combinam." Carlos Ayres Brito, ministro e presidente do STF. 



"Se  esse  processo  estivesse  espalhado  por  aí, seu destino seria a prescrição.     Só  está     chegando ao   seu   termo      porque          ficou    concentrado     no Supremo",  Gilmar   Mendes,   ministro   do STF, sobre o mesmo tema.
“Motivação política não exclui o crime de quadrilha”.
“Houve sim uma realidade autônoma, uma vontade própria fruto dessa espúria aliança”. Gilmar Mendes, ministro do STF.


“A República não suporta mais tanto desvio de conduta”.
“Não são poucos os homens públicos cuja a honra não se afasta com o tilintar das moedas”. Marco Aurélio de Melo, ministro do STF
“Nunca vi tão nitidamente caracterizado o crime de formação de quadrilha”. 
“A parte mais sensível do corpo humano é o bolso", afirmou o ministro Marco Aurélio Mello durante a fase de dosimetria no julgamento do mensalão.
"A corrupção prejudica a capacidade das nações de prosperar e de crescer". Ministro Marco Aurélio.
“A   sociedade   não   pode   perder   a   crença   de que o Estado dará resposta penal adequada”.


"Estamos tratando de macrodelinquência governamental, da utilização abusiva, criminosa do aparato governamental ou do aparato partidário por seus próprios dirigentes"
Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal.
“Neste caso, essa estabilidade se projeta para mais de dois anos e meio. Nunca vi algo tão claro”. Celso de Melo, ministro do STF.



"Pelo que entendi, inclusive os jornais anunciaram, a votação de hoje seria do núcleo bancário. Não estou entendendo porque estamos iniciando com o núcleo Político."
"Eu vim de São Paulo nesse instante, sai de uma banca de mestrado, se eu soubesse......"
Min. Ricardo Lewandowski, Revisor do Processo.




"Absolvo no sentido de não verificar que houve associação com propósito específico da prática de crimes", (sobre os réus do PP) Dias Toffoli, ministro do STF, concluindo o voto interrompido na quinta-feira (27):

E O PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA.

“Quando falo de quatro paredes, falo das paredes da Casa Civil, de algo que transcorria dentro do palácio da Presidência da República." Roberto Gurgel, procurador-geral da República, sobre o mensalão. 


"O autor intelectual, quase sempre, não fala ao telefone, não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos, não movimenta dinheiro por suas contas, agindo por intermédio de `laranjas'. A prova da autoria do crime não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal", Gurgel, sobre o fato de o ex-ministro José Dirceu ser qualificado por ele como "chefe da quadrilha" do mensalão. 



"O mensalão é o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil", Gurgel, sobre o esquema denunciado. 
"Em 30 anos de Ministério Público, completados no dia 12 de julho último, jamais enfrentei, e acredito que nenhum procurador-geral anterior, nada sequer comparável à onda de ataques grosseiros e mentirosos de caudalosas diatribes e verrinas, arreganhos de toda espécie, por variados meios, por notórios magarefes da honra que não possuem, tudo a partir do momento em que ofereci as alegações finais nesta ação penal", GURGEL, sobre ameaças que recebeu após apresentar as alegações finais do processo. 




"Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações", Gurgel, citando trecho da música "Vai Passar", de Chico Buarque.




 
É quanto mais buscamos nossa liberdade mais somos submetidos a grilhões. Alguns bem visíveis, outros sutis, contudo, e possivelmente, mais perigosos uma vez que não detectamos de imediato.
Os mensalões da vida, a corrupção de agentes políticos, a ausência de vontade política na solução de problemas cruciais não estão longe de nosso cotidiano, ao contrário, respigam em cada um de nós todas as vezes que necessitamos de médicos e não os encontramos nos serviços públicos; também quando, a luz do dia, em frente às residências, nos deparamos com assaltos; quando pagamos por um serviço e não desfrutamos do que foi acordado; quando o nosso bom dia é a manchete de um jornal diário revelando mais um escândalo envolvendo políticos; quando vemos nas ruas um bando de crianças esfarrapadas, famélicas, drogadas, exploradas, quando deveriam estar alimentadas, vestidas dignamente e em bancos escolares.


