Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

REMINISCÊNCIAS E ATUALIDADES.

Quem nos idos de 1990 deixou de se emocionar com a  riqueza e profundidade de algumas célebres produções de Hollywood? Entre outros, assisti, naquela década, ao filme que considero um dos melhores que já vi. Trata-se do fantástico Sociedade dos Poetas Mortos”, produzido no ano de 1989, que teve a direção de Peter Weir nascido em Sydney, Australia, com magistral interpretação de Robin Williams e, ainda, Ethan Hawke. O filme se passa nos anos 50, trazendo um ex-aluno, que se tornara Professor de Literatura na Welton Academy, uma escola secundária e tradicional.
O Mestre, cuja visão de ensino repudia o método ortodoxo até então  empregado pela instituição, mostra-se, desde o início, avesso à rigidez de uma educação meramente destinada a repetição do que era ensinado. Nesse contexto o aluno era moldado segundo o seu educador. Não havia ambiente para o lúdico. Amoldar-se ou não a tradição era a diferença entre “ajustado e desajustado”.

O jovem professor, que confidencia aos alunos o seu desejo de ser chamado “Oh! Captain! My Captain lança um novo olhar sobre a vida e a educação, motivando-os a refletir sobre o que lhes era repassado. O filme evoca a emoção, os sentimentos verdadeiros que emergem dos textos e dos autores, provocando o alunado com a finalidade de torná-los, verdadeiramente, aprendizes na arte de viver.
Os alunos, adolescentes, cheios de vida e curiosidade, encontram naquela visão diferenciada a ruptura com um sistema acadêmico retrógrado,  autoritário que complementava a visão familiar dominante na sociedade. A simbiose da escola com o núcleo familiar podava os jovens, impedindo-os de florescerem diferentemente de seus pais. O mesmismo condenava-os a reproduzirem entendimentos, comportamentos e situações pré-estabelecidas.

Um marco, um divisor de águas, a Sociedade dos Poetas Mortos, retrata, também, um professor diferente, compromissado consigo e, com seus ideais. Um desbravador que se coloca lado a lado com os seus pupilos. Que emociona e se emociona a cada revelação obtida a partir das sugestões oferecidas e dos caminhos escolhidos. Há para o espectador a sensação de que o mestre vai construindo o seu saber juntamente com os alunos, a troca de conhecimentos, de experiências, é palpável.

O encanto, o entrosamento do mestre com seus alunos são compartilhados com a platéia quando, John Keating – Robin Williams, fala sobre a Sociedade dos Poetas Mortos. Coletividade na qual para se ter acesso, teria o candidato que ser um leitor freqüente, produzir versos, reunir-se para aprofundamento e deleite dos seus membros. O contraditório estava no fato do mestre, ex-aluno da escola, recusar-se a  dar  continuidade   aos   métodos   ali  utilizados; criar a sua própria metodologia, estimular sentimentos cunhar emoções, abandonar conceitos e preconceitos dominantes na sociedade.

Surpreendente no seu desenrolar, o filme dá aos alunos a sensação de que devem viver o dia de hoje como se fosse o último de suas vidas, com emoção. - “Carp Diem” propõe o Mestre. O mestre sugere a quebra de protótipos educacionais, John Keating, propõe outra conjuntura e mudanças de conceitos sobre o universo;  tece um  paralelo entre a vida efetivamente vivida e a ideal, aquela que todos deveriam viver. Acende no emocional, de cada um, concepções diferenciadas, sentimentos novos, idéias novas.


 O traço da tragédia fica por conta da morte do personagem Neil Perry, que sai de cena exatamente quando a vida lhe oferece probabilidade de proveito a cada momento, cultivando afinidade direta com a frase já referida: Carpe Diem (aproveite o dia). 
Ela é imolada em suicídio sob o pretexto mais fortemente narrado no filme, à brutalidade versus a vontade individual, essa, acrescida às injunções profissionalizantes, educacionais, capitalistas,  que  caracterizavam, já naquela época,  a sociedade global mundial.
Durante todo o espetáculo, é mostrado o valor das emoções humanas que se sobrepõem aos limites impostos pela sociedade, o valor atribuído a cada um é em razão de sua essência e não em aceitação a regras cegas, é o rompimento com o estático para que ocorra a renovação.
 Todavia, a manifesta transgressão de princípios, desvendada como sendo a linha mestra da história, entra em rota de colisão com a própria constituição da Sociedade dos Poetas Mortos, pela obrigação da leitura, da produção intelectual, da discussão com data e horário previamente definidos, numa sociedade cultuadora do intelecto, portanto e coerentemente, de livre acesso e permanência, sem metas a atingir.
A Sociedade ressalta criações de poetas famosos bem como dos participante/personagens, que se tornam inovadores e incitadores de atuações e pensamentos. Discutindo e analisando famosos, a Sociedade avalia o poeta Norte-americano Walt Whitman, precursor do verso livre naquela nação, utilizando para si a fala do poeta que chamava o  “captain” referindo-se a  Abraham Lincoln. Ainda, entre os grandes são citados no filme Shelley e Shakespeare.
A beleza do filme apenas é superada pelo extraordinário trabalho de Robin Williams que transforma um professor atemporal, atípico e contraditório numa figura humana incomparável, capaz de arrancar de dentro de nós momentos mágicos de emoção e prazer. Seu rosto, seus gestos e expressões levam o espectador a mergulhar naquele universo, a se transformar num adolescente, rompendo barreiras, reconciliando-se com suas aspirações e naturais sentimentos de rebeldia.

O ator, de inigualável atuações, nos conduz a um mundo novo. Com ele caminhamos floresta adentro, com a sensação do frio rodeando nosso corpo, quase podemos sentir a brisa suave soprando em nossos ouvidos. Os passos sobre folhas secas produzindo estalos e sobressaltos. A companheira inseparável de Keating, a liberdade abrindo suas portas acolhe os caminhantes em clareiras, cavernas e, sob luz tremulante, permite  que se desarrolhem os ouvidos da alma, que se colham a verdadeira poesia, bebendo da fonte primeira, a natureza, que envolve poetas e poemas, derramando  gotas mágicas de sentimentos.
É tão forte o envolvimento, ator, personagens e espectadores,  que nos vemos “presentes” , sofrendo com a pressão exercida pelo genitor do jovem Neil Perry, ao tomar conhecimento da decisão em seguir seus sentimentos, tornar-se um amante das letras, um poeta. A truculência da ameaça de tirá-lo da escola e matriculá-lo no colégio militar, leva-o por fim em sua vida. Nessa hora sentimo-nos impotentes e frustrados pela impossibilidade de mergulhar na história, modificar esse acontecimento que burla a nossa expectativa de que tudo vá mudar.
John Keating nos leva a repensar a nossa técnica pedagógica, o modelo de escola desejado e, especialmente, sobre a formação de cidadãos conscientes, coerentes, integrados, comunicativos, que se apercebam de suas potencialidades e percebam os demais. A proposta é construir criaturas humanas que não sejam permanentemente tolhidas em suas emoções e que possam exercitar suas emoções, seus sentimentos sem culpa, sem medos.

