Quem sou eu? O que faço

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João Pessoa, Paraíba, Brazil
Quem sou? O que faço. Sou Maria de Lourdes, tenho, agora, 62 anos, esposa, mãe e avó, formação jurídica, com pós graduação em Direitos Humanos e Direito Processual Civil, além de um curso não concluído de Filosofia. Conheci os clássicos muito cedo, pois não tinha permissão para brincar na rua. Nosso universo – meu e de meus irmãos – era invadido, diariamente, por mestres da literatura universal, por nossos grandes autores, por contistas da literatura infanto-juvenil, revistas de informação como Seleções e/ou os populares gibis. Todos válidos para alimentar nossa sede de conhecimento. Gosto de conversar, ler, trabalhar, ouvir música, dançar. Adoro rir, ter amigos e amar. No trabalho me realizo à medida que consigo estabelecer a verdade, desconstruir a mentira, fazer valer direitos quando a injustiça parece ser a regra. Tenho a pretensão de informar, conversar, brincar com as palavras e os fatos que possam ser descritos ou comentados sob uma visão diferente. Venham comigo, embarquem nessa viagem que promete ser, a um só tempo, séria e divertida; suave e densa; clássica e atual. Somente me acompanhando você poderá exercer seu direito à críticas. Conto com sua atenção.

domingo, 15 de abril de 2012

EDUCAÇÃO COMO FATOR DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

EDUCAÇÃO , DESENVOLVIMENTO. 

PARTE I –



Impulsos Neurais
Falar sobre a educação é sempre um desafio, especialmente hoje quando se multiplicam as fontes, os autores, os conceitos, os vieses. Quando o acesso à educação torna-se fator de transcendência do homem porquanto permite a correta apreensão de seu Ser, de seu habitat, de suas origens e possibilidades, o aprimoramento de sua inteligência, conferindo valores a ética e a dialética, a liberdade e a sensibilidade.

Todo e qualquer olhar sobre a sociedade humana, se não o faz, deveria fazê-lo: definir a historia, os acontecimentos, a relação entre as ocorrências e as mudanças, como ponto de partida para análise e inserção do assunto referido, desse modo a primeira abordagem, sob qualquer interesse da sociedade, torna-se efetivamente coerente quando se dá dentro de evolução histórica.

Naturalmente, torna-se impossível, num texto sem maiores pretensões, fazer toda exposição cronológica dos fatos que escreveram o percurso histórico  da educação na civilização humana, tal cronologia já foi reiteradamente estabelecida e nos permite ser mais objetivos.
 
BREVE CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS  -

EDUCAÇÃO  PRIMITIVA –


 Enquanto fase Histórica, a educação primitiva, no alvorecer da humanidade, ocorria com base na observação, na repetição e no sucesso da resposta produzida ante a reiteração de determinada prática. 

Assim, sem uma base científica, a maioria dos autores, ao discorrer sobre essa fase incivilizada, colocam a educação quase como sinônimo de aprendizagem, acontecendo através da  observação, ora das tarefas, a caça, da pesca, ora dos costumes religiosos - mais precisamente rituais -, dos acontecimentos relativos a fenômenos naturais bem como, dos atos e preparativos concernentes à  guerra.

  
A encenação da caça
 Aprender e apreender era uma questão, por vezes de sobrevivência e, invariavelmente de observar atitudes mecânicas – o fazer; o encadeamento de práticas com resultados positivos tornava o homem consciente de uma realidade, pois passa a  entender o que se passa a sua volta e o que fazer para obter aquilo que deseja.

A educação se caracteriza nesse período, muito mais no aspecto corporal cujo fim é intuitivo, almejava-se o atendimento de necessidades específicas como alimentar-se, vestir-se e abrigar-se, tudo significando sobreviver e ordenando situações diárias, inclusive, com atividades de jogos, delineando-se, dessa forma, o que seria uma sugestão à educação física. 


Em busca do fogo
 Numa outra observação entende-se que a repetição tem fim pedagógico dês que desse comportamento amiudado resulta o aperfeiçoamento, o conhecimento que capacita o membro da comunidade tornando-o apto ao atendimento de suas carências e das de outros indivíduos. Conclui-se que há um esboço de Educação intelectual, pois ocorre progresso em sua atividade física ao tempo em que há o  aprimoramento de sua inteligência.


Registro de luta cotidiana
Igualmente, alguns aspectos são marcantes e transcendem a época. Assim, o iterar práticas de respeito aos velhos e aos pais, o culto aos antepassados, ao sentimento da honra, à fidelidade à palavra empenhada, à obediência às autoridades legítima, o hábitos de rituais e práticas religiosas, por mais rudimentares que fossem denotavam educação moral e religiosa ou, pelo menos uma silhueta do que se projetaria como tal. 

Da pré-história, dos povos primitivos  chegaram até nós registros de pesca, caça, dança, rituais, em inúmeras pinturas e desenhos, como se tivesse a função precípua de mostrar, ensinar. No início da Idade Antiga são destacadas as concepções e práticas educativas das culturas indiana, chinesa, egípcia e hebréia.


A EDUCAÇÃO E O POVO GREGO -

Muitos historiadores enfatizam a impossibilidade de se referir à educação sem realçar a civilização grega. É belo o registro feito sobre esse povo que desde os primórdios já considerava a Educação como algo complexo, difícil. Assim, especialmente no que concerne a arte de educar, os gregos, efetivamente, principiam o que se chamou de “História da Educação”, dentro de uma visão que se assemelha ao nossa definição atual.

Teoria Atômica Grega




De fato, ao volvermos a nossa atenção para a Educação na História Universal, sua evolução ao longo do túnel do tempo, vemos que a civilização grega contribuiu, largamente, para tornar  o mundo um cenário expressivo onde aprender é um processo ininterrupto de crescimento intelectual, físico e  moral , capaz de  proporcionar a integração do ser humano à sociedade.  

A Grécia, entre outros tesouros culturais, nos legou a primeira teoria atômica de que se tem registro.



Educação - do latim educatione educere "sacar, extraer" ou educare "formar, instruir" - Com os gregos é lançada pela primeira vez com a conotação de problema; também o é, a idéia de “educar” profissionalmente, que surge com os Sofistas. Ainda é naquele celeiro intelectual que a literatura, através da poesia, da tragédia e mesmo da comédia questiona o que até então se conceituava como Educação.


Aedo em apresentação
Puramente mítica, a Grécia em meados do século V e século VI justifica as atuações humanas pelo sobrenatural, pela sorte, pelo sublime, pelo divino. Desse modo, há uma difusão oral dos costumes, das ocorrências, da moral, por meio de “ rapsodos” - nome dado a artistas, trovadores andarilhos que, utilizando-se de odes já compostas,  cantavam  relatos épicos ou os declamavam, de memória, nos espaços públicos. 

Com destaque ainda mais pertinente os  “aedos” – que compunham suas próprias obras e as cantavam acompanhados da lira, instrumento musical de sons suaves e agradáveis aos ouvidos. 