Desse histórico julgamento, para nós que nos damos ao direito de pensar, fica a conclusão de que  o país está em franca e profunda transformação, com atitudes concretas de combate à corrupção e utilização de medidas até então inimagináveis contra segmentos da sociedade entendidos como intocáveis.

Vamos buscar e fazer acontecer pois, brasileiro, profissão esperança, necessita ser brasileiro que luta, vence obstáculos,  constroi o aqui e agora  com garra, vigor.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

SER IDOSO – PARTE I


 BREVES CONSIDERAÇÕES -

Neste blog já nos referimos a assuntos os mais variados possíveis, entretanto, e sem qualquer intenção, nos descuidamos de um aspecto importantíssimo de nossa sociedade, de nossas vidas. Vimos as crianças, as mães, as flores, situações jurídicas, memes, coisas engraçadas, tristes, vimos muito, mas, não nós debruçamos sobre o envelhecimento, a idade, a velhice; muito embora a única forma de não vivê-la seja, naturalmente, a morte antes de assim sermos considerados. 


Há substancial diferença entre ser idoso no Oriente, no Ocidente e, bem assim nos Continentes e Nações de per si. Em países como a China e o Japão o velho, o ancião, a velhice, é vista e tratada como sinônimo de respeito e sabedoria. É natural envelhecer e como tal, peculiar a todo  ser vivo. Desse modo para o Oriental contemporâneo esta tem sido uma tradição vigente e cogente.  

Assim, entre esses povos ser idoso é um distintivo que impõe respeito e atenção, inclusive, porque a idade possibilita o acúmulo de conhecimentos e de experiência. Mesmo se nos voltarmos  para tempos remotos o ancião sempre foi visto e considerado alguém digno de respeito, confiança, apto a aconselhar e, normalmente, ser o fiel da balança nas decisões.


As famílias orientais, orgulhosamente, testemunham, através dos relatos, os sacrifícios que os seus idosos fizeram para que pudessem evoluir e tornarem-se, os seus descendentes, as pessoas que naquele momento, com seriedade e reverência, o demonstram, plenos de alegria e cientes do tesouro que possuem. O Oriente reverencia Confúcio e Lao Tzu como personagens principais na consolidação do respeito e privilégio concedidos aos idosos até hoje.


Confúcio, o filósofo que viveu na China antiga, supostamente entre os anos de 551 - 479 a.C, ensinava que as famílias deviam obediência e respeito ao idoso. Como exímio conhecedor da alma humana, apregoou ideais de moral e sabedoria, afirmando "a família como a base de toda a vivência e o humano mais velho (masculino), aquele  a quem se devia obediência. Inclusive, que aos 60 anos o ser humano entende a necessidade da meditação, aos setenta, sem violar regras, pode seguir os desejos de seu coração e que sua maior ambição, dele, filósofo, era que os idosos pudessem viver em paz, principalmente com os mais jovens."

Por sua vez Lao Tzu (590 - 470 a.C) , fundador do Taoísmo, coloca: "a vida nada mais é  do que o ser humano que atua espontaneamente e é idêntico ao centro do mundo". O sábio vê a velhice como um período marcante de aquisição, um somatório,  entendendo que ao completar 60 anos de idade, o ser humano chega a ocasião de emancipar-se da matéria, do corpo e,  através do êxtase, vir a ser um santo.
Os japoneses, tradicionalmente, cultuam o respeito e cuidados com os idosos, frutos de uma educação milenar de dignidade e sabedoria. Para o povo Japonês, aos sessenta anos o homem pode vestir vermelho que é a cor dos deuses.

Quanto ao ocidente, o primeiro texto referindo-se à velhice foi escrito no Egito e data do ano de 2.500 a.C. época em que  se glorificava a beleza física e o vigor, sendo esses imortalizados nas artes. 