MAS, NÓS TAMBÉM TEMOS A NOSSA  SOCIEDADE DOS POETAS  MORTOS.

Nela encontramos beleza, amor, dor, perdão, paixão e afago entre tantos sentimento e emoções que a enriquecem. Poetas eruditos, cantando o amor, a liberdade, a arte, a vida. Poetas que conviveram com a morte como se essa fosse a sua amante, sua companheira. Poetas que não freqüentaram escola, academias ou quaisquer outras instituições. Poetas matutos que usam uma linguagem colorida, afetiva em cordéis ou não. Poetas que sequer sabiam ler mas que distribuíam versos e amor em palavras simples e sábias. Poetas bem vestidos, limpos, lavados. Poetas sujos, trazendo nas vestes e no corpo a areia das noites mal dormidas nas praias. Poetas convencionais, Poetas com permissão poética para serem e dizerem segundo as suas necessidades. Poetas com traços tão diferenciados que seria impossível enumerá-los.
A nossa terra é pródiga em talentos. A poesia nos deu o homem do século: Augusto dos Anjos; a rima de Jomar Souto;  a genialidade de Lúcio Lins; a vocação de  Ascendino Leite; a poesia matuta mas em nada inferior de Zé da Luz, e tantos outros. Infelizmente, no momento presente podemos dizer que cresceu a nossa Sociedade dos Poetas Mortos. Nós, Paraibanos, vimos partir nosso grande Poeta. Um homem que inquietou-se em busca de respostas, que viveu tão intensamente que se consumiu e foi consumido por sua paixão pela vida.
Ronaldo Cunha Lima, nascido na cidade de Guarabira. Bacharel em Direito pela Universidade Federal da Paraíba, membro das Academias Paraibana e Campinense de Letras, político – Democrata em sua essência,  de projeção nacional, ocupante de todos os cargos políticos de seu Estado natal,  viveu, em toda a sua extensão a sua veia poética, notabilizando-se ao chegar ao final de conhecido programa de televisão denominado “Sem Limite”, da extinta Rede Manchete, apresentado pelos saudosos J. Silvestre e Luís Armando Queirós, onde respondia sobre a vida e obra de Augusto dos Anjos, o paraibano do século, em verso. Pai de  Cássio,  Gal  e Savigny.
Não quero falar sobre Ronaldo. Não sobre o que se foi. A sua obra como Político, Poeta, Escritor, Homem Público, falará por ele, contará sua história, suas dores, seus amores, seus humores, enfim, dirá a todos nós quem foi o poeta Ronaldo Cunha Lima, permeando a saudade com um legado rico, profundo,  pontilhado de fé, emoção e sentimento. Um homem que assumiu o “Carp Diem” e, em homenagem a essa figura singular desfrutemos de:

RONALDO EM VERSO E PROSA - DOSE HOMEOPÁTICA .

HABEAS PINHO -

 Corria o ano de 1955, na cidade de Campina Grande, na Paraíba, onde jovens amigos,  boêmios,  faziam  serenata durante a madrugada do mês de junho, quando foram surpreendidos com a chegada da polícia que apreendeu o violão.
Frustrado, o grupo buscou o trabalho do
Jovem Advogado Ronaldo Cunha Lima, naquela ocasião recém-formado, conhecido e reconhecido, também, como um admirador da seresta. Como bom conhecedor da alma humana, ele buscou o Juiz de Direito competente,  intercedendo pela liberação do violão. O  Magistrado mostrou-se compreensivo dizendo que o livraria desde que lhe fosse peticionado, em forma de verso. Ronaldo, conforme a exigência judicial  requereu em Juízo, em verso,  para que fosse liberado o violão. Sua peça tomou a denominação "Habeas-Pinho" ou, para alguns “Hábeas-Corpus para um violão” e adorna escritórios advocatícios, bares de praias, quiosque, barraquinhas no Nordeste.
Essa é a famosa petição:
Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca:
O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola,
É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade,
Ao crime  ele nunca se mistura,
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida
Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém seu destino se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite,
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito,
É crime, porventura, o infeliz
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando ali as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

Autor: Ronaldo Cunha Lima, advogado.


O julgador, Dr. Arthur Moura, poeta e admirador dessa maravilhosa arte, apoderando-se, também, da rima, sentenciou sem afastar-se do tom:




"Para que eu não carregue remorso no coração,
Determino que seja entregue ao seu dono,
Desde logo, O malfadado violão! “

Recebo a Petição escrita em verso
E
, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
É desumana e vil destruição
De tudo, que há de belo no universo
.
Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz. 


TERCETOS - 
Extraídos de: Lima, Ronaldo Cunha. BREVES E LEVES; tercetos e outros poemas. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2004. 287 p.




NATUREZA MORTA

A fama do pintor, já não importa.
A natureza não existe morta:
o quadro é que parece não ter vida.

O MAR
                                              O mar corteja a praia e, uma a uma,
                                               as ondas pousam perolas de espuma
                                                 sobre seu ventre branco, umedecido.


A CARTA

Aquela carta, fiz bem em escondê-la.
Sinto , as vezes, vontade de retê-la
mas tenho medo de querer rasgá-la.

INDUÇÃO

                                                  A dúvida, afinal, esclarecida:
                                                   ela jamais se foi da minha vida.
                                                    Minha vida, sem ela, e que se foi.

                           DESPENHADEIRO

Porque eu te amei o quanto pude,
em dimensões de abismo e de altitude
o nosso amor se fez despenhadeiro.


MODORRA

Ancorado na barra de mar morto,
do navio um marujo espia o porto,
como quem se perdeu do horizonte.


                                                              AUSÊNCIA

Renasces, recompões e me retornas
paisagens mortas e lembranças mornas
mas tu mesma não vens para vivê-las.

O QUE RESTOU DE NÓS

Além do adeus, da lágrima velada,
do nosso amor se não restou mais nada,
fica, entretanto, o que restou de nós.


                                            ALHEAMENTO

                                          A vida não me alheie no absorto
                                                                     enquanto eu não me encontre, vivo ou morto,
                                                                     e, estando vivo, enquanto eu não me esqueça.

                                      SONHOS

                                                    Se nas horas dos dias de crescer
                                                       eu sonhava com o que queria ser,
                                                            hoje sonho em ter sido o que não fui.

TRAVESSIA

Ondas navegadas
marulham, cansadas,
nas encostas do cais.


POUCO A POUCO

                                                Assisto triste, aflito, quase louco
o nosso amor morrendo pouco a pouco                                                                                                      
                                                                  e meu querer sem poder fazer mais nada.
  
              
      ESPELHO

                        O espelho e o meu castigo.
                   Nele eu pareço comigo,
                            não com o que penso que sou.