Rapsódia
Heródoto –  pai da História, já relata a ocorrência de concurso para rapsodos. Essas figuras históricas ressoam até os nossos dias, com destaque para a passagem da narrativa oral para a escrita, da obra de Homero, supostamente, por um rapsodo de nome Pisistrato, que tornou possível, entre outras,  a ampliação da divulgação do relato da Guerra de Tróia na epopéia Ilíadas; bem como a Odisséia, que descreve o regresso de Ulisses e a Ítaca, narrativa posterior a guerra de Tróia. 

Em todas esses épicos  percebe-se a intenção de contar, repassar e transmitir conhecimentos, inclusive através de representações denominadas rapsódias.

Platão e Aristóteles
Ensinar algo que não tenha aplicação prática imediata, que não se constitua “ fazer e sim apreender”, tornou-se presente no século V a.C, inicialmente com os Sofistas e a partir desses com Sócrates, Platão, Isócrates e Aristóteles. Com esses filósofos vislumbra-se para a Educação um novo enfoque, com a conotação de tese filosófica.

A civilização ocidental reconhece alguns títulos imputados aos Gregos, assim, entre outros, são chamados de Pais da Filosofia, Criadores da Democracia e Berço da Pedagogia. Com muita propriedade, também no século V, desenvolveram os  princípios e ideários da Paidéia que foram fundamentados em práticas educativas ancestrais. 


 Conforme significado original do vocábulo “ paidéia” sintetizava o modo, a forma para criação de meninos, entretanto, sua significação expande-se e no século IV a.C., passa a adotar  uma configuração consolidada e categórica a partir do qual   foi convencionado, na Grécia Clássica, como modelo perfeito de ideal educacional.

Todavia, como bem explicita Werner Jaeger, estudioso da cultura grega "Não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da educação grega, porque esta palavra só aparece no século V" (Jaeger, 1995: 25).

IDADE MÉDIA –

Nesse imenso período medieval, os historiadores registram que a educação  desenvolvia-se em laços associativos, comungando os mesmos entendimentos “com a Igreja, a fé cristã e as instituições sacras que – enquanto acolhiam os oratores (os especialistas da palavra, os sapientes, os cultos, distintos dos bellatores e dos laboratores) – eram as únicas delegadas (com as corporações no plano profissional) a educar, a formar, a conformar”.





Originaram-se dentro da Igreja padrões educativos e suas metodologias.  Da Igreja partiram os modelos e os método de ensino, estabeleciam-se as instituições ad hoc e planejava-se as ingerência, analisando, criticando e, portanto, discutindo o exercício e os padrões, segundo a posição na escala social.

 Havia  um projeto educacional para o povo e um para as classe altas, até porque, na Idade Média o dualismo existente na era primitiva persistiu, como de fato persiste até os nossos dia.




O formato da escola, como  vivenciada em nossos dias, mantém os moldes estruturais da Idade Média. Assim a rotina presencial de um professor que instrui diversos alunos, de diferentes origens, estando o mestre hierarquicamente subordinado a um poder, ao qual presta constas de seu ofício; a aprendizagem relacionada leitura e a autores, ao debate, ao desempenho, a explanação, à argumentação; as avaliações com seus prêmios e castigos, sugere a continuidade, aos séculos nos quais vêm daquela época e da coordenação dos estudos nos monastérios, nas catedrais e,  de forma especial nas universidades. 


 Remontam a Idade Média certos conhecimentos acolhidos e repetidos na escola moderna e, também, na escola atual: como a visão da filosofia, como lógica e metafísica; a atribuição e contribuição dada ao e pelo latim; a instrução gramatical e a oratória.

Também na Idade Média a cartografia revela-se de suma importância , especificamente no que diz respeito a instrumentalizar as navegações. Surgida em 2.500 a.C, ganha notável impulso nos últimos seculos da Idade Medieval, lembrado que este período foi do século V ao XV.

A Idade Média é reconhecida como um período de efervescência cultural, especialmente quando se adentra no chamado Renascimento de Países como a Holanda, a Alemanha, Espanha, Inglaterra e/ou cidades como Veneza, Gênova, Florença, Siena, Lisboa, Coimbra, Paris, Flandres, Pisa vivenciaram uma verdadeira febre cultural e, também educacional com o surgimento e aprimoramento do ensino voltado para perfeição do espírito, para o fomento da nobreza, da ética e dos bons propósitos norteadores de um novo homem


 OUTROS REGISTROS -


Merece referência, ainda, a educação Romana. O texto - base da educação romana, conforme Cícero, resumiu-se, por um longo período nas Doze tábuas, cuja origem remonta a  451 a.C.,fixadas no bronze e publicadas no fórum, para que a exposição daquelas permitisse a todos vê-las para que todos pudessem vê-las. 

Naquelas ressaltava-se a importância da  tradição com ênfase ao respeito a regras e normas;  a cultura materializada  na assimilação social dos valores do povo romano; ainda ao espírito dos pais, assim considerado como senhores detentores da justiça familiar o chamado “pátria potestas”. Havia, uma rudimentar forma de “Código Civil”, marcantemente conservador preservando meios de subordinação social características de uma coletividade agrícola retrógrada.



Num império decadente onde o conquistador perdeu sua identidade cultural, ante a absorção da cultura dos conquistados mas  que lega ao mundo preciosos ensinamentos do Direito Romano, fundamento e base de muitos institutos de Direito que até hoje compõem o nosso arcabouço jurídico.

 É nessa fonte que vamos buscar conhecimentos  que fundamentam  as normas do direito civil brasileiro, bem como português, dentre outros que também teem o Direito Romano como norte a ser seguido .

 
Sendo uma tarefa a exigir uma explanação muito ampla, quando a educação no Brasil, de um modo geral ainda repete em muitos espaços senão a metodologia mas o modelo do colonizador, se tem nisto mais uma razão a reforçar de pronto o mergulho específico em  nosso caminhar, não somente no sentido de escolaridade mas de meio de redenção, esperança de desenvolvimento. 

A nossa matéria na segunda parte, enfoca a educação como esperança de fuga a condições sociais econômicas desfavoráveis bem como formar cidadãos. Inclusive, com vista a tentar a compreensão de alguns fatos, algumas colocações e conclusões, recentes sobre o desejo da execelência no ensino como utópico e fonte de atraso ao que efetivamente se poderia obter.
Mas esse é outro momento. 
Conto com vocês

domingo, 8 de abril de 2012

A PÁSCOA


 PÁSCOA -

O VOCÁBULO -

"Páscoa" – do hebreu "peschad", em grego "paskha" e latim "pache" – tem o sentido de "passagem", uma trajetória iniciada pelo equinócio da primavera ou ponto vernal, que no hemisfério norte ou boreal - ocorre a 20 ou 21 de março e, no sul, em 22 ou 23 de setembro. Sendo, por tais motivos, antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo,  anunciadora do término do inverno e do advento da primavera.