Ptah-Hotep filósofo e poeta, registrou como a civilização Egípcia se pronunciava sobre a velhice: “quão penoso é o fim do ancião! Vai dia a dia enfraquecendo: a visão baixa, seus ouvidos se tornam surdos o nariz obstrui e nada mais pode cheirar, a boca se torna silenciosa e já não fala. Suas faculdades intelectuais se reduzem sendo impossível recordar o que foi ontem. Doem-lhe todos os ossos. A ocupação a que outrora se entregara só se realiza agora com dificuldade e desaparece o sentido do gosto.”


Assim, desde há muito, para os Ocidentais, em franca maioria, envelhecer está incluído entre as piores coisas que podem acontecer ao ser humano. Desde a Grécia antiga, já se cultuava a beleza, a perfeição do corpo, das formas harmônicas. Por outro lado a alusão a velhice é registrada nos diálogos de Sócrates, na figura de seu discípulo, Platão, que demonstra interesse pelo velho, suas idéias, seus problemas e seu pensamento. Em contrapartida, Aristóteles enxergava na velhice uma doença, natural, onde a senilidade é a degradação e aniquilamento do ser humano.


O IDOSO NO BRASIL –


A Constituição Brasileira, de 1988 já determina: Art. 230, caput,  “A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.” 

Ainda  no § 1º estatui:” Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares.”



A Lei n. 10741, de 1º de outubro de 2003 –Estatuto do Idoso -, publicada no Diário oficial da União, de 3 de outubro de 2003, define em seu artigo 1º. “É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direito assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos."

Essa legislação instrumentaliza a prática de direitos fundamentais próprios da pessoa humana, considerados sob o prisma da idade. Assim temos, em apertada síntese, o Direito a vida, à liberdade, ao respeito e à dignidade, aos alimentos, a Saúde, a Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Profissionalização e Trabalho, a Previdência Social, a Assistência Social, a Habitação e Transporte.



Igualmente, ao tratar do Direito à Vida, no Artigo 8º, o Estatuto registra: “O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da Legislação vigente." Entre nós há um franco crescimento do envelhecimento, demonstrado de forma clara quando se busca, numa visão macro, o enquadramento de nosso País dentro de perspectivas universais atualizadas, da realidade da população idosa.

Hoje, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil tem cerca de 22 milhões de idosos. Destes, 6,5 milhões – aproximadamente – 30% exercem, plenamente, suas atividades laborativas, respondendo, num percentual de 55% pela renda dos domicílios onde se encontram.


A melhoria das condições de vida, o avanço da Medicina, entre outros, têm proporcionado o crescimento da população idosa, de tal forma que, segundo o próprio IBGE, há a inadiável necessidade de adequação da sociedade para permitir ao nacional alcançar a faixa de idosos, com melhor saúde e qualidade de vida, ambas, garantidoras, de uma velhice operacional, laborativa. Outrossim, há a previsão de que em 2020 teremos  a 5ª. população de idosos do mundo.

O assunto idade, trás a reboque incontáveis aspectos que o envolvem. Não há como desconhecer o PRECONCEITO, a escassez de oportunidades, a visão de que a medida em que envelhece o ser humano se torna um peso morto e que a grande maioria desconhece, por completo, os seus direitos. 

Há uma velada indução destinada a mostrar o idoso – ordinariamente o pobre - como uma pessoa destituída de razão e comando que, por tal situação, torna-se alvo de zombarias, crueldades, permanecendo à margem da sociedade.




Contraditoriamente, tem-se a figura dos idosos ricos, esses gozam de respeito e são bem recebidos pela sociedade em geral. Neles vê-se os cidadãos que comandaram e comandam seus destinos, são donos de sua vontade, fazem ginástica, praticam esportes, têm uma boa convivência social,  frequentam as redes sociais, exercem atividades de direção, são vistos pelo comércio como "grandes consumidores em geral", conhecem os seus direito e, rotineiramente, os exercem. 