O DISCURSO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA.
SENADO FEDERAL -12 DE NOVEMBRO DE 1998
Necessidade de regulamentação que preserve a língua nacional do avanço dos estrangeirismos, principalmente dos anglicismos, registrados em grande número na última edição do vocabulário ortográfico da língua portuguesa editado pela Academia Brasileira de Letras
"A língua portuguesa, como forma oficial de expressão, constitui patrimônio cultural brasileiro e, por isso, incumbe ao Poder Público e à comunidade o dever de promovê-la e protegê-la, em especial neste momento em que ela vem sofrendo constante e preocupante invasão de palavras e expressões estrangeiras. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, em sua edição mais recente, acresceu nada mais, nada menos que seis mil novas palavras, em sua maioria de origem inglesa.
O Presidente da Academia Brasileira de Letras, Professor Arnaldo Niskier, em artigo publicado no jornal A Folha de S. Paulo, edição de 15 de janeiro do corrente ano, sob o título "Na ponta da língua inculta e bela", cuja transcrição nos Anais da Casa desde já requeiro, produziu excelente e oportuna defesa da língua Pátria, advertindo-nos do risco da invasão estrangeira e da falta de cuidados que quase todos temos ao falar e escrever a nossa língua.
Rachel de Queiroz, em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, de maio último, já advertia para o bilingüismo emergente. É tempo de o Brasil cuidar melhor da língua pátria. Nem socializar os solecismos, nem elitizar os anglicismos. Nem a falsa cultura dos termos importados, nem a linguagem incorreta de erros primários. Este discurso tem o sentido de advertência e objetivo de apelo. Apelo ao Ministro da Educação e ao Ministro da Cultura para que, ouvida a Academia Brasileira de Letras, seja constituída uma comissão para o estabelecimento de regras para preservação e prestígio da língua portuguesa.
A maioria dos povos faz questão de preservar seu idioma. Quando a possibilidade de deterioração se torna muito grande, os legisladores intervêm para tentar impedir que isso ocorra. É o caso da França, que editou a Lei nº 94.665, de 4 de agosto de 1994, buscando disciplinar e prestigiar o uso da língua francesa.
No Brasil, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 2.893, de 1997, do eminente Deputado Remi Trinta, dispondo sobre o emprego do idioma oficial brasileiro, cuja aprovação rápida seria valiosa colaboração ao restabelecimento do nosso prestígio lingüístico.
Quando abordo as questões de nossa língua, sempre me lembro da minha época de escola.
Nos meus tempos de ginásio, em Campina Grande, estudei no velho e querido Colégio Diocesano Pio XI, parada obrigatória no itinerário das minhas lembranças e nas andanças das minhas saudades. Ali, fui aluno, aprovado com dificuldades, e, depois, fui professor, escolhido por generosidade. Um dia, o Professor Raimundo Gadelha Fontes, que nos ensinava Português, passou como dever de casa a leitura de um soneto de Olavo Bilac, intitulado Língua Portuguesa, que começa assim:
"Última flor do Lácio, inculta e bela, és, a um tempo, esplendor e sepultura"
Na sala de aula, o debate despertou em nós, alunos, o maior interesse pela língua pátria. O Professor nos falou de neologismo e de estrangeirismo, principalmente os anglicismos e os galicismos, palavras e expressões inglesas e francesas que entram no vocabulário do nosso cotidiano. Cada aluno teria que gravar, pelo menos, dez nomes franceses já incorporados ao nosso idioma. Para facilitar a memorização, preferi formar onze nomes, formando um time de futebol: abajur, chofer e butique; laquê, bisturi e filé; bureau, buquê, boné, toalete e purê.
A influência francesa, antes predominante, foi, aos poucos, abrindo espaço para os termos ingleses e é, hoje, cada vez mais crescente o anglicismo dentro do nosso idioma. Seja qual for o campo de atividades, o uso de palavras estrangeiras, notadamente inglesas, já se torna comum.
Na área dos esportes, por exemplo (e esporte já é uma palavra de origem inglesa), quase todas as práticas desportivas têm nome originário do inglês: futebol, tênis, basquetebol, vôlei, golfe, surfe, handebol, etc.
No ramo do Direito, também não é diferente. O writ, sucedâneo do mandamus latino, abriu porta para a common law, o due process of law, o impeachment e ainda a joint venture, o franchising, o leasing, o copyright, a holding, o lobby, a trading.
Com a globalização da economia, ficou mais fácil para o economês invadir o português: e tome open market, over night , spread, cash, fob, cif, trust, dumping, lockout, royalties, made in Brazil, hot money, etc. Já existe, inclusive, um Dicionário de Termos Financeiros e de Investimento, com mais de mil expressões inglesas, que me foi cedido ontem pelo Senador Esperidião Amin.
Na música, importamos o jazz, o swing, o reggae, o rock, o twist, o rap, o funk, a música country, e até o Falcão, nosso irreverente cantor, de forma cômica e irônica, dá ênfase ao inglês em suas letras, cantando: I´m not dog no (eu não sou cachorro, não!).
Na informática, a moda agora é site, mouse, byte, home page, shift, chip, e-mail, on line, software, game, afora os neologismos como deletar, formatar, navegar e clicar.
Hoje em dia, é esnobe, é chique, é VIP (very important person) usar palavras inglesas. Até as casas comerciais estão preferindo as denominações estrangeiras, mesmo que os produtos à venda sejam nacionais. No interior do Nordeste, um restaurante (e restaurante é nome francês), cuja especialidade é carne assada com macaxeira, adotou o nome de Steak Grill.
A invasão de termos estrangeiros tem sido tão intensa que ninguém estranharia se eu fizesse aqui o seguinte relato do meu cotidiano:
Fui ao freezer, abri uma coca diet; e saí cantarolando um jingle, enquanto ligava meu disc player para ouvir uma música new age.
Precisava de um relax. Meu check up indicava stress. Dei um time e fui ler um bestseller no living do meu flat. Desci ao playground; depois fui fazer o meu cooper. Na rua, vi novos outdoors e revi os velhos amigos do footing. Um deles comunicou-me a aquisição de uma nova maison, com quatro suites e até convidou-me para o open house. Marcamos, inclusive, um happy hour. Tomaríamos um drink, um scotch, de preferência on the rocks. O barman, muito chic, parecia um lord inglês. Perguntou-me se eu conhecia o novo point society da cidade: o TimeSquare, ali no Gilberto Salomão, que fica perto do Gaf, o La Basque e o Baby Beef, com serviço a la carte e self service. Preferi ir ao Mc Donald’s, para um lunch: um hamburger com milk shake. Dali, fui ao shopping center, onde vi lojas bem brasileiras, a começar pelas Lojas Americanas, seguidas por Cat Shoes, Company, Le Postiche, Lady, Lord, Le Mask, M. Officer, Truc’s, Dimpus, Bob’s, Ellus, Arby’s, Levi’s, Masson, Mainline, Buckman, Smuggler, Brummel, La Lente, Body for Sure, Mister Cat, Hugo Boss, Zoomp, Sport Center, Free Corner e Brooksfield. Sem muito money, comprei pouco: uma sweater para mim e um berloque para a minha esposa. Voltei para casa ou, aliás, para o flat, pensando no day after, o que fazer? Dei boa noite ao meu chofer, que, com muito fair play, respondeu-me: Good night.
Senhoras e senhores, muito obrigado, ou, se preferirem, thank you very much!"
Esta é uma amostra milimétrica do Advogado, do Poeta, do Intelectual, digno representante desta Paraíba na "Sociedade dos Poetas Mortos".


sexta-feira, 6 de julho de 2012

PERFUME, AMOR E VIDA. - PARTE II

O DESPERTAR

Os Cheiros, os odores, têm, ao longo dos tempos, permitido aos humanos, desenvolver sensações, que trazem a tona emoções as mais variadas possíveis. Por vezes aguçam a imaginação tornando-se uma cortina tênue a brincar com os nossos mais recônditos sentimentos. Noutras ocasiões tiram de dentro de nós lembranças que por si só causam certo mal estar.