Entretanto, para apreensão do significado e discernimento do que representa a Páscoa cristã, se faz indispensável um mergulho na Idade Média rememorando ancestrais pagãos europeus que cultuavam e prestavam homenagem, nesta época do ano, a Ostera, ou Esther – em inglês, Easter, quem vem a ser Páscoa.


Ostera é a Deusa da Primavera da mitologia Nórdica, cuja representação é feita a partir de uma divindade feminina  que tem em sua mão um ovo e  um coelho - símbolo da fertilidade - saltitando festivamente em volta dos seus pés desnudos. Com uma rica significação, até mesmo pela sugestão de renovação de vida, a deusa e o ovo que traz consigo, são alegorias do início de uma nova vida. Presente noutros universos mitológicos, Ostera, na mitologia grega é Persephone, enquanto que na romana, é Ceres.

A festividade de Ostera celebra a fecundidade, sendo um clássico e antigo festejo pagão em comemoração ao acontecimento da chegada de uma outra estação, para os antigos, marcava o Equinócio da Primavera. Desse modo Ostera simboliza e representa a renovação da terra. Em sua festa a fertilidade é cultuada através de cerimônias típicas e símbolos. 

Revigorada pelo inverno a fertilidade se apresenta em perfeito equilíbrio, logo após a estação das chuvas. Nessa ocasião os dias e as noites têm igual duração. A luz noturna divide-se em números de horas iguais a luz diurna. Diz o mito que a deusa Ostera é o reflexo da perfeição da natureza, a restauração do espírito e da mente.

 Sua face transforma-se a cada toque da brisa. Deusa que é das flores, dos frutos, dos animais recém-nascidos, da Primavera, onde a fertilidade se prenuncia, regozija -se ante a presença de novos seres, deixando sua zona de conforto entre as árvores e permitindo ante a visão da vida renovada que sua essência também seja revigorada. Como muitos deuses da mitologia nórdica, Ostera também foi Cristanizada.

A DEUSA NÓRDICA – 

Diz o mito que a deusa Ostera amava as crianças e onde fosse era seguida por elas que também a amavam, em razão de sua beleza, de seu canto suave e belo, de sua magia que as encantava.  Assim, num belo dia estando num jardim com pequeninos à  sua volta, a divindade teve sua atenção desviada pelo vôo de um lindo pássaro que após breve vôo pousou em suas mãos. Com magia transformou-se no animalzinho predileto da deide que era uma lebre, as crianças ficaram felicíssimas e maravilhadas.

Mas a medida que o tempo passava, as crianças repararam que a lebre não se mostrava feliz com sua transformação, pois não podia cantar e também não podia voar. Ante a tristeza do animalzinho os pequenos  pediram a deusa que desfizesse a mágica. Condoída Ostera utilizou todo os seus conhecimentos sobre magia e, mesmo assim, não conseguiu reverter o encanto. Era fato consumado e nada podia ser feito. Em seu íntimo a deusa resolveu aguardar a chegada do inverno, que diminuiria seu poder, na esperança de que com o advento da Primavera, renovada em sua força, pudesse, pelo menos por alguns instantes, devolver a forma de pássaro à lebre e assim proporcionar-lhe alguma alegria.  


Com a chegada da Primavera, refeita em seus poderes e magia, a deusa conseguiu transformar a lebre em pássaro por algum tempo. Profundamente grata a pequena ave pôs ovos  em homenagem a  Ostera. Em tributo a Ostera e as crianças, a lebre pintou os ovos e os distribuiu por todo o mundo. A deusa como forma de lembrar a atitude impensada do pássaro, de intervir na natureza, esculpiu a silhueta de uma lebre na lua  que pode ser vista até os dias de hoje.


Há, ainda, o mito de que a denominação Páscoa foi dada pelo deus saxão da fertilidade – Eostre -  que participa das festividades na forma de um coelho, razão pela qual tomou-se o símbolo do coelho de páscoa  na tradição cristã, simbolizando, também, a fertilidade e a fortuna.


O VERDADEIRO SENTIDO DA PÁSCOA

Uma festa com sentido religioso, seja no culto de mitos, seja no fazer memória de passagens e ritos religiosos. Ainda que aos olhos de muitos, a tradição pagã de homenagear a chegada da Primavera seja entendida como tal, para os povos daquela época as festividades tinham uma conotação mista de sacro e profana.  Isto porquê  era dedicada a deusa, tinha a participação de um deus e, por assim dizer, celebrava o milagre da eterna renovação da vida.


 Para o povo judeu, Páscoa é sinônimo de libertação, passagem, festa de fé. A história da Páscoa Hebraica encontra-se inserida no Velho Testamento, no Livro do Êxodo – 12.1-28 - que o coloca, aproximadamente, no ano de 1250 a.C, sendo essa a mais importante celebração do seu  calendário. A festividade marca a libertação do povo judeu do jugo Egípcio, ocasião em que Moisés, liderando os seus, liberta-os de Ramsés – o faraó -  e os guia através do Mar vermelho e do deserto do Sinai. 

A peregrinação pelo deserto, por quarenta anos; a aliança celebrada no Monte Sinai com sua materialização nas Tábuas dos Dez Mandamentos, dados a Moisés por Deus, opera a transformação dos fatos em fé, dês que de histórico – escravidão pelo conquistador, fuga e liberdade – passa a Páscoa a renovar o significado da crença do povo Hebreu no DEUS de amor e misericórdia que os livrou da casa de escravidão.


Ainda, a passagem pelo Mar Vermelho, cujas águas se afastaram para permitir a fuga dos ex-escravos, perseguidos por um povo liderado por um faraó colérico, tornou-se um referencial na história dos judeus, sendo rememorada todos os anos. Nesse período o povo judeu faz o pão ázimo – sem fermento e chamado “matzá”, produzindo-o da mesma forma e pressa que não permitiu a fermentação naquele momento de fuga para a liberdade, para a vida.

Finalmente, num terceiro aspecto, os Hebreus, anualmente, na Primavera, quando na lua cheia, ocorria a celebração da Páscoa sacrificando um cordeiro, puro, sem mácula, que juntamente com o pão ázimo fazia memória da ordem transmitida a Moisés e referida no Livro do Êxodo 12.21.26-27, também com registro no Deuteronômio 12.42. Além do sacrifício do cordeiro e do consumo do matzá, os judeus ficavam em vigília,  como recordação da fuga do Egito, ocorrendo desse modo a continuação e passagem da tradição às novas gerações. 

Mais uma vez, os Hebreus foram submetidos a estrangeiros. A comemoração da Páscoa passou a ter não só a motivação do passado mas e também uma conotação futurista, como expressão da crença na liberdade, esperança essa que os livraria de toda opressão, de forma única e derradeira, com a vitória  sobre a escravidão e o início de um mundo novo, cumprindo-se, dessa forma, a promessa há muito feita ao povo hebreu, que se via como o povo escolhido por DEUS.     