Como nos demais segmentos constata-se a desigualdade, a ausência de conscientização do capital vital que o idoso, independentemente da condição social, intelectual e financeira, tem ou pode  oferecer aos mais jovens, a nação.


Há muita inquietação e medo relativamente a velhice. São muitas as indagações que vagueiam entre o porquê do envelhecimento? O como fazer para envelhecer sem sentir-se velho? Até quando trabalhar? Quais os direitos do cidadão e do familiar idoso? O que o Estado, a sociedade, efetivamente faz pelo idoso? Como funcionam e se funcionam realmente as políticas pró idosos, os conselhos que foram instituídos a partir da legislação específica? Como se posicionar ante a religião, a diversão, as relações humanas, o ser? 

São questões a serem abordadas num segundo momento e que dizem respeito a mim, a você e aos seus amigos que têm 60 anos ou mais. Essa porém será uma segunda abordagem, acompanhe-nos. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

QUINZE ANOS DE SAUDADES!

FAZER MEMÓRIA 



  
Como entender o tecido do tempo que se encarrega de diluir nosso sofrimento, embaçar nossa lembrança, enganar a memória e, ainda se atribui a autoridade de nos fazer viver, sorrir, crescer, apesar da dor. O tempo que segundo Machado de Assis “...é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro."

Pois bem, o tempo de que falo teve hora marcada, possivelmente num outro nível, num mundo espiritual, onde fora definido o dia 30 de outubro de 1997, pelas 04:00 horas. Poucos sabem o que significa a experiência vivenciada naquela ocasião.


A história vale, e muito, uma retrospectiva. Durante vinte e quatro anos vivemos a emoção de termos conosco, como sobrevivente de um primeiro infarto, a figura querida e carismática de meu Pai. Homem simples, nascido numa fazenda no Município de Sapé, no ano de 1924, sendo um dos nove filhos do agricultor Severino Henriques e da dona de casa Beatriz Maria do Espírito Santo que recebeu, na Pia Batismal, o nome de Álvaro Henriques David.

Colhi, através de diversos depoimentos, que foi uma criança esperta, cheia de vida e de idéias, um aluno aplicado e um filho cujo amor transcendeu a esfera das aparentes afeições. Das histórias de sua infância, trago na minha mente, o seu zelo para com o trabalho e com as coisas da família, uma vez que aos oito anos de idade o seu pai já lhe confiava a contagem e vigilância dos frutos  que vendia em sua fazenda, Quem conviveu com meu pai, conhece bem a história dos caminhões de laranja, tantas vezes repetidas que nos já sabíamos de cor..   

Interessado, vigilante, sentiu-se fortemente atraído pelo saber. Estudou em escola simples, do interior, até o exame de admissão. Entretanto, para o nosso orgulho e admiração transitava, tranquilamente pelo universo dos cálculos, da álgebra, da trigonometria e de outros; os números não tinham segredo para ele. Lembro que a minha irmã Socorro, hoje Engenheira e Servidora Pública Federal, em sua luta constante com a disciplina Cálculo, sempre podia contar com nosso Pai que, para ajudá-la, demonstrava toda a sua aptidão para a famigerada matéria.



Assim, aquele que fora aluno de “Seu Ferreira”, famoso e temido mestre-escola de Sapé, reproduzia com acerto e boa pronúncia, frases inteiras em inglês; possuía uma grande capacidade de interpretação e síntese, guardando de memória trechos enormes e poemas trabalhados na sua infância. 


Dessa escola forjada no desejo do velho mestre, lembro que meu Pai falava com orgulho de ter sido um aluno querido, jamais ter levado um só bolo (castigo aplicado com uma palmatória) ou mesmo ficado de castigo, ajoelhado sobre milho  ou com o rosto encostado na parede como era de costume na época  Não, meu  Pai não veio ao mundo à passeio, sempre teve uma missão e essa compreendia, entre muitas coisas, não deixar de ajudar a quem necessitasse.   