No terreno da afetividade, o nosso sentimento em relação a alguém tem o condão de transformar o seu cheiro em algo particular, característico, único. Um parceiro no jogo da sedução, distingue o objeto de nosso desejo, marcando a sua passagem.  Já foi dito que “o perfume é mais que um simples acessório, ele faz o papel da nossa presença”.

Por outro lado é sabido que o sentido do olfato está unido ao sistema límbico do cérebro, que regula os sentimentos, a sexualidade, o temor e o alívio. O cheiro ideal é o que causa conforto e deleite, porque altera a condição da alma, melhora o humor. Muitas são as fragrâncias e, cada uma delas, pode suscitar reações  bastante diferentes entre si. Desse modo o aroma pode ser terapêutico, como é o caso do eucalipto que abre as vias respiratórias; doce, como no caso de amêndoas e outros;  ácidos cítrico, floral, amadeirado e, até, irritantes, como o que se desprende de algumas substâncias químicas. Determinados cheiros têm uma resposta intensa na memória, na disposição de espírito, na energia, na  libido - quando acendem a nossa sensualidade - refletindo, inclusive,  na saúde em geral. 
  
A história registra com ênfase  que a rainha Elisabeth da Hungria, no ano de 1370, criou uma fórmula a partir da concentração de óleos e essências com o nome de “ l’eau de la reine de Hongrie”. Esse  foi o primeiro perfume com fórmula própria, de que se tem conhecimento. Apesar de no século  XIII ser  notório o destaque da França no terreno da perfumaria e de ter sido nesse País que surgiram as primeiras escolas voltadas à formação de aprendizes e profissionais da área, foi, tão somente na segunda metade do século XVIII,  após a Revolução Francesa, que ocorreram avanços significante na produção de perfumes.

Chegara ao fim a parte histórica da perfumaria na qual as  composições se restringiam  a águas misturadas com flores. Começam a aparecer fórmulas que juntam fragrâncias de couro, almíscar e musgos. A partir dessa época o perfume é relacionado a encanto, sedução, simpatia e também ao erotismo. Assim, desde do séc. XIX, a narrativa do percurso deste produto começa a caminhar associada à moda. Nesse contexto a França é apontada como a origem da perfumaria e Paris como o centro da indústria do perfume.

Coerentemente com a evolução o desenvolvimento  da   perfumaria não para, especialmente  no    aspecto técnico.  Até   o século XVIII e início do século XIX a maciça produção das  fragrâncias   era extraída de substâncias   aromáticas     contidas  nas  plantas. Todavia,   a ciência impulsionou o melhoramento nos laboratórios, resultando num    salto   qualitativo.   Há,    com    essas mudanças,   a   utilização   de   substâncias sintéticas  que   imitam  a natureza e, que também ao   ser misturadas, resultam em perfumes exóticos.

Na história da humanidade, com o advento da revolução industrial, fecham-se portas, inicia-se uma nova era, ocorre a adoção de outras posturas. É nessa efervescência que os perfumistas começam a demarcar terrenos, produzindo perfumes que, efetivamente,  marcam épocas, tornam-se símbolo.

Vários foram os processos utilizados na obtenção de perfumes. A evolução de tais procedimentos caminhou pari passo com o desenvolvimento da sociedade humana. A princípio havia a queima de materiais que exalavam aroma agradáveis, o esmagar de flores, a maceração com a mistura dessas em óleo e gorduras,  a destilação, a compressão, a exsudação e outros métodos.

As essências e perfumes resultados do progresso na tecnologia,  paralelamente tornaram possíveis mudanças nas exigências  do público alvo, assim e de acordo com a época,   a preferência alterna entre  os perfumes cítricos, os florais, doces, exóticos,  amadeirados, além de outros,  o que perdura até a atualidade.

O perfume está presente no dia a dia. Convivemos com os que nos individualizam, os que perfumam as nossas casas, os que acalmam, como bálsamos, os que higienizam, os que compõem produtos de tocador como os desodorante, pós, talcos,  leites corporais, óleos, sais de banho, maquiagem e tantos outros itens identificados com a nossa sociedade.

Respeitando sua maneira de ser, cada pessoa busca aquilo que mais se adapta, mais se aproxima de sua personalidade. Há um cheiro para cada tipo de indivíduo seja ele contemporâneo, poético, atrevido, caliente, amoroso, suave. O perfume por vezes é o cartão de visitas do pretendente, do candidato ao emprego, da mulher apaixonada, da criança bem cuidada, do jovem que não se descuida, da jovem que se dispõe a encantar. 


O perfume tornou-se uma das principais formas de comunicação entre os amantes. A cuidadosa escolha de uma fragrância pode sinalizar o sentimento e a intenção dos parceiros.


Há Perfumes e perfumes. A diferença entre esses está em que alguns tornaram-se sinônimos de bom gosto,  caracterizando homens e mulheres, traçando um script destinado a uni-los no fogo da paixão. O perfume é mais do que um simples acessório, ele faz o papel da nossa presença. 

O PERFUME PODE TORNAR-SE O SÍMBOLO DE UMA VIDA –

Segundo o amplamente divulgado em diversos sites, artigos, enciclopédias  é um lugar comum a listagem dos mais famoso perfumes da história da humanidade, de forma que,   repetimos aqui o que é reiterado em termos de melhores do mundo, senão vejamos:

 O número 1. É impossível não se iniciar tal relação  sem mencionar Coco Chanel que além de marcar a moda,  deixou na perfumaria o registro que há 90 anos resume o lifestyle de sua grife: o Chanel N.º. 5, aquele que é considerado o mais vendido de todos os tempos. “Essa é a história do que acontece quando alguém cria algo que se torna tão grandioso que passa a definir sua vida”, descreve Tilar Mazzeo, autor do livro The Secret History of Chanel No.5. 

A fama do Chanel No. 5 atravessou décadas desde que foi incluído na nécessaire de Marilyn Monroe – que dizia usar apenas  duas gotas do envolvente perfume antes de dormir –, igualmente a, Jackie Kennedy, Nicole KidmanScarlett Johansson e até a Marlon Brando, se atribuiu a suposição do  uso desse  perfume. 