A PÁSCOA CRISTÃ –
Traz um sentido novo de aceitação, de crença na boa nova traduzida nas palavras de Jesus Cristo. A Páscoa cristã revela e confirma o Verbo Encarnado, o Deus Homem, o ministério terreno do Deus Criador que se consuma através do Cordeiro e de sua missão salvadora.

Nesse contexto referido temos a notícia do acontecimento maior da civilização cristã. Um menino veio ao mundo, nascido de uma virgem, Deus, único e verdadeiro, que experimentou todas as facetas da humanidade, menos o pecado. Sua passagem entre nós nos lega, além da extraordinária missão, os textos do Evangelho, testemunhos vivos de um caminhar que mudaria a face da terra, ditando uma inversão, segundo a qual a Lei fora feita para o homem e não o homem para a Lei.

A humanidade contamina-se com a boa nova, o Cristo nos mostra uma época que chega a seu final e a instalação de um novo tempo, moldando uma nova consciência libertadora. O homem se faz novo, tal qual argila moldado no Espírito, livre do pecado. O cordeiro foi imolado, seu sangue redimiu a todos. O Calvário é um símbolo de uma nova aliança firmada com sangue. O Cristo sinaliza a necessidade da morte do homem velho - a morte para o mundo e o nascimento para Deus.  É ELE O CORDEIRO PASCAL.


 “A última ceia teria sido na quinta-feira, véspera da Páscoa (14 Nisan), tendo Jesus sido preso pela polícia do templo, liderada por Judas. Foi levado ao antigo sumo sacerdote Anás para interrogação e dali enviado para o sumo sacerdote Caifás, em cuja casa passou a noite.
 "Na sexta-feira de manhã (14 Nisan) o sinédrio se reuniu e decidiu entregar Jesus ao governador romano, acusado de sedição. Pilatos ouviu o caso e propôs ao povo a anistia a um prisioneiro. O povo preferindo Barrabás, Jesus foi condenado à cruz.(...) Jesus teria sido crucificado ao meio- dia da véspera da Páscoa (14 Nisan), tendo morrido às três horas da tarde, em presença apenas de algumas mulheres da Galileia. 

Com a autorização de Pilatos, José de Arimateia ou José e Nicodemos sepultaram o corpo de Jesus em uma tumba antes do pôr do sol, no dia 7 de abril de 30 d.C.”.
(2009, p.89) Comentários ao texto “A Morte Do Jesus Histórico”, de John Dominic Crossan por Pedro Paulo A. Funari, professor titular do Departamento de História do IFCH/ Unicamp e coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp).


A ressurreição do Cristo, a vitória sobre a morte, o triunfo sobre o pecado, experiência singular que modifica sobremaneira a humanidade. Dois milênios nos separam daquela semana em que Cristo foi imolado, todavia, até hoje é o ressuscitado que chama, atrai e converte as almas para DEUS.  A história viva do sangue derramado por todos nós nos incute responsabilidade de nos tornarmos multiplicadores e testemunhas de sua missão gloriosa, sem a qual possivelmente a humanidade teria afundado no egoísmo, na solidão, na imensa tristeza de não ter consigo a certeza da existência de DEUS.

A Páscoa cristã chega até nós, preservada a partir dos discípulos,  das primeiras comunidades e, por figuras ímpares do Cristianismo como Paulo, os evangelistas, Mateus, Marcos,  Lucas e João que relatam desde o nascimento, o início da missão de Jesus, o maravilhoso Sermão das Montanha, os milagres, as curas, o ministério de Jesus, as Parábolas, a dádiva da oração ensinada por Jesus e que se traduz num inquestionável código de ética, a Paixão e Ressurreição de Jesus através da qual as trevas que caíam sobre a humanidade foram afastadas e deram lugar a Luz de DEUS.



A Paixão de Cristo, ato de amor aos homens, além do profundo teor religioso guarda uma inegável ética. O filho unigênito imolado no altar do Amor. A renúncia a condição Divina, o não ao que seria o afastamento do cálice, a dor da mãe na entrega do Filho, a certeza de uma vida nova, a ressurreição, tudo isso é PÁSCOA, tudo isso é vida plena, tudo isso é dádiva de DEUS PARA OS HOMENS.




SÍMBOLOS DA PÁSCOA: 



A deusa revigorada




 
Coelhos




Ovos pintados




 


O sangue que salva

  
A Santa Ceia

O Cordeiro Pascal


A Ressurreição

O Peixe
A Páscoa Judaíca
A Páscoa e a criança

A TODOS UMA FELIZ PÁSCOA CHEIA DE REFLEXÕES, RESPONSABILIDADES E AMOR.



quarta-feira, 28 de março de 2012

UM POUCO DE NIETZSCHE

Breves Considerações -


Como falar em Nietzsche? O que dizer sobre ele? Suas idéias, sua vocação para a negação, sua sempre presente necessidade do contraditório. Com Nietzsche nada é comum, nada é fácil. A razão, a virtude, a felicidade, a fé são defrontadas com a irracionalidade,  a inferioridade, a potência e a crença na mente do homem.

Ler Nietzsche é ter a certeza de que nada é o que parece, os mais arraigados conceitos, as certezas, as verdades, nada disso importa, não há esperança de podermos coordenar pensamentos, alinhar hipóteses na tentativa de se obter conclusões. Com ele se tem o inusitado, o irreal, o impessoal, o impensável como algo que nos invade, nos causa repulsa mas, simultaneamente,  ocupa o nosso intelecto, torna-se recorrente e, via de regra, implanta uma  dúvida, ou a idéia do absurdo, da recusa e/ou da curiosidade.

O pensamento de Heráclito, Empédocles, os ideários Apolo e Dionísio, a riqueza do nascimento póstumo, do devir, do eterno retorno, em Nietzsche tudo segue seu curso, entretanto, pode ser como um fogo que tudo consome; um rio caudaloso que tudo arrasta ou  uma nevasca que congela, a única coisa que não se pode  negar é que deixa rastros, conquista adeptos.

Em suas obras repercutem a negação do valor moral, do cristianismo e da fé cristã, das verdades estabelecidas e, também,  a fixação dos grandes erros da filosofia.   Assim, podemos ter uma amostragem da apreensão desses valores e a expressão de seu pensamento -  de desafio à moral pelo teor de suas obras -, sempre voltadas a desqualificá-la conforme seu desejo.  Em 1886 tornou-se conhecido, quando o crítico dinamarquês Georg Brandes passou a elogiá-lo publicamente.

SOBRE O HOMEM –


A negação da fé
 FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE, filósofo alemão, nasceu a 15 de outubro de 1844, em Rocken, nas proximidades de Leipzing, Prússia (  Alemanha),  filho de  Karl Ludwig, nascido numa família de tradição Luterana, cujos avós eram Pastores; até sua adolescência freqüentava a Igreja e  dava indícios de que também se tornaria pastor. Morreu aos 25 de Agosto de 1900, aos 55 anos de idade.