Aos dezoito anos sofreu o seu primeiro e maior revés, ficou órfão de pai, cuja perda se deu em virtude do agravamento da Diabetes, doença que vitimou meu avô aos quarenta e poucos anos, deixando uma profunda marca e da qual papai jamais se dissociou. Nos acostumamos, desde crianças, a reconhecer o dia vinte e quatro de julho, pela tristeza que o acometia, durante todos os anos de sua vida, nessa data o vi, muitas vezes,  com lágrimas, silenciosas, que desciam por seu rosto.


A vida mais uma vez seguiu o seu curso. Meu Pai conheceu o amor de sua vida, também em Sapé, cidade que tanto amava. Casou com mamãe, menina rica, que estudou interna, no Colégio Nossa Senhora do Rosário, em Alagoa Grande, dirigido por Irmãs Dorotéias, Ordem fundada por Madre Paola Frassinette, e que tocava piano e lia em Francês. Todavia, todo o projeto de educação que a levou a diplomar-se no Curso Normal, aos dezesseis anos. O status de Professora não foi obstáculo para que se enamorasse, profundamente, daquele amigo de infância e que se tornaria seu marido, pai de seus cinco filhos e o grande companheiro de sua vida por quarenta e oito anos.

Pai extremamente dedicado aos seus filhos. Dono de uma visão fantástica.Tendo estudado apenas até o Exame de Admissão ao Ginásio, preocupava-se sobremaneira com a nossa formação, inclusive, a escolar. Assim, cada um de nós começou a sua peregrinação, de Santa Rita para João Pessoa, aos cinco anos de idade quando iniciava seu aprendizado na Capital. As mulheres no Colégio Nossa Senhora de Lourdes – as Lourdinas, e meu irmão mais velho no Colégio Arquidiocesano Pio XII. Lembro que minha irmã mais nova, Socorro, era tão pequena e achava tão difícil acordar as cinco e trinta da manhã que, somente após estar totalmente vestida era despertada e, quando acomodada para fazer o trajeto de uma cidade a outra,  normalmente o fazia dormindo até o colégio.


Sem qualquer formação específica, papai usava conosco a terapia do amor.  Incentivava a cada um de nós a buscar o crescimento interior, a cultuar o amor a Deus, o respeito ao próximo, a sermos honestos e éticos. De uma simplicidade nata tinha grande devoção ao Nosso Senhor do Bonfim e a Nossa Senhora da Penha. Lembro que insistia conosco, suas filhas para que nos dedicássemos aos estudos pois, apesar de entender que todos precisavam constituir uma família, dizia sempre que o melhor marido de uma mulher era a sua autonomia econômica e financeira.

Não permitia que brincássemos fora de casa. Minha mãe, na sua visão de mestra, influenciou-o a adquirir  excelentes obras que encheram a nossa infância e adolescência. O nosso imaginário foi invadido por gente como Aliéksei, Ivã e Dmitri Karamazovi, Anna Karenina, Lady Chatterley, ao  tempo em que o faziam, também, o Pirata Barba Negra, Robson Crusoé, Tarzan, Capitão Rodrigo, Ana Terra, Gabriela, Guma, Vadinho, Dona Flor , Pato Donald, Mandrake, Zorro, O Fantasma e os Pigmeus, Zé Carioca que conviviam tranquilamente com Emília, Narizinho e tantos outros personagens. Para meu Pai esse era um mundo maravilhoso e no qual ele fazia questão que nós entrássemos pela porta da frente.

Dele tenho as melhores lembranças. O amor que nos dedicava, o apelido carinhoso de “Londrina”, o gosto pela música de cantores e compositores nacionais que preferencialmente reverenciavam o romântico, o regional, os sentimentos puros; a paixão pelos esportes com ênfase, primeiro ao futebol, destacando os times de seu coração: Botafogo da Paraíba e do Rio de Janeiro e o Santos de Pelé, como ele assim o chamava e, em segundo o Voleibol, objeto de sua paixão e que praticara quando mais jovem e a que incentivara  minha irmã mais velha - Paula e a mais nova - Socorro, ambas levantadoras e igualmente apaixonadas.