Com o tempo, ele se tornou o cheiro oficial da loja,  da marca e símbolo de status e do  amor. Mais do que um item de luxo, a fragrância lendária carrega o peso da assinatura de Mademoiselle Coco, que ao lado do perfumista Ernest Beaux combinou essências de rosas e jasmim para criar “um perfume como nenhum outro."

Um perfume que tem a essência de uma mulher”, disse Chanel.  O lançamento aconteceu em 1920, era o perfume mais caro da época e, depois do status de luxo alcançado pela obra, um episódio marcou Coco: a mudança da fabricação da França para New Jersey, nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra. “Isso é monstruoso”, teria dito a estilista. Mas um lado dark estava em cena ao mesmo tempo. Uma década depois da criação do Chanel No. 5, Coco vendeu 90% de suas ações, os novos donos internacionalizaram a produção para escapar da invasão alemã à França, mas a própria estilista flertou com o movimento nazista tendo um affair com um oficial da SS durante a ocupação.”
 
 2º - Coco Mademoiselle, Chanel - Criado há dez anos, nasceu com a missão de firmar a Chanel entre as marcas preferidas das jovens. Inspirado em duas consagradas fragrâncias da maison, Chanel Nº 5 e Coco, ganhou o acréscimo de notas frutais, como as de laranja e bergamota, que garantiram caráter mais moderno ao perfume. O toque final na receita de sucesso veio com o frasco: rosa, para cair no gosto das meninas, e com formato semelhante ao do Chanel Nº 5.

3º - J'adore, Dior - Desde o lançamento, em 1999,   a marca francesa investiu pesado para que J'adore fosse vinculado a um universo de luxo e riqueza - a começar pelo anúncio veiculado na época, no qual uma modelo submergia em uma piscina de ouro. O formato do frasco lembra o pescoço alongado por colares das mulheres da tribo massai, na África. Pêssego, orquídea e mandarina são as notas da essência que, até hoje, já originou quatro outras versões. A casa Dior colocou sofisticação e glamour em sua criação a partir da fragrância, passando pelo  designer de suas embalagens, fechando com brilhantismo face um marketing criativo, valorizador e com resposta altamente satisfatória junto ao público consumidor.
 

4º - Light Blue, Dolce & Gabbana - Em 2001, os estilistas italianos Domenico Dolce e Stefano Gabbana desenvolveram um perfume que, como poucos, fez sucesso rapidamente. "Ele combina notas de diversas famílias olfativas, como frutal, floral e amadeirada, mas nenhuma delas tem destaque. Isso assegura aroma delicado, bastante aceito entre as mulheres de todo o mundo", afirma Verônica Kato. Para compor a essência, misturam-se toques de bambu, jasmim e maçã verde. 
 
 
5º - Angel, Thierry Mugler - Lançado em 1992, foi o primeiro perfume a levar notas gourmands, como as de caramelo e mel. "Como o cheiro era bem doce, diferente do que existia até então, ele demorou dez anos para cair no gosto das mulheres", diz Júlia Fernandez, gerente de design olfativo da casa de fragrâncias International Flavors and Fragrances (IFF), em Nova York. Mais de uma dezena de edições limitadas já foram lançadas. Todas, em geral, próximas ao Natal. 


O Perfume Angel de Thierry Mugler é  descrito pelo perfumista como "resultado de uma inusitada e envolvente mistura de inúmeras notas. Nesse sedutor perfume feminino as notas se misturam variando entre brutalidade e ternura, resultando na original e envolvente fragrância frutal oriental. As notas em destaque são o patchouli, o caramelo e a baunilha, seguidas das mais saborosas frutas e encantadoras flores; tudo reunido num charmoso frasco no formato de estrela, que nos leva ao céu."
6º - Pleasures, Estée Lauder - Idealizado em 1995, é uma fragrância floral, com violeta, peônia, jasmim e rosa. "Queridinhas das mulheres, as notas de flores, com apelo romântico, são encontradas em boa parte das essências lançadas nessa época", afirma o perfumista Adilson Rato, da casa de fragrâncias Firmenich, em São Paulo. O sucesso de Pleasures levou a marca a criar cosméticos e outras quatro versões da essência.



7º - Chance, Chanel. Aproveitando o sucesso de Coco Mademoiselle, Chance foi lançado em 2003 com o mesmo propósito: atrair as jovens. Para isso, o frasco ganhou roupagem mais informal e foram incluídas notas de cidra e baunilha. "É o que chamamos de memória olfativa. A estrutura do perfume permanece quase a mesma, fazendo com que a mulher reconheça o cheiro. Mas as novas notas trazem frescor", diz a perfumista Verônica Kato.

Mais uma vez a perfumaria criada por Coco Chanel  olha adiante e descobre a mulher que privilegia a "juventude que a brisa canta".

8º - Trésor, Lancôme"Trésor - Seguiu a mesma filosofia de Angel, de Thierry Mugler: fugir da moda das fragrâncias frescas e investir em uma essência marcante", diz Júlia Fernandez, da IFF. Criado em 1990 para se tornar símbolo da Lancôme e desde então presente na lista dos mais vendidos, traz notas de sândalo, almíscar e âmbar. O sucesso foi tamanho que outras marcas se inspiraram no perfume para criar loções hidratantes e xampus.


9º - Allure, Chanel - A fragrância surgiu no final dos anos 1990, momento em que perfumes considerados inovadores ganharam espaço", diz Júlia Fernandez. Traz notas de jasmim e rosa de maio, presentes em Chanel Nº 5, além de toques de cidra e tangerina. Uma versãocom apelo mais sensual, o Allure Sensuelle, com notas apimentadas, veio logo em seguida.

Com um nome e uma fórmula destinadas a suscitar intimidade Allure Sensualle é um perfume para vestir os namorados em momentos de paixão.


10º - Eternity, Calvin Klein - Em 1987, Calvin Klein presenteou a então esposa, Kelly, com uma aliança que continha gravada a palavra eternity, eternidade em inglês. O perfume nasceu no ano seguinte como uma homenagem a todas as histórias de amor. "E ternity é o símbolo romântico da mulher moderna e por isso virou objeto de desejo", diz Júlia. Leva notas de lírio, frésia e sálvia. R$ 261 (50 ml) Eternity, Calvin Klein.



O PERFUME ESTÁ NO CANCIONEIRO POPULAR: 

COM MESTRE CARTOLA

AS ROSAS NÃO FALAM

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim



NA POESIA:
PERFUMES

Tanto perfumosa é tua pele
Quanto à fulô dos cafezá
Que gruda no vento e saí
Levando teu cheiro pra li pra acolá,

A essência do teu cheiro é a
Única que quero lembrar, e
Mesmo depois de anos, dizer-te
Perfume igual o teu não há,




É cheiro com gosto de inocência 
Repleto de ternura e malícia,
Sei lá, mais acho que és tu
A pura essência da vida.