Mas será isso mesmo?   Em Nietzsche há sempre algo a ser revisto. Apontado como de nacionalidade alemã, observa-se, contudo, que na época de seu nascimento havia o Reino Prussiano, que era um reino alemão nos idos de  1701 a 1918, sendo, a partir de 1871 o mais importante Estado membro do Império Alemão e onde se localizava a urbe de Rocken, local de nascimento do filósofo .

Aluno brilhante
Somava, esse reino, quase dois terços da área alemã. Dentre os historiadores vamos encontrar aqueles que atribuem a Friedrich Wilhelm Nietzsche a nacionalidade Prussiana. Para tornar a história ainda mais nietzscheana ele, que assume o devir, surpreende  e renuncia a sua cidadania, misto de Alemã  e Prussiana, assumindo a cidadania Suíça.

Aluno brilhante, pré-adolescente tranqüilo, na adolescência começa a afastar-se dos ensinamentos religiosos. Posteriormente, abraçando a filosofia, estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para Universidade de Leipzig, local aonde inicia a leitura de Shopenhauer (O Mundo como Vontade e Representação) e, aos 24 anos é nomeado professor de Filologia da Universidade de Basiléia.


Nietzsche, na juventude, adota os conceitos que motivam grande parte dos alemães, almeja uma nação unificada e credita à Alemanha uma cultura superior a todas as outras; nesse período cultua seus heróis, afina-se com a causa alemã e a realpolitik de Bismark, aprova e defende  à guerra contra a Áustria, em 1866 e, ainda nesse mesmo ano se envolve no processo eleitoral para o parlamento; em sua febre nacionalista, alista-se, voluntariamente,  como enfermeiro,  na guerra franco-prussiana deflagrada em 1870. A violência, a dor existente no palco do conflito o impressionam, piorando seu estado de saúde e motivando o seu desligamento num curto período de dois meses. 

A contemplação
 Em Nietzsche há um turbilhão de opostos. A elaboração intelectual de Apolo e de Dionísio, habitando um mesmo homem, exige e revela genialidade. Em Dionísio, o filósofo, simbolizou a natureza, o excesso e a irracionalidade: o homem, seus vícios, desejos e paixões,  fazendo o contraponto com Apolo, a quem atribui o espírito da ordem, da racionalidade e da harmonia intelectual, que seria o homem bom, sereno, contemplativo. 

Há nesse modo de pensar uma interrogação que paira no ar. Quem era o verdadeiro herói, Apolo ou Dionísio? A quem imitar na arte e na vida?

Admirava Hõlderlin, Freud, Voltaire, Goethe a quem considerava o último grande alemão.  Demonstrava profundo respeito e apreço por Shopenhauer, Wagner e Rilke. Sua exaltação a música de Wagner, antes de polemizar com esse, bem como o resgate dos mitos primitivos do povo germânico, tiveram o condão de suscitar na ideologia nazista a tentativa de apropriação de seu pensamento, de sua filosofia, caracteristicamente assistemática e fragmentada, também, poética e crítica.

Lou Andreas-Salomé
 Numa das poucas alusões  à figuras femininas, quebrada essa ausência em sua vida apenas pelo forte elo familiar com sua mãe  e sua irmã, tem recusado seu pedido de casamento em duas ocasiões. Corria o ano de 1822 quando conheceu Paul Rée e Lou Andreas-Salomé, uma jovem russa, culta e de espírito vivaz,  pela qual apaixona-se acreditando ser correspondido. Pede-a em casamento e é recusado, apesar de receber da amada a certeza de sua amizade, do desejo de estar com ele, privar de sua companhia. Foram amigos.

Após a decepção – no aspecto amoroso, visto que por duas vezes tentara, inutilmente, constituir laços matrimoniais -, numa temporada em Nice,  começa a escrever sua obra " Assim Falou Zaratustra". Nietzsche não para de escrever, alucinada e continuadamente. Este momento finda brutalmente em data de 3 de janeiro de 1889, quando é acometido por mais uma crise de loucura, que o acompanhará pelo resto de sua vida.  É colocado sob a tutela da sua mãe e sua irmã.

Em crise
No princípio desta insanidade, Nietzsche encarna sucessivamente as criaturas míticas: Dionísio e Cristo, registrando esses acontecimentos em estranhas cartas, caindo, após cada delírio, em um mutismo quase completo, jamais conseguiu fugir a esse ciclo, até que sobreveio a  sua morte. 

Alguns dizem que foi contaminado por Sífilis, todavia e conforme informação de pesquisas recentes, há uma indicação de que fora acometido por um cancro no cérebro, que possivelmente teve sua origem na Sífilis.

Com o seu falecimento e, segundo um plano previamente estabelecido por ele, datado de 17 de março de 1887,  sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche e Peter Gast, querido amigo do filósofo,  realizaram uma compilação de fragmentos póstumos para editar a obra titulada  “ Vontade de Poder”.

SOBRE A OBRA –


Assinatura
Uma incógnita, incompreendido por muitos, intensamente admirado por anunciar a libertação através da visão filosófica, reconhecido por todos quantos se aventurem na preciosa viagem rumo ao conhecimento,  Nietzsche é um dos  mais discutidos filósofos da atualidade.

 A sua inigualável tendência ao questionamento resultou em obras que são simultaneamente e, segundo a disposição literária de quem as  busca, imperdíveis e dispensáveis; geniais e confusas; incoerentes e pragmáticas; densas e mordazes; críticas e poéticas; terríveis em suas conclusões e belas em seu conteúdo e composição.

Sua obra, eminentemente, mas não exclusivamente filosófica é diversificada, uma vez que o filósofo se permitiu fazer reflexões e documentá-las, em maravilhosas criações, entre outros, no campo da Psicanálise, Religião, Educação, Sexualidade, Política, Arte, Moral e Estética.

Foi um gênio, capaz de afrontar e “desmistificar”, segundo um raciocínio pessoal, acepções incondicionais em torno de Deus, da verdade,  da razão, da moral, da fé;  perseguindo, incessantemente, o  desligamento  do homem em relação à metafísica.

Escreveu, em alguns momentos, de forma frenética e confirmadora de sua doença. A sua realidade parecia prenunciar o quanto seria efêmera a sua vida. Curta é certo,  mas absolutamente produtiva.