Entre os momentos mágicos lembro que ao fazer quinze anos recebi dele uma gargantilha de ouro, um vidro de Fleur de Rocaille, um livro do Pequeno Príncipe e uma meia fina de seda. Para ele se iniciava uma nova etapa da minha vida.


Assim era meu Pai. Amava cantar e se deliciava entoando os versos românticos da Deusa da minha Rua e Fascinação, músicas que o deslumbravam. Dançava dentro de cada ritmo. O seu excesso de peso desaparecia na hora de rodopiar no salão nos conduzindo, encantando, divertindo. Todas as filhas dançavam com ele. O faziam com alegria e prazer. Dança de salão, marchinhas, frevo, tudo lhe caia bem. A alegria se espalhava por seu rosto, cobria-se de suor, dançava com o corpo e a alma, como tudo o que fazia, cheio de dedicação, tenacidade, perseguindo uma aproximação com a perfeição.

Trabalhador incansável, testemunhei muitas e muitas vezes, por ocasião das festas de final de ano, o inchaço de suas pernas  e os seus pés cobrirem-se de bolhas, causados pelo longo período em que permanecia de pé ou pelo constante ir e vir, normalmente iniciado as três e trinta da madrugada quando ia para a padaria que, naquela época, trabalhava em três turnos, com três turmas e um único dono.


Cuidadoso com o seu produto o meu Pai jamais entregou seu negócio à administração de quem quer que fosse, cuidava ele mesmo de cada detalhe e jamais deixou de tê-lo pronto na hora determinada, independentemente da presença ou não dos trabalhadores. Foram incontáveis as ocasiões que ausente o mestre, meu Pai arregaçava as mangas e preparava o que chamava de fermento que era, na verdade, a preparação de toda a massa, com medidas e quantidades precisas, para que fermentasse e ao chegar os operários que dariam prosseguimento numa segunda fase encontrassem tudo na mais perfeita ordem. Assim era aquele querido e resoluto homem que amava seu trabalho, orgulhava-se de ser panificador.

Habilidoso no trato com os demais era orgulhoso da forma como se relacionava com seus fregueses. Tinha sempre uma palavra amiga, um gesto carinhoso para com as crianças, um jeito especial de ser e fazer amigos. Guardo muito nítida em minha memória as vezes que o vi sair de casa para transportar uma mulher em trabalho de parto, para socorrer um doente, para auxiliar financeiramente um necessitado. Não era mão aberta, não gostava de jogar fora aquilo que adquirira com esforço e suor, mas, sabia reconhecer a verdadeira necessidade.Proprietário de padaria ramo classificado como Indústria e Comércio, jamais teve uma condenação na Justiça do Trabalho. Num tempo em que o empregador era apresentado ante as varas trabalhistas, sempre como vilão o meu Pai apenas por duas únicas vezes adentrou a uma sala de Audiências, saindo de cabeça erguida e sem sofrer uma só condenação.

Os seus filhos homens, Álvaro e Fábio, sempre foram tratados com seriedade e amizade. Depositava no mais velho a mais profunda confiança, via-o como um homem de bem que realmente é, tendo um enorme orgulho daquele que se incluía entre as primícias de sua descendência. Ao meu irmão mais novo dedicou um amor característico dos “finais de rama”, era severo mas capaz de atitudes inusitadas quando o assunto era Fábio.


Ávido por informações tornou-se um devorador de jornais e boas revistas, dentre elas Seleções e Veja, sobre as quais mergulhava, estando sempre em dia com a notícia. Conseguiu junto com sua inseparável companheira que os seus cinco filhos obtivessem graduação em nível superior. Sorriu, vibrou, dançou e se emocionou cada vez que alguém conseguia concluir o seu curso. Esse era meu Pai, participativo, um esteio para sua família e a quem muitos buscavam nos momentos de dificuldade.