Foste deusa em meu jardim
E a mais bela flor, e nem mesmo
As margaridas exalam teu teor
Pois és tu minha essência de amor.

ENTRE OS PENSADORES -

Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las.

A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte.


O amor é o perfume das almas. 
Dom Hélder Câmara


sábado, 30 de junho de 2012

AMOR E DIREITO


DURA LEX SED LEX? -

 Os que me conhecem sabem que sou Advogada militante, venho nessa seara desde o ano de 1975 quando me inscrevi na OAB/PB, na condição de estagiária. Daquele ano, até o dia de hoje, experimentei, no exercício da profissão abraçada, sentimentos que alternaram entre alegria e tristeza, certeza de vitória, sensação de injustiça, amor e dor.

Muitas foram às pessoas as quais, como operadora do Direito, tive a oportunidade de realizar a defesa de suas pretensões, quer no polo ativo, quer no polo passivo das demandas. Nestes últimos, cinco anos conto com a ajuda preciosa de meu marido, companheiro em diversos segmentos de minha vida e, como eu, Advogado militante.

 Com enorme expectativa abraçamos a defesa de algo que para muitos parecia impossível. Trata-se de Ação de Guarda, em uma das Varas da Família da Comarca da Capital. Inusitada. O Magistrado titular daquela especializada já nos conhecia, noutras ocasiões estivéramos frente a frente, na defesa de constituintes que buscaram no Judiciário a mediação, a solução para litígios tão especiais. Este é o relato daquilo que considero a mais importante de todas as ações que patrocinei ao longo de trinta e cinco anos na faina diária.

Não se tratava de uma demanda comum. Nela coloquei meus conhecimentos, minha emoção, minha confiança em DEUS e a certeza de que o bem protegido ali era o mais precioso que se possa imaginar. Lutávamos por um pré-adolescente, pela defesa de seu direito e liberdade de escolha, batalhávamos para que aquele pudesse exercer o seu amor, o seu afeto, livre de amarras, independente, sem submissão. 

 Fomos procurados por uma Senhora que fora minha vizinha. Era um clássico caso de traição. O marido caíra de amores por outra e resolvera sair de casa. Por ocasião do rompimento esclarecera que voltaria para buscar o filho e que ela, a esposa, deveria desocupar o imóvel levando seus pertences pessoais. Tudo de forma ríspida sem maiores explicações.

Como profissionais a orientamos esclarecendo os seus direitos e o que poderia ser feito. Para nossa surpresa fomos informados de que o filho do casal, que nos conhecíamos de perto, não era filho biológico da esposa abandonada; que o seu casamento era, em relação ao varão, segundas núpcias, posto que viúvo de sua primeira mulher.

Cientes da situação, considerando as naturais dificuldades, nos concentramos em tecer um acordo que privilegiasse o filho, que atendesse as suas necessidades, quer afetivas quer materiais. Paralelamente buscamos a melhor composição para o casal uma vez que ao cônjuge não interessava uma reconciliação, até porquê, já estava convivendo com o seu novo amor.

 A história tem, portanto, componentes especiais. Um pai biológico que se afasta do lar em nome de um novo amor; uma madrasta que assumira a maternidade quando a criança contava apenas dois anos e três meses e havia perdido sua mãe biológica; um pré-adolescente que vê naquela, ora o anjo em sua vida, ora, como super-mãe, pedindo-lhe que lute por ele.

O feito – Ação de Guarda, tendo por autora uma madrasta e, requerido o pai biológico do menor, apresentou como fundamento a família atual sob a concepção eudemonista (que admite ser a felicidade individual ou coletiva o fundamento da conduta humana moral e que são moralmente boas as condutas que levam à felicidade), centrada nas relações de sentimento entre seus membros e baseada em uma comunhão de afeto recíproco. Assim o sistema familiar contemporâneo foi defendido com fulcros no afeto, base da entidade familiar, fermentada com a convivência, solidariedade e responsabilidades, inatas dessa instituição.


A documentação acostada, indubitavelmente registra a interação, a compreensão, a afetividade, o amor entre mãe e filho. A partir do convite de casamento, confeccionado em nome do casal e da, então, criança, mostrando o desenvolvimento, físico, psíquico, moral e social do menor, fotos, escritos, comunicações entre escola e mãe, estão documentados, tendo á frente, como guardiã e companheira de todas as horas, a madrasta requerente. Imbatível e incansável, na educação, na formação do caráter, no acompanhamento escolar, no trato doméstico e por ocasião de doença. Não existe vácuo, o cuidado, a atenção é integral. O retorno, um amor incondicional.

Num primeiro momento, por ocasião da audiência de Tentativa de Conciliação, tendo o Magistrado apenas a informação fria, letra aparentemente morta embora narrasse amor e vida, a promovente ouviu, aterrorizada, o Julgador indagar dos Advogados, o que pretendiam? Ouviu, ainda, daquela Autoridade que a pretensão deveria dar lugar a uma melhor orientação. O Ministério Público, por sua representante com assento naquela especializada, desde o início, manteve-se interrogativo, perscrutador, vigilante na sua missão constitucional de fiscal da lei, sem, todavia, olvidar as adequações impostas pela realidade de nossos dias.

 O feito desenvolveu-se num ritmo normal. Com audiências, estudo psíquico-social, arrolamento de testemunhas, entre estas uma tia – irmã biológica da falecida mãe do pré-adolescente; suspensão da ação; arquivamento, em face de lapso cometido relacionado a uma solicitação para viagem; desarquivamento, continuação, sentença, recursos e julgamento em segunda instância.

Na sentença, prolatada com brilhantismo e indiscutível sabedoria e, em apertada síntese, assim decidiu o Juiz originário:

SENTENÇA

Processo Nº.
Ação de Guarda de Menor
Promovente:
Promovido:
Juiz de Direito:

EMENTA:

AÇÃO DE GUARDA DE MENORES. INTERESSE DO MENOR. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA. PREVALÊNCIA DA GUARDA DA MÃE AFETIVA. PARECER MINISTERIAL PELA PROCEDÊNCIA DA AÇÃO. ACATAMENTO. PROCEDÊNCIA DA AÇÃO.

Ao exercício da guarda sobrepõe-se o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente, que não se pode delir, em momento algum, porquanto o instituto da guarda foi concebido, a rigor, para proteger o menor, para colocá-lo a salvo de situação de perigo, tornando perene sua ascensão á vida adulta.
........

Parecer do Ministério Público pelo deferimento da guarda provisória do menor à parte demandante.

Seguindo-se ao relatório:

DECISÃO –

“...
Ao analisar o caderno processual, verifica-se que o desentendimento lavrado entre o requerido e a requerente é profundo e aparentemente irreversível, o que implicou na separação dos mesmos. A separação judicial, traz consubstancialmente conseqüências de toda ordem, principalmente na educação do menor.