Deixou um legado fantástico com as seguintes publicações:

  • "O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música", iniciado em 1871 e publicado em 1872. Neste ano escreve e publica um mini discurso intitulado “A Kusta de Homero”;
  •  1873 -  escreve "A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos" e a "Introdução Teorética sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral" e tem sua primeira crise;
  •  1874 - são publicadas a "Segunda Consideração Extemporânea: Da utilidade e Desvantagens da História para a Vida", e a "Terceira: Schopenhauer educador";
  •   1876 - surge a "Quarta Consideração Extemporânea: Richard Wagner em Bayreuth"; 
  • em 1876 lança "Humano, demasiado Humano";
  •  1879 - redige duas continuações a "Humano demasiado Humano", as quais denomina: "Miscelânea de Opiniões e Sentenças" e "O andarilho e sua sombra", essa última publicada em 1880;
  •  1881 - publica "Aurora"  e tem a percepção sobre o "Eterno Retorno";
  • 1882 - escreve "A Gaia Ciência" ;
  •  No período de 1883 a 1885 - produz "Assim falou Zaratustra"; 
  •  1886 - surge "Para Além de Bem e Mal" ,  escreve os intróitos ao primeiro e segundo volumes de Humano, demasiado Humano, O Nascimento da Tragédia, Aurora e A Gaia Ciência, assim como a quinta parte deste livro;
  •  1887- Redige "O Niilismo Europeu" e publica "Para a Genealogia da Moral";
  •  1888, trabalha freneticamente e produz "O Caso Wagner, Crepúsculo dos Ídolos, O Anticristo, Ecce Homo e elabora Nietzsche contra Wagner e Ditirambos de Dioniso;
  •  1889, em meio a grandes crises passa a assinar como Dionísio ou como o Cristo;
  • 1890- Deixa a clínica de Jena sob a tutela da família. 
  • 1900- Morre a 25 de agosto em Weimar.
Elisabeth Förster-Nietzsche

A sua produção literária é rica e, fazer justiça a tal acervo consumiria anos de nossa atenção,   numa tentativa de entendê-la ou, pelo menos, no mínimo, conhecê-la no sentido literal.

Não há neste texto uma visão aprofundada da obra desse filósofo ímpar, o nosso percurso é de simples amostragem, sem maiores pretensões, em doses terapêuticas, para tanto é feita uma abordagem em idéias e valores recorrentes, com auxílio de Crepúsculo dos Deuses (1888), Assim falou Zaratustra (1883 a 1885), Genealogia da Moral (1887) e  Ecce Homo ( 1888 - publicado póst mortem).



ASSIM FALOU ZARATUSTRA -

Caminhemos, vejamos o que nos diz o filósofo em Assim falou Zaratustra (1883 a 1885), uma obra inicialmente em três volume, cujo autor sinalizava com a idéia de fazê-la com mais três tomos, tendo, todavia, escrito apenas mais um, completando quatro compêndios que foram unificados quando de sua publicação. É belo, poético, paradoxal, anunciador de "boas novas" a espíritos livres.

Desde a escolha do título - Zaratustra - que remete a um menino persa que nasceu sorrindo, destinado a colocar em rebuliço a mente humana e restringir o poder da religião - , já se prenunciava uma quebra com o tradicional, uma ruptura a tabus religiosos.
Todavia, além do título, inexiste qualquer ligação com o sábio persa.

Com uma filosofia focada na transmutação se antevia, nessa obra literária, o que  estava a caminho: uma nova mensagem e, sob esse ângulo, Nietzsche mostrou-se inigualável.

 O livro nos fala, numa linguagem linda, poética. A início, sobre um sábio que após dez anos de recolhimento , rodeado apenas por montanhas e seus animais: a serpente e a águia, representando o conhecimento e o orgulho, decide agradecer ao "sol" e descer para junto de seus semelhantes, encontrando um viandante, homem santo, surpreende-se que aquele não soubesse que "Deus está morto". Entrando na cidade anuncia a chegada de um "super-homem" e constata a frieza dos homens, ressaltando a idéia da solidão.
                                                       

Nessa obra, Nietzsche, se propõe de forma mais direta a revelar, sob uma ótica própria como enxerga o mundo,  o desejo de tornar-se, de vir a ser, que é o devir, "a água corrente que fluindo o tempo todo permanece a mesma",  ressalta, ainda, a semelhança do eterno embate apolíneo-dionisíaco de construção e desconstrução, de modos de ser. O filósofo busca demonstrar a não substância, aquilo que não é a essência, não é dominante, não se perpetua em modelos eternos, qual seja: a disputa de forças, o jogo das causas, o agitar-se incessante e contínuo  de um universo instável que, permanentemente, se faz e se desfaz . 


Vislumbra-se, por assim dizer a necessidade de se estabelecer o caos para se chegar a Luz. No caminhar do autor são estabelecidos três momentos de transição . inicialmente com o espírito - sólido - que se mostra "pesado" como um camelo, em resposta ao fardo que carrega consigo mesmo e, dessa forma, corre solitariamente pelas areias do deserto (mundo); num segundo instante há a mutação do camelo em leão, quando o espírito se descobre e luta por sua liberdade para e assim tornar-se senhor de seu próprio destino; finalmente há a transmutação em uma criança, significando o esquecimento do conhecimento anterior, a inocência e portanto abertura a novos saberes, um novo recomeçar e afinal o devirUm rodopio, um deslocamento, uma perfeita harmonia . Há por conseguinte uma introdução à filosofia para o amanhã.

GENEALOGIA DA MORAL -


Ao nos debruçarmos sobre os dicionários de filosofia na tentativa de conceituar "genealogia", em sua primeira dicção vamos encontrar:" Em seu sentido corrente, designa o estudo e definição da filiação de certas idéias." Na filosofia o vocábulo surge com Nietzsche, em acirrada crítica e discussão da origem dos denominados valores morais, bem como das chamadas categorias filosóficas que na percepção nietzscheana, disfarçavam  esses valores e verdades estabelecidas no interesse e a serviço de indivíduos.

Fac simile
Na obra em comento, vê-se, repetidamente as palavras como juízos de valor, bom, mau, bom e ruim Ressentimento. Má Consciência. Ideal ascético.  Estabelecendo seu ponto de partida na dualidade do denominado juízo de valor, qual seja:  bom, mau; bom, ruim. O filósofo principia o que irá se tornar uma das mais discutidas de suas teorias.

 Polêmico, propõe  a inquietante tese acerca da origem verdadeira dos valores  “bem” e “mal”, indagando, também,  sob que circunstâncias o ser humano urdiu para si esses juízos de valor “bom” e “mau" e interroga sobre a existência de algum valor  a essas concepções e se essas  impediram ou realizaram, até aquela ocasião, o desenvolvimento do homem.

Põe, portanto, os valores morais tradicionais como interpretações.  Fundamenta seu pensamento, alternando e analisando, o que seria apreciação e depreciação da vida,  cônscio de que não se deve conceber os valores e as verdades intrinsicamente, nelas mesmas, mas, condicionando-lhes uma razão de ser somente quando relacionado à sua procedência.

Na primeira parte de sua crítica - genealogia da moral, indo além do bem e do mal, Nietzsche se vale de um procedimento interpretativo  da hierarquia dos valores morais, ressalta duplas apreciações que manifestam propensões morais inversas, rotulando-as como  a moral do senhor e a moral do escravo, estabelecendo, a partir de então, uma inversão sob a  constatação de que  significação aos chamados valores morais, somente é conferida através dos fracos, dos escravos.

Outra Edição
Cáustico em relação ao Cristianismo, aponta a Igreja como opressora, manipuladora e que através do sacerdócio opera a transmutação do doente em pecador, usando para esse fim o recurso de mudar a direção do ressentimento. Assim o filósofo responsabiliza a Igreja, pela introdução da culpabilidade no seio da humanidade. 