Quis o destino que um sexto infarto o levasse. Sofrera o quinto e em razão de tal fato permanecera treze dias hospitalizado. De volta a sua casa, o acompanhei juntamente com os meus filhos - Fred e Luzia, fechando o meu apartamento. O meu coração estava pesado, alguma coisa sugeria que seria diferente. Ele também pressentia,  me pedira, na  véspera de sua partida, na presença  de minha mãe que não o deixasse ir para a UTI, ali sofrera profunda solidão pela falto de um rosto amigo; queria morrer em casa, em seu quarto, em sua cama, cercado por seus familiares.

Deus atendeu as suas preces. Na madrugada de 30 de outubro de 1997, descansava de um dia corrido onde trabalhara na PGE, durante a tarde e no Colégio e Curso Integral, ministrando aulas num cursinho noturno, preparatório para Concurso Público na área Jurídica; me sentia sufocada. Por volta da meia noite o surpreendi de pé, necessitava ir ao banheiro e tomar água. O acompanhei e seu olhar me disse claramente que permanecesse fora, respeitasse aquele momento seu, de fora, com muita apreensão esperei que terminasse e com muito cuidado o conduzi até a sua cama. Perguntei-lhe: “Papai o senhor precisa de mais alguma coisa? Ele me olhou com aqueles olhos castanhos, tão doces e disse, não minha filha vá descansar. Jamais poderia imaginar que seriam as últimas palavras que trocaríamos, ele que amava a vida, as flores, os pássaros e os seres humanos esta próximo a nos deixar.

Adormeci. Ao meu lado minha filha e num terceiro quarto, o meu filho. Ambos adolescentes e tendo por referência masculina em suas vidas, o Avô. Acordei com o som de um gemido. Corri, encontrei no corredor o meu filho e fui acompanhada  de minha filha. Encontrei meu Pai com as pernas fora da cama e o dorso em posição muito incômoda. Mamãe ao lado dele parecia não acreditar no que se passava. Rapidamente pedi que Luzia a tirasse de lá sob o pretexto de ligar para meu irmão.

Rapidamente busquei o isordil, Fred amparou Papai encostando –o em seu peito, olhando em seu olhos coloquei o comprimido sob a língua, segurei seu queixo por alguns instantes e permaneci com sua mãos entre as minhas acariciando-o, vi a vida ir aos poucos fugindo daqueles olhos tão gentis e especiais. Naqueles ínfimos segundos lembrei do que fora pedido pouco antes. Roguei a Deus misericórdia para meu Pai, mas, a dor e o sofrimento eram tão intenso que nada pode ser feito.

Meu irmão, médico, veio correndo a pé, de madrugada, apenas de calça de pijama. Do gemido para a confirmação do óbito foram intermináveis  dois minutos. O olhar de Álvaro não precisou de palavras, a lágrima silenciosa lembrou-me que era necessário despedir-se daqueles olhos e fechá-los para que visse melhor contemplando a eternidade. A dor rasgou o meu peito, suavemente fechei –os e , não sei de onde, tirei forças para agradecer a Deus pela misericórdia com aquele que foi um anjo em nossas vidas.

Mas, a dor não terminara. Como dizer a alguém que o amor de sua vida partiu? Como dizer a minha Mãe, tão frágil,  que o meu Pai se fora? Foi difícil, muito, muito mesmo.




A mim restou a certeza de que perdera uma parte importantíssima de minha vida. A sensação que tive foi a de que eu que já era pobre fiquei infinitamente mais pobre ainda pois perdera um dos tesouros de minha existência.

Hoje,  30 de outubro de 2012,  pela primeira vez em 15 anos, consegui escrever sobre o assunto, apenas sei que enquanto houver um resquício de vida, de sanidade em mim, jamais o esquecerei, jamais deixarei de ser grata por tudo o que recebi, o amor, a formação, os princípios cristão, a fé, a religião, o respeito aos outros, isso auferi  de um casal ímpar: Álvaro e Luzia, por quem agradeço e rogo a Deus todos os dia.