Espinhosa, por isso, a tarefa de resolver, em tal conjuntura, a quem mais bem deve caber a guarda da criança: se a madrasta, mãe por amor, que criou um imenso laço de amor, assumindo, para si o papel de verdadeira mãe ou ao pai que constituiu outra família, conquanto diga que é um pai presente, dedicado e atencioso.
...
Na análise das provas colhidas, bem como estudo psicossocial realizado, chega-se a conclusão de que, a madrasta, que assumiu o amor e a responsabilidade de verdadeira mãe, tem todo equilíbrio emocional, educacional e afetivo, para exercer a guarda do menor.
....

Não se perca de vista a circunstância, segundo a qual a autora, convive diuturnamente com a criança, repreendendo-a, incitando-a ao estudo, à prática de bons hábitos e obediência ao regramento da convivência social e caseira, tendo, inclusive abandonado a sua vida profissional para se dedicar ao cuidado do pequeno...

...

A criança, em conversa descontraída, informalmente com este juiz, o promotor, afirma que pretende ficar em companhia de sua mãe afetiva, ora requerente:

Desta forma, diante da manifestação do interesse do menor em ficar com sua mãe afetiva, deve ser aplicado o princípio do melhor interesse do menor, de maneira a contribuir efetivamente para o crescimento e o desenvolvimento saudável desse menor,

...

Ante o quadro fático e jurídico apresentado, entendo que a prova carreada aos autos, pela autora, evidenciou comprovadamente o alegado na peça preambular, a ponto de levar este juiz ao deferimento do pedido.

Destarte, JULGO PROCEDENTE a ação de guarda de menores, isto em sintonia com o Ministério Público, e com apoio nos substratos jurídicos e jurisprudenciais nominados, aforada por............, antes qualificada, e determino que a guarda do menor..............fique com a autora, por todas as razões acima elencadas, sendo assegurado o direito de visitas aos pai toda semana......”.


Inconformado com a decisão o promovido manejou recurso de Apelação e a promovente também o fez, por entender que a visita semanal iniciando no sábado pela manhã até o domingo as 18hs00, a privaria de qualquer lazer com o filho.


EM SESSÃO NOTÁVEL, uma das Câmaras Cíveis desta Comarca da Capital, tendo parecer da Procuradoria do Ministério Público Estadual, favorável à Manutenção da Sentença, na forma prolatada; e, com o voto do Desembargador Relator expressando a exata compreensão resultante dos laços da afetividade; sustentação oral desta Advogada, na condição de mãe e militante do direito; voto dos demais Desembargadores, fundamentados e produzidos com a atenção centrada em todos os aspectos especialíssimos da demanda, PRODUZIU-SE, À UNANIMIDADE, VEREDICTO PELA MANUTENÇÃO DO JULGADO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA.


 É Magistral o julgamento que hoje trouxe para vocês. O atendimento do pleito, desde a primeira instância, demonstra, insofismavelmente, que a Magistratura da Paraíba, um dos menores Estados da Federação, através do Juízo de Vara de Família, especificamente via Juiz sentenciante, responde a indagação Bíblica contida no Livro de Jô, 28, ORIGEM DA SABEDORIA: DE ONDE VEM, POIS, A SABEDORIA? E, indo também, os Doutos Desembargadores, além de tabus, situações pré-estabelecidas, como o fez o Eminente Juiz prolator da Decisão, verão que a fonte da sabedoria extrapola a Lei e, por vezes, reveste-se de um olhar apurado, da percepção de sentimentos, da capacidade de vislumbrar o carinho a proteção, resultante dos laços da afetividade e, neste aspecto ter a sensibilidade de que, em família, a origem da sabedoria está no equilíbrio, no amor consciente, participativo.

NUMA ÚLTIMA OBSERVAÇÃO REGISTRA-SE POR OPORTUNO SER A PRIMEIRA VEZ QUE, NA JUSTIÇA DA PARAÍBA É DEFERIDA A GUARDA DE UM MENOR A SUA MADRASTA EM DETRIMENTO DO PAI BIOLÓGICO. AINDA E POR AMOR AO DIREITO E JUSTIÇA ME ATREVO A AFIRMAR QUE, AO LONGO DESSE PERÍODO, 22 DE MARÇO DE 2010 A JUNHO DE 2012, NÃO ENCONTRAMOS NO JUDICIÁRIO PÁTRIO NENHUM CASO SEMELHANTE AO DESCRITO.

Somos gratos a Deus pela oportunidade de ajudar a quem realmente necessitava de ajuda.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

E SÃO JOÃO,

 POR ONDE ANDA?

Onde está São João? Não aquele festejado com mais de 30 dias seguidos de forró, balões, comidas, quadrilhas, mastros, paus de sebo, crendices tipo: simpatias, adivinhações; fogos e fogueiras, “sacramentos”, como: casamentos, renovação de votos e batismos, à beira da fogueira. O que busco é aquele nascido atemporal, quando não havia para seus pais Zacarias e Isabel, sequer a esperança de deixar descendência.

São João em Campina Grande /Pb.
Cadê São João? Estava realmente nas ilhas de arrasta-pé? Nos forrobodós e arraiais, que aconteceram e ainda acontecem pelo Nordeste inteiro e, também, nas grandes cidades, nos locais de concentração de nordestinos que migraram em busca de sonhos. Estava nas encenações de reisado, no arrastado do xote, sambas de coco também conhecidos com rodas de coco ou no xaxado? 


Será que a maior festa popular brasileira é a legítima representação do João?  Não, claro que não. SãoJoão , aquele que nasceu desacreditado, pois seu próprio pai ao ter a promessa de Deus, falou sobre a sua dúvida, tem sua representação exatamente na firmeza que o cercou por toda a vida. Na certeza de que anunciava o Messias e de que necessitava  combater os ímpios  e os falsos adoradores. Quanto ao seu pai ,  o seu descrédito, foram as últimas palavras do sacerdote que imediatamente foi tomado por uma mudez inexplicável.

Quadrilha, dança para velhos e novos.
E São João? Ah, certamente não estava no meio dos moços e velhos que, independente da idade, mostraram suas aptidões exibindo-se em largas danças, rodadas, passos marcados, requebros, mesuras e permissões que desconhecem artrite e outros males. 

Gente, não é a este São João que me refiro. Falo sobre um menino que estremeceu, ainda no ventre de sua mãe, ao receber a visita de Maria, mãe do Salvador. É isso, pergunto sobre aquele que venceu a velhice, desconheceu as barreiras dos hormônios, vingou num ventre tido e havido como estéril, por longos anos.

O figurino
E a comemoração do São João, como foi? Sem dúvida nenhuma o fizemos em grande estilo. Roupa nova: para as crianças pequenas, os costumeiros “trajes matutos”, vestidos rodados, com babados, bicos e rendas, enfeites e muitas cores e, para os meninos a tradicional camisa quadriculada e calças Jeans. Os pré-adolescentes já pediram calças, saias, blusas amarradas na cintura, botas de cano longo e salto, este ano, com muita força, roupas de couro e suas imitações. Aos adultos, embora “o figurino fosse exigente”, mais que a roupa interessou o lugar, as companhias e os “ACONTECIMENTOS”.