 Para Nietzsche a religião tem o condão de negar a vida real, incutir nos homens a idéia de um mundo superior e, também, que a vida terrena, o mundo em que vivemos, tem como função apenas servir de meio para a consecução de um fim, que seria o paraíso. Nietzsche sintetiza o seu pensamento em relação ao cristianísmo dizendo: "  O cristianísmo deu a Eros veneno para beber - ele não morreu é verdade, mas degenerou em vício."

O filósofo descreve o céu como sendo a recompensa do homem por ter sido fraco, destituído de paixão, vigor,  manietado por uma cultura que o domina, arranca-lhe o desejo, a potência. Em contrapartida diz que essa moral hipócrita que aprisiona o homem é totalmente contrária a causa primeira, fundamento e base que norteia o viver: o princípio  da expansão da força. A vontade de ter ou fazer, de possuir ou gozar, a cobiça, a ambição, o apetite, o querer, demonstram a força vital que conduz o homem livre das amarras da religião.

Criticando os valores morais tradicionais  Nietzsche,  busca, inicialmente, a origem das dualidades: "bom, mau" - "bom, ruim", decorrido todo o processo genealógico o filósofo diz que não há como coexistir a moral e a vida, a primeira sufoca a segunda, desfigurando-a. Para o homem sobreviver, segundo a sua natureza, terá que aniquilar a moral, assim a destruição da moral será a libertação da vida, plena e potente.  Desse modo, inexiste culpa e/ou  pecado, tudo é interpretação.

 Esta é, pois, uma obra destinada a gerar polêmicas.

 CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS - 

 Fios invisivéis e cruzados unem as obras de Nietsche, um filósofo decidido a desestruturar, até a última fronteira de verdades pré-estabelecidas, as quais denomina de ídolos.  Em sua  obra "Crepúsculo dos Ídolos ou Como se filosofa com o martelo", escrita no ano de 1888, no qual o autor escreveu freneticamente, permanece com a mesma linha de intelecção, constituindo-se fomento da maior relevância e, indubitavelmente, incentivo ao debate.


Desconstruir
O livro trata máximas como se fossem flexas, disparando-as e contraditando-as. Em seguida aborda o que chama de "O Problema de Sócrates", qualificando a equação Socrática de razão=virtude=felicidade,  a mais bizarra equação então existente. Nesse mesmo caminho questiona que onde a autoridade  é parte de bom costume,  onde não se fundamenta, mas se ordena, o dialético é uma espécie de palhaço.



Múltiplas idéias
 Como um todo a obra  faz remissões, introdutorias ou não. Registra com realce a acepção negativa de verdades estratificadas, funcionando como se fosse uma declaração de guerra, aos ídolos, aos deuses, às verdades.  Em seu trabalhar desconstrutivista Nietzsche fere de morte a moralidade cristã (tema recorrente);  insiste nos  "grandes equívocos da filosofia";  dispensa Kant e o seu pensar filósofico, abrindo exceção apenas para Heraclíto que afirma " o ser é uma ficção vazia",  tudo  em contrariedade a "adoração da razão"; continua e se opõe a idéia de um mundo real que existiria além do aparente; fulmina, por assim dizer as idéias modernas e seus representantes.




Há no livro  ataques continuados, são tantos e tão diversificados que montam um quebra cabeças  dos assuntos e posturas do autor. Observa-se que Crepúsculo dos Idolos faz uma síntese de toda a produção cultural de Nietzsche e, ao mesmo tempo, em que declara guerra ao que é estático, as verdades pré-estabelecidas.  O título é uma analogia  a ópera de Wagner, " Crepúsculo dos deuses". 

.Ainda e em relação a expressão "como se filosofa com o martelo", deve ser compreendida como fazer da filosofia um objeto capaz de colocar  abaixo  as mais fortes estruturas  possíveis. O martelo seria a pena que transmite para o mundo a queda dos ídolos e/ou o martelo seria, principalmente, o peso pesado, uma marreta, para derrubar, destruir os ídolos e bem assim como algo gerador de audiofrequência que ao tocá-los - aos ídolos -, pudessem revelar, para os homens, que são vazios. 

Mais que uma obra filosófica, Crepúsculo do deuses é a visão, os pontos de vista do autor  acerca do Cristianismo, dos ídolos como idéias pre-concebidas, os dogmas, a Igreja, a filosofia então praticada, enfim tudo aquilo que se opõe a visão livre adotada por Nietzcshe.


ECCE HOMO -

Famosa expressão romana usada por Pôncio Pilatos ao apresentar Jesus Crito aos Judeus, é também o título da autobiografia de Nietzsche, escrita em outubro de 1888, quando o autor contava apenas quarenta e quatro anos, é a sua última manifestação como filósofo, psicologo e anticristo. É, entretanto, inquietante suas idas e volta, persegue o Cristianismo verberando contra ele as mais fortes acusações e, inexplicavelmente, resgata elementos eminentemente cristãos para sua filosofia, como o fêz por ocasião de seu canto do cisne.  Sendo, possivelmente o seu livro mais controvertido, engana-se quem a imagina como mera biografia, escrita pouco antes da crise que o isolou do mundo, é uma apaixonante confissão e interpretação de suas lutas e de sua obra. Nela mostra preocupação ante a idéia de ser idolatrado e, em função de tal expectativa tece sua narrativa registrando a sua humanidade, em detrimento de ser visto ou mesmo confundido com um santo.


Todavia, vislumbra-se que o filósofo embora repugnasse ser idolatrado ou chamado de santo, mostrava, claramente, que gostaria de ser usado como modelo mas, nunca imitado. Em Ecce homo Nietzsche extrapola seu logos, mesmo na condição de grande pensador. Incluído entre os filósofos de maior ascendência de nosso tempo, diz, num discurso apaixonado quem é capáz de exercer influências sobre ele,  fala de seu elã, da origem de seus escritos, de sua vida e suas metas, o fazendo de forma autofágica para  que se pudesse ter uma visão dele mesmo, segundo o seu julgamento.

Dono de estilo totalmente diferente, Nietzsche demonstra desde cedo sua originalidade e, sendo incomum, nada mais natural do que por um meio ou por outro, macular aquilo que considerava o seu refúgio.

Assim, nada mais lógico que o ataque aos valores morais e a religião, até mesmo pelo fato de ter nascido e vivido, até a sua adolescência, num lar impregnado de cultura religiosa e de exacerbados valores morais. Eleger a moral como seu grande alvo, fez com que o filósofo travasse, nessa seara, sua grande batalha, assumindo a luta, a sua não aceitação, como se já representasse a vitória.   

Abertamente egocêntrico Nietzsche é, apesar de tudo, um divisor de águas. A filosofia que precedeu a esse filósofo é, revista, repaginada a partir desse que, sem dúvida alguma, foi um critico terrível da  filosofia tradicional do Ocidente, da religião e da moral. É bem visível e quase palpável o niilismo  do filósofo quando diz:

          "Por que eu sou tão inteligente?
Por que eu sei algo mais? Por que, acima de tudo, eu sou tão inteligente? Jamais me pus a pensar a respeito de perguntas que não são perguntas – eu não me esbanjei… Dificuldades religiosas de verdade, por exemplo, eu jamais as conheci por minha própria experiência. Sequer me dei conta até que ponto eu deveria me sentir “pecaminoso”. Do mesmo modo me falta um critério confiável para saber o que é um sentimento de culpa: segundo aquilo que se ouve a respeito, um sentimento de culpa não me parece nada digno de atenção…"

DA CONCLUSÃO -

Fechar esta abordagem sobre Nietzsche, ainda que muito simples, deixa um quê de desencanto. Mais que um autor, mais que um filósofo ELE foi alguém que veio para tocar, eivar de dúvidas situações cristalizadas, conceitos seculares e disseminar a contrariedade, as ideias de descontrução de ídolos, a beleza e, também o desconcertante niilismo.


Há algo, na filosofia de Nietzsche que me faz lembrar uma estória para crianças e, simultaneamente me  leva a recordar o Pequeno Princípe de Antoine de Saint Exupery que, feito para gente pequena, tornou-se um clássico para gente grande.


A luz sob as trevas do eterno, a novidade em contrapartida ao  estratificado, a desconstrução de ídolos ante o desnudamento de velhas idéias pre-concebidas, o filosofar com o martelo que destroi a inocuidade lembra-me:

"Que havia um reino muito distante onde o rei era absoluto. Tudo nele era real e verdadeiro. Assim, tão confiante e arrogante jamais poderia  imaginar que seria ludibriado por alguém. Certo dia, um palaciano daqueles que bajulam o tempo todo, voltando de uma viagem proclamou aos quatro ventos a existência de um fantástico alfaiate, que produzia roupas originais, lindas e que os homens que as vestiam eram os mais belos, inteligentes e diferentes, pois não mais se submetiam as mesmices da moda que vigorava até aquela ocasião. 

 
O rei ficou ansioso por conhecer a criatura que estava mudando todos conceitos em elegância, ensinando aos escolhidos como sobressair aos demais e entendeu que ele seria o mais bem vestido e portanto o mais bonito e o mais sábio, até porque ele escolheria o material a ser usado na confecção.  O pobre alfaiate foi apresentado ao Rei, que de imediato exigiu exclusividade - pois só ele poderia conhecer os segredos da alfaiataria; exigiu que somente a ele coubesse a escolha do material a ser usado, pois desse modo só ele teria acesso.

O alfaiate mergulhou em profunda tristeza. Um dia porém acordou sorridente e pediu para ser conduzido à presença real. Ante a majestade declarou que já idealizara a roupa perfeita, que de tão primorosa apenas poderia ser vista pelos inteligentes. Pediu ao rei as mais valiosa gemas e ouro para adquirir o tecido, pois no reino não poderia encontrá-lo. O monarca atendeu a tudo que fora pedido. Sua inteligência não o trairia.

 Vaidoso como ele só, mandou que seus homens de confiança espalhassem por todo o reino a peculiaridade do traje. No dia aprazado, o alfaiate que já se instalara no palácio real pede que o governante ordene uma grande festa para que todos possam ver a roupa nova do rei com todo aparato necessário à ocasião.  Pede, ainda, ao soberano, que vista-se no quarto de costuras, auxiliado pelo alfaiate e que se envolva numa peça de seda, retirando-a apenas para o desfile real. Sua majestade desejoso de romper as tradições que, nessa nova ótica não podiam ter qualquer importância, eram apenas roupas, enquanto a nova era a certeza da sabedoria, da inteligência.

 Tão inflado em seu orgulho e arrogância não se deu conta que, após vestí-lo e fazer apologia do tecido invisível ao homem médio, o alfaiate desapareceu de suas vistas. O Monarca, cheio de si, deixa o palácio, retira a seda que o cobria e põs-se a caminhar imponente ante a extensa procissão que se formara para acompanhá-lo. Silênco total, nada se fazia ouvir, exceto as respirações ofegantes, os corações descompassados, a voz do arauto incitando o povo para ver a roupa nova do rei com o olhar da inteligência, até que uma criança, que não se prendia a rótulos, era pura, não tinha pretensões de ser o mais inteligente, disparou o seu veredito: o rei está nú...................oh......................os súditos se digladiavam, alguns muito inteligentes se esforçavam em dar cor e contorno a roupa nova, outros que não abriam mão de seu conceito de nudez, fizeram coro com a criança, o rei preocupado se apalpa, se assusta, se envergonha.

Se encoleriza, não por ter sido roubado, mas poque fora enganado. Sua crença, sua auto confiança, seu respeito por si, tudo fora abaixo e, qual a explicação? A nova roupa (teoria) livrava-o dos rituais que necessitava para vestir-se, do peso, das amarras, dava-lhe liberdade.....mas, até onde atendia as necessidades do rei? Ele estava nú, envergonhado e sem nehuma proteção....as roupas velhas protegiam-no da nudez, do frio, dos olhares críticos de seu súditos, do riso ingênuo das crianças, eram confortáveis apenas necessitavam de equílibrio, o excesso de pedrarias, o apego exagerado, o culto a vaidade isso é que determinava o desconforto. O rei caindo em si volta a palácio, reflete e se dá conta que destruir ideias e conceitos tão sedimentados, com certeza teria o seu preço.


Pois é, Nietzsche é perfeito naquilo que se propôs - revirar a filosofia de cabeça para baixo - mas até onde está certo ?  Até onde vai a lucidez de suas idéias brotadas de uma mente constantemente atormentada pela dor? Deus está morto? Como, se vive no coração, nós lábios, na esperança de bilhões de homens e mulheres? E Nietzsche, pobre mortal, filósofo genial, será que finalmente, após longos anos de expiação terrena encontrou Deus?

 Jamais poderia ter conhecimento da existência desse filósofo único sem me deixar tocar pela beleza de suas obras, pela originalidade de suas idéias. Porém, jamais poderia ignorar essa chama que me acorda todos os dias e que me faz caminhar, independente de tudo. Essa certeza maravilhosa, Deus existe, está dentro de nós, o livre arbítrio não nos divorciou Dele, apenas delimitou nossas responsabilidades.

Ao contrário de Nietzsche, eu acredito num Deus que não saiba dançar, posto que é  a própria música que nos embala, a brisa suave que nos rodeia, a luz maravilhosa que saúda o amanhecer e reverencia o anoitecer, o SER que habita entre nós se fazendo igual.  Para chamá-lo não necessitamos de licença, erudição, poderio econômico, sequer falar, precisamos tão somente dirigir o nosso pensamento e nos fazermos receptivos.

Dessa feita ainda que não tenhamos um texto divertido, certamente temos um boa reflexão. Comentem, as críticas são bem vindas, aparam as arestas,  burilam o que ainda se encontra num estágio primitivo.