Essas vestes guardaram alguma correlação com o São João? É evidente, pois as festas Juninas são verdadeiramente ligadas ao homem do campo, aquele “matuto, caipira”, do mato, da roça, que trabalha sob o sol e sob a chuva, aquele que acorda ao som dos galos, a luz dos primeiros raios de sol, que escuta músicas ao som de acordeom (sanfona), cavaquinho, zabumba, pandeiro e triângulo.... . Pelo menos era assim. Mas o São João, aquele que também se chamava Batista e dormia ao relento, no deserto, sob uma pele de animal e que tinha por despertador o sol sob seu rosto, também cantava e dançava ao som de tão agradáveis instrumentos? E para São João, o que se tornou sua marca registrada no quesito vestimenta?

São João do Carneirinho
Onde anda aquele, supostamente desequilibrado, que vestia couro de carneiro, tinha por dieta gafanhotos e mel? Onde está o menino de cabelos encaracolados, ora representado com um cordeirinho nos braços, ora com uma expressão dura, um cajado nas mãos, vociferando contra a luxuria, o adultério, o descumprimento das Sagradas Escrituras. Aquele que condenou as bacanais de Herodes, a traição de Herodíades e a disponibilidade de Salomé.

Sim, São João, ele está no calendário.  Na folhinha, como chamam os mais simples. Na Bíblia, como dizem os católicos e no anuário, como conhecem os que realmente são praticantes do exercício diário da fé. Mas será só isso? Uma data, festas por todo o País. Tem mais, enganam-se os que pensam em privatização do Santo.  


Não é só no Brasil que se tem tal “devoção.”, digo, festejos. Na Europa, historicamente uma festa pagã, liga o acontecimento aos chamado solstício de verão, isso, segundo o calendário pré-Gregoriano. Mesmo na atualidade, a fogueira de São João é um traço de união entre países que celebram o Santo, como é o caso de Portugal, Finlândia, França, Noruega, Suécia, Estônia, Irlanda, Reino Unido, entre outros. Também há festejos, em nome de São João nos Estados Unidos, Porto Rico, Canadá e Austrália. Isso, mas São João como fica?

São João Batista
A voz que preparou os caminhos do Messias. Aquele que era primo de Jesus o Nazareno e que o batizou, não com água, mas, com o fogo do Espírito Santo. São João Batista que se opôs aos poderosos da época, afrontou aos doutores de lei que se submetiam ao jugo de Roma, condenou o desvario, pagou com a própria vida.

São João Batista, o precursor de Jesus Cristo, filho de Isabel que era prima de Maria, da casa de Davi. Filho de um sacerdote e uma mulher profundamente religiosa, que pertencia a uma irmandade denominada “as filhas de Aarão”, que tinham por obrigação vários rituais e procedimentos religiosos. Teve como professores o seu pai e os demais sacerdotes, como criança educada na Sinagoga, aos 14 anos completou seu estudos iniciais e foi levado a Engedi onde se daria sua iniciação na educação nazarita, na comunidade liderada por Ebner.   

Entre 18 e 19 anos João Batista perde o seu pai. Nesta hora de angústia põe a prova um de seus votos: “não tocar nos mortos” que fizera juntamente com a abstinência de bebidas intoxicantes e deixar os cabelos crescer. João, com a morte de seu genitor passou a ter a responsabilidade de manter a sua mãe, mudando-se para Hebron, adotando o pastoreio como fonte de sobrevivência. Com o falecimento de sua mãe, se desfaz de todos os bens materiais e começa a sua vida da forma como se tornou reconhecido.

O Batismo
Por suas andanças e exortações foi, constantemente, comparado a Elias. Sua forma de falar, de vestir e mesmo o seu pensar são característicos do Profeta, tendo João se tornado, para muitos, a re-encarnação de Elias. 

Inclusive, no Evangelho de Lucas, há a referência de que o espírito de Elias atuava sobre João, sobre suas ações. Sua principal missão: a vinda do Messias; sua crítica voraz, o adultério de Herodes e Herodíades; seu grande momento, o Batismo de Jesus; sua saída deste mundo, numa bandeja de prata, servido como prêmio a Salomé que em troca prometera dançar para o Rei e deitar-se com aquele, como era costume posto que dançar para o rei, especificamente para aquele, era assumir o seu leito, ainda que por uma única noite.


Conta a lenda que  Herodes, louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez!" Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: "Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!" Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata."


A voz que clama no deserto
Pois é, lembrar o pastor com ares de louco, coberto de andrajos, alimentado por frutas silvestres, pequenos gafanhotos, mas, arauto da mais perfeita realeza de que se tem notícia, não é muito comum, não combina com a dança, com a paquera, com as comidas ou as bebidas. E ai, o que fazer? No mínimo uma expiação como esta e, agradecer a Deus, a São João e a todos os Santos e Santas de Junho, Santo Antônio, aquele da conexão com cupido; a São Pedro, o pescador de homens que, segundo a crença, tem as chaves do céu, a Senhora Santana, avó, que foi de Jesus. Agradecer a chance de mais uma vez poder reunir famílias em torno de uma mesma oração, ter em mente uma mesma diversão e, prometer, quem sabe, com um pouco de esforço, no próximo Junho lembrar também daquele homenzinho, João Batista, consagrado e que admoestava a todos visando à purificação através do batismo.

João Batista mais uma vez surpreende. Não pertence ao Cristianismo. É universal e holístico. Para evangélicos da Igreja Batista, esta provém de João Batista, sendo, portanto a única e verdadeira. Para o Espiritismo, é a re-encarnação de Elias. Na Ubanda é o Orixá-Xangô; é, ainda, o patrono dos Maçons e reverenciado como um dos profetas Muçulmanos.

Simplicidade na Fé
Pois é, o São João amados por Nordestinos passeia livremente por esse mundo de Meu Deus, tem devotos por todos os lados e demonstração de fé as mais curiosas possíveis. Isso é outra história. Por hora peço a João Batista que me redima se, animada pelos folguedos, esqueci um pouco o Santo, levei-o no coração para onde fui, mas, não fiz minha oração. Faço-a agora e convido a todas a fazê-la.



ORAÇÃO A SÃO JOÃO BATISTA


São João Batista, voz que clama no deserto: “Endireitai os caminhos do Senhor... fazei penitência, porque no meio de vós está quem vós não conheceis e do qual eu não sou digno de desatar os cordões das sandálias”, ajudai-me a fazer penitência das minhas faltas para que eu me torne digno do perdão daquele que vós anunciastes com estas palavras: “Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo”.
São João, pregador da penitência, rogai por nós.
São João, precursor do Messias, rogai por nós.
São João, alegria do povo, rogai por nós. 


 Ah, quase esqueci, São João anda no coração de todos que gostam de coisas simples, verdadeiras e que são dádivas diárias de nosso Senhor.